Bolo de carne moída

Só quem voou o maravilhoso Búfalo C-115 dando apoio aos abnegados companheiros do Exército Brasileiro que sacrificam parte da sua existência como sentinelas avançados da nossa soberania territorial sabe dar valor a determinadas missões, como as de apoio aos destacamentos de fronteira.

Uma destas missões, atribuídas ao 1/15 GAv, em Campo Grande, eu tomei a liberdade de apelidar de vôo das galinhas... A gente decolava de Cáceres. O primeiro destino era Casalvasco. Em seguida São Simão, Fortuna e Porto Índio e pouso em Corumbá.

Na época o GPS era um sonho da família Jetsons e o VOR, coisa mais moderna que possuíamos instalado no Bufallo em termos de navegação, para nada servia. O NDB de Cáceres quando muito ajudava por cerca de uns 10 minutos, pois voava-se baixo. Agora... Imagine-se estes vôos em agosto, com a forte bruma seca e ventos de 35 nós... Ou nas épocas de enchente do Pantanal, quando o que se via era água e mais água, por cima e por baixo (e, porque não dizer, por dentro do C-115, que às vezes vazava).

Para nos ajudar, a única coisa que tínhamos a meio caminho era um enorme ipê amarelo, em forma de V. Era o nosso VOR.. que nunca ficava encoberto. Após avistá-lo, a outra coisa que tínhamos era o telhado de zinco do Destacamento (felizmente o único na região), que brilhava ao longe qual um bendito farol. Se perdessemos estas referências, o jeito era voltar para Cáceres, pois o combustível era contado, ou então arriscar voar em espaço aéreo de outro país.

Em cada pouso desembarcava um cesto de taquara trançada com galináceos e embarcava outro. Cheguei a sugerir ao Cmte. do Quartel em Cáceres a possibilidade de levar apenas os saldos de penosas, quando soube que as galinhas aerotransportadas tinham até nome e eram consideradas os bichos de estimação do pessoal de cada destacamento, a riqueza deles. Quase da família!

Um destes vôos contou com a presença do Cap Endo. O outro piloto eu não me recordo quem era. O pouso em Casalvasco foi perfeito, como aliás o eram quase todos os pousos do C-115. Como era difícil pousar mal com aquela máquina... A pista estava ilhada, pois era época das águas. Quando a enchente estava baixa, o percurso entre a pista e a sede do destacamento era feita em carro de boi. Quando alta, apenas de barco. E era o caso. Só de barco.

Na hora do taxi, o Bufallo, que ao contrário de seus colegas do reino animal, não foi feito para chafurdar na lama mas sim para voar, atolou...... Os Bufallos sempre atolavam em terreno molhado e macio. Era matemático. A providência inicial que se adotava em casos como este, após os devidos cuidados para a hélice não tocasse o solo, era descarregar a aeronave, cavar uma vala à frente o par de rodas atolado, se possível colocando pranchões no fundo da valeta, dar partida, aplicar os flapes a pleno e acelerar. O que foi tentado rigorosamente dentro dos costumes. Até que o sargento mecânico, que estava com o interfone do lado de fora gritou desesperadamente para cortar o motor. O Endo logo imaginou que era a hélice, pois o Bufallo não arredou pé (roda) do buraco. Mas era a casa do guarda campo, que ficava atrás do avião e que, àquelas alturas dos acontecimentos, tinha se evaporado, como na história dos três porquinhos... Não sobrou nada. Dizem que até hoje se encontram pertences do pobre funcionário pelo pantanal afora.

Parada para pensar... Refrescar os pensamentos... Ocasião em que idéias criativas e mirabolantes surgem à tona. Dentre elas uma apresentou-se como aparentemente a mais plausível: como o trator do destacamento estava impossibilitado de atravessar a água, porque não aproveitar os bois que tracionavam os carros e que estavam pastando sossegadamente pelas redondezas? Pensado e feito! Amarrados à perna do trem de pouso, usando as tiras de amarrar a carga, induziram os pobres bovinos a tentar puxar o avião pela frente. Nada!

Novas confabulações, idéias aperfeiçoadas.... E se tentassem puxar por trás? Cavaram uma vala pela parte traseira das rodas e mais uma vez convenceram os bois a trabalhar.... Nada! Até que surge a super-idéia, brilhante, que iluminou o dia.. Enquanto os bois puxavam porque não dar partida e tascar um reversão? Dito e feito.....

Para encurtar a conversa, por pouco não foi inventada uma nova maneira de fazer carne moída ou rosbife usando um avião...... Simplesmente se esqueceram de avisar aos bois o que pretendiam fazer e estes sem saber da surpresa, se assustaram e "estouraram"...... O resto da cena deixo por conta do imaginário de cada um. Apenas passei a crer que Deus, além de brasileiro, foi piloto da FAB, pois, milagrosamente, deu tempo de cortar o motor antes que o bolo de carne moída de boi de carro ficasse pronto...

 

 Para imprimir

 Voltar

 Seguir