Madeira nobre

Algumas das missões mais bonitas (e digo bonita no sentido poético mesmo) do 1/15 Gav e seus maravilhosos C-115 eram as de apoio ao Projeto Aripuanã.

O local era maravilhoso, com uma cachoeira indescritível e uma vegetação soberba e fantástica.

Decolávamos de Vilhena carregados de material para o Projeto. Combustível contado, para caber o máximo de carga. Posso afirmar sem medo de errar que aquele projeto deve muito da sua fase embrionária aos nossos C-115. Desde o elementar óleo diesel até alimentos e remédios, passando por animais e toda sorte de material e equipamento, muito foi colocado ali pelas nossas asas.

Invariavelmente não chegávamos direto ao destino, por melhor que tivesse sido planejada a navegação. A nossa sorte é que se avistava ao longe a nuvem de gotículas de água que se formava sobre a cachoeira e podíamos corrigir o rumo. Posteriormente, ao compararmos nossas cartas de navegação aérea com os mapas gerados pelo Projeto Radam, constatamos que a localidade estava plotada cerca de 60 Km fora da real posição.

A pista era uma maravilha de engenharia cabocla construída ao mais puro estilo tobogã. Pousava-se no sentido da descida, pois não havia como fazer 180 graus e retornar caso o pouso fosse na direção da subida. Na início da final para o pouso já se ficava envolvido pelas gigantescas árvores. Altíssimas e majestosas representantes do reino vegetal. A área de clareira antes da cabeceira da pista era puro toco. A faixa operacional da pista era estreita, onde mal cabiam as rodas da aeronave e terminava bem no barranco à beira do rio, onde ficava um minúsculo pátio de estacionamento. A maior preocupação era não deixar o Bufallo beber água. Como disse anteriormente, não havia como fazer 180 graus e a decolagem era sempre na subida do morro, independentemente do vento reinante. Mas nada que assustasse o velho C-115.

Pousar com pista molhada era um exercício de fazer inveja aos dançarinos de bale clássico. Um festival de freio e reverso.

Dentre as madeiras mais abundantes na região destacavam-se o mogno e a cerejeira. Para se ter uma idéia da fartura destas madeiras de lei supridas pelas imensas árvores que tiveram que ser derrubadas para a construção do vilarejo e da pista-escorregador, todas as casas, pocilgas, estábulos e demais instalações do projeto eram construídos com este tipo de madeira. Um luxo só.

A casa que nos servia eventualmente de dormitório quando o tempo fechava tinha as camas construídas de meia tora de madeira maciça, com uns calços na parte inferior. Uma noite de sono ao som do barulho da neblina da cachoeira sobre o telhado de zinco era algo para nunca mais se esquecer.

Como voltávamos vazios, para não bater lata e considerando que a produção de madeira era enorme, normalmente lotávamos a aeronave com pranchões e tábuas de mogno e cerejeira (havia outras espécies, mas estas eram as mais comuns). Metade da madeira ficava com os Serviços Gerais da Base Aérea de Campo Grande e a outra metade era dividida entre os membros da tripulação. No final quase ninguém queria mais nada e acabava ficando tudo para a Base.

Num destes vôos para Aripuanã, capitaneava a aeronave nosso Cap. Garabini (hoje comandante de helicóptero em operações off shore na Líder, inesquecível por ter dado origem a um grito de guerra alojamental – uma pena a FAB ter acabado com os alojamentos... - no qual, na calada da noite escura, assim que se acabava de ouvir o toque de silêncio e eram apagadas as luzes e o manto negro das trevas se apossava do recinto, algum gaiato carinhosamente berrava "heráaaaaaaaaaaaaaaalda", grito que era imediatamente repetido pela maioria da turma e respondido com um solitário e mais carinhoso ainda "é a mãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaae!!!").

Mas estamos pousados onde mesmo? Ah! Sim! Em Aripuanã! Enquanto descarregavam sua aeronave foi ele conhecer a serraria do Projeto. Deparou-se com um espetáculo que o deixou em estado de êxtase... Tudo coberto por uma serragem amarela que parecia ouro. A madeira cortada era amarela. Linda. Maravilhosa. Garaba, empolgado, perguntou se era possível levar algumas daquelas tábuas, pois tinha um projeto em mente. O operador das serras, no alto de sua rude e calejada experiência, possivelmente antevendo algum desastre, bem que tentou perguntar qual era o tal projeto, mas dada a flagrante empolgação do garboso (ou seria garabinoso?) Capitão, preferiu calar-se.

Devidamente descarregada em Campo Grande a preciosidade foi levada para a casa do Garabini, que contratou imediatamente o melhor marceneiro que conhecia (O Garaba é cria de Campo Grande e conhecia muita gente boa). Este fez-lhe um armário embutido que deixaria muito cenário de cinema no chinelo. Coisa mais linda. Amarelo ouro, encerado, causava inveja a quem o visse, dando margem à intuição de que esta passaria a ser a madeira da vez e da moda.

Quinze dias se passaram quando um cheirinho estranho apareceu no ar. Seria o esgoto entupido? inquiria Garaba... Mas ao mesmo tempo a madeira inexplicavelmente começava a escurecer, malgrado as tentativas em poli-la. E o cheiro aparentemente era originário das proximidades do armário... Se houvesse por perto algum filho adolescente e seu tênis chulésico, até poderia haver uma explicação plausível... Mas não era o caso...

Entrementes a coisa foi piorando... Passando pelos estágios de catinga e nhaca. Aceleradamente... Algo como um mix de cocô de rico (o do pobre, composto basicamente de farináceos é normalmente inodoro) com fábrica de celulose com chorume de lixão e cecê de jogador de futebol antes do banho em partida com prorrogação sob sol de 40 graus. O bodum era tão forte que lembrava certos setores de Brasília. Até os urubus evitavam bloquear a casa do Garaba e optavam por passar pelo través...

Quando a coisa atingiu o nível de fedor insuportável (algo como 7,2 na escala da catinga que vai de zero até 8 – este último somente atingido nos citados setores em Brasília) e começou a impregnar as roupas que estavam guardadas no cinematográfico armário, o Garaba, com visível dor no coração chamou seu amigo marceneiro, que, de nariz tapado e martelo em riste desmontou e queimou tudo...

Acreditamos que foi nesta época que o Garaba aprendeu o real significado da sabedoria popular em seu dito "Nem tudo que reluz á ouro". Aprendeu ainda que há muitos tipos de madeira de lei e que há muita lei que cheira mal... E se o operador da serraria tivesse tido a oportunidade de ouvir qual eram as intenções do Garabini, talvez pudesse ter-lhe advertido que, lá na região, a tal madeira é conhecida pelo pouco dignificante nome de "pau-bosta"...

O Código de Honra

 

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