Apelidos

Dentre as coisas que me fascinam nesta breve passagem por este vale de lágrimas, uma consiste em procurar saber a origem e razão dos nomes de logradouros, países ou acidentes geográficos.

E, porque não, dos apelidos. Estes acessórios que, uma vez colados aos nossos nomes (ou substituindo-os), nos acompanham para o resto da vida. Em muitos casos até persistem nas lápides, amalgamados ao nome original. E quanto mais “mal vindos”, mais agregados ficam. A simples pesquisa dos motivos pelos quais alguns apelidos “pegam” e outros não, já merecia uma tese de doutorado em Sociologia, embora seja do conhecimento de todos o fato de que, quanto mais o beneficiário reage, maiores são as chances de colar a etiqueta.

Quem não se recorda de uma fatídica formatura de revista de recolher em uma noite tenebrosa no já lendário e tradicional Campo dos Aphonsos? Da varanda onde estávamos formados vislumbramos a figura tétrica de uma enorme ratazanossaura, muito comum no pátio interno do Corpo de Cadetes, esgueirando-se de uma boca-de-lobo à cata de migalhas nutricionais para seu pantagruélico repasto. Foi quando Raimundo Garrido da Nóbrega Jr., o rei da Aldeota, num momento de rara infelicidade, comentou.. "Vixi! Óxente.. Olha lá um GABIRÚ..." Prá que.. Nunca mais se ouviu falar no nome Garrido. A alcunha GABIRÚ ficou indelevelmente incorporada ao seu patrimônio pessoal. Ali, naquele momento mágico, nascia o GABIRU e desativava-se o Garrido.

Uns poucos nunca precisaram de apelido, pois o trouxeram do berço, como é o caso do Rolla. Por falar nele, possivelmente houve uma conotação fálica-culinária suplementar nos critérios para as promoções a três estrelas dos nossos leoninos companheiros, pois Pinto e Pimenta também permaneceram no firmamento estrelado. Ou pluralista, caso consideremos as promoções do Dias Farusca e do Chaves Chaveco.

Há apelidos que tiveram origem no leiaute do portador, devido a alguma característica física marcante. São as chamadas alcunhas anátomo-fisiológicas, como é o caso do Marcelo Buda, Miguel Cagalhão, Narinho Ortiga Bigorna ou Xupica, Reginaldo Espadim (mais tarde coapelidado Bolinha no Centro), Guerra Cabeção (posteriormente alterado para Róirói por conta da sua glossolálica e fantástica dicção), Bandeira Banderulha, pela formidável lapa com a qual a natureza brindou seu sistema olfativo (repararam como ele está cada dia mais parecido com o Marechal do Ar Santos Dumont?) , Figueiredo Ursinho, Eronides Tatuzinho, Esteves Patinhas (Pato Velho), Marreco (eis ai um caso típico da total absorção do nome), Eduardo Bumbum 66, o finado Baís Mão de Vaca devido às excepcionais manoplas de que era dotado, Gonçalves Magro (atualmente sem fazer jus ao apelido, dada a proeminente barriga que incorporou), Carlos Santos Volvox (nascido de uma gravura de um livro em uma aula de Biologia do Prof. Amim, em BQ) e Castro Patagão, dentre outros.

Cumpre lembrar que os banhos coletivos em BQ e Aphonsos facilitavam bastante a vida dos sagazes observadores apelidacionais, de quem nenhum detalhe corpóreo escapava. Guimarães Tripé e Jair Chapeleta, único leonino agraciado com o troféu Cogumelo do Sol são frutos destas “voyéricas” oportunidades.

Outros foram aplicados em virtude da semelhança do nome com algum produto, como o Lorenzetti Chuveiro, que, por alguma razão, não pegou.

Outros ligam-se ao procedimento peculiar do receptor, à época do segundo batismo, como o caso do Braga Braganalha, um exemplo de conduta perante o sexo oposto. Ventura Zé do Mato é outro caso que se pode enquadrar nesta categoria.

A cidade de origem deu ao Sobrinho Birigüi (hoje ostentando uma cabeleira à moda Supla), sua alcunha geográfica. O Serpa passou a portar o prefixo Tchê, também relacionado à sua origem. Enquadra-se também nesta categoria o Rolnei Camopho.

As atividades exercidas deram ao Krelling a pecha de Presidente, ao Cunha um celestial e querubínico Anjinho de Deus, creditado aos seus solos do Uirapurú no Peral e ao Santoro Bolão Melo, em virtude da sua intimidade com a pelota. O ... (como é mesmo o nome dele?) Caixote, devido à voz cavernosa aliada à atividade exercida pela família, que consistia em encaixotar presuntos em Nilópolis. Nesta categoria enquadra-se Adilton Dadidadá ou Adadidadalton, se desejarem, pela carga genética de radiotelegrafia que trazia de outras encarnações e Runivan Runivendas, que repassava a preços módicos com pagamento pós-fixado mercadorias importadas informalmente d’além mar, trazidas por algum executivo de fronteira, atividade na qual concorria com Deslandes.

Ainda relacionado à dicção perfeita temos o Pereira Anaiaia Peieia Cocóia.

Alguns apenas tiveram seus nomes resumidos, como o Carrocino Carroça, Zilmar de Freitas Zil, Garabini Garaba, Huber Huba e o Cavalcanti Cavuca.

Tínhamos a turma do efeito estufa, capitaneada por Andrade Defrost e tendo como discípulo o Ambrosano Sugosano (num caso raro de transferência de apelidos, chegou-se a chamar de Ambrocóptero um Hughes tipo pirulito que andou uns tempos enchendo o saco sobre nossas cabeças na Escola de Aeronáutica) e outros mais, todos adeptos da suga mental, que lhes imputava invariavelmente um complemento nominal correspondente. Normalmente Sugo alguma coisa ou alguma coisa Uga (ambos relacionados a Surubão). Amorim Amoruga e Garcia Suguru, ao farfalhar de suas pestanas (tchlep-tchlep), encaixar-se-iam folgadamente neste quesito.

Alguns filmes deixaram sua marca indelével, como foi o caso do Panlaleão, mais tarde Brancaleão devido ao Incrível Exército de Brancaleone e o Sodré Boi Sentado , posteriormente adaptado para Boizão, após um filme no qual os americanos demarcavam suas reservas indígenas (a seu modo, na base do massacre) onde aparecia um tal de Cacique Touro Sentado (Sedestre), julgado fisicamente semelhante ao finado Lélio Faria.

O Brambilla teve sua alcunha anal relacionada ao fato de ser a extremidade posterior da lista da turma e a efervescência flatônica deu ao Daemon (laureado merecidamente com o prêmio Luftal, conferido pela Academia Gasosa de Derrotos) a logomarca de Gambá. São apelidos classificados numa categoria especial, quase intestinal.

Graças ao aspecto psicológico apresentado pelo de cujus, subnomes auxiliares ou complementares adequados, como o Fernando Fossa (a quem se imputa o primeiro caso de depressão aguda ocorrido nas Forças Armadas brasileiras), foram convenientemente aplicados. Classificam-se tais relacionamentos como psico-patológicos.

Na categoria terminada com o sufixo guicha temos várias ocorrências registradas, onde me enquadro como Berguicha. Mas há outros, dentre eles o Simões Simicha e o Baís Baicha (novamente o finado Baís) que serão poupados, para que sejam preservadas suas pseudo opções transexuais e para que não se prolongue demasiadamente esta lista. Felizmente nenhum caso real comprovado! Por minha militância frente à porta do rancho coube-me ainda um complemento de Boca de Rancho Número 1 (BR1-G2).

Houve casos de apelidos ligados a fatos sazonais, como por exemplo alguma propaganda da época. Uns pegaram, como o Tadeu Arroz Brejeiro, por causa da propaganda do arroz que saltava da panela. Outros, como o Endo Gotinha da Esso não foram adiante, pela dificuldade da pronúncia ou tamanho do termo. O Silva Neto Bujão veio da época da fusão da Gasbrás com a Supergás, quando foi criada a Supergasbrás, em cujo anúncio aparecia um bujão de gás.

Pela intensa amizade dedicada ao então Cap. Schneider, Operações do Quarto EMRA, o Djalma Dija recebeu a alcunha de Schuna, mais tarde aportuguesado para Xuna. Neste caso enquadraram-se ainda o finado Carneiro Filho, Xufilho, e o Nonaka , Xunaka . Todos com fortes laços afetivos com o citado Oficial.

Todavia há vários cognomes cuja origem se perdeu na poeira dos tempos ou estão gravados na memória de alguns companheiros e que temos o dever e a obrigação de resgatar, razão pela qual ouso lançar este desafio sob forma de uma campanha de busca de raízes.

Senão vejamos:

Mendonça Cachorrão (Mendog)

Lobato Lingüiça

Barcelos Bacalhau

Paulinho Maizena

Carlo Alberto Bebeta Louca

Cassimiro Pena Tatão

Mauro Babão

Milton Juju

Finado Zé Carlos Bozó

Robson Bimbim

Janjão

Boca

Há muitos outros não mencionados. Colaborem nesta campanha enviando as observações pertinentes, para posterior registro e divulgação no livro ou revista que a nossa querida É Prá Leão pretende um dia editar.

 

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