O domínio dos ares :


Quem serviu com o Maj. Nilo Galego Carmona jamais esquecerá aquela figura rija dotada de uma força descomunal, mas com um coração tão mole quanto manteiga do sertão (daquelas que vem líquida em garrafas). Me lembrava os caranguejos bernardo-ermitão que tem um abdome mole e precisam usar uma casca de algum caramujo para defender suas vulnerabilidades. Uma pessoa íntegra e um exemplo de chefe.

O homem era tão perfeccionista que chegou a distribuir a seus comandados um croqui de como deveriam ser guardados nossos pertences operacionais nos armários de campanha. Cada coisa em seu devido lugar.

O dilema existencial do Maj. Carmona é que seu Esquadrão (EMRA 4) era composto basicamente por Tenentes oriundos dos T-37 da AFA e que iriam conhecer e voar o já arcaico, valente, robusto e saudoso temeia, "ligeiramente" diferente do moderno Cessna T-37C. O problema é que Tenente é Tenente em qualquer recôndito deste planeta, quiçá do Universo. Acho que não preciso falar mais nada sobre o tenentismo. Acho que foi por isso que saiu da FAB como Tenente Coronel, só para ter no título este mimo. Caso contrário teria que arriscar esperar até Tenente Brigadeiro, o máximo onde o Tenente pode chegar na carreira ativa da Força Aérea...

Como Cumbica, onde ficava a Base Aérea de São Paulo, sede do Quarto EMRA, estava ficando povoada demais e o movimento de aeronaves aumentando dia a dia, decidiu-se que nosso treinamento operacional de bombardeio e tiro terrestre seria efetuado em Planaltina, perto de Brasília, num stand de tiro denominado, se não me falham os neurônios encarregados das lembranças, de Gorilão.

Cada esquadrilha que para lá se deslocava representava um pesadelo para o Comandante do Esquadrão e um tormento para o Parque de Lagoa Santa, pois, via de regra, metade dos temeias já ficavam pelo caminho e voltavam de caminhão.

No dito stand de tiro ficávamos abrigados em barracas. O Maj. Carmona tinha o hábito de nos reunir todo fim de dia na chamada reunião do por do sol, quando, entre urinadas suaves e repreensões mais severas nos ia ensinando os macetes da sobrevivência.

Ele costumava usar um banquinho extremamente desconfortável, que considerava seu pertence exclusivo.

Toda vez que uma esquadrilha decolava para treinar o Maj Carmona acomodava-se no tal banquinho em alguma sombra e ficava em estado de alerta máximo, rezando aos seus mentores espirituais, fortes como ele, para que desta vez nada acontecesse.

Numa bela tarde eu estava sentado próximo, vendo-o fazer uma ponta num galho de árvore, com a delicadeza que lhe era peculiar (para, evidentemente, espantar a tensão, pois havia temeia voando) usando uma faca que nos fora distribuída e que hoje faria inveja a qualquer metaleiro pesado sádico ou mataria num acesso de chilique qualquer militante dos direitos humanos ou da tortura never more. Feita de uma liga de bronze com sei lá o que a dita tinha um soco inglês no cabo e, pasmem, um parafuso pontudo que possivelmente poderia servir para dar algum tipo de cascudo nos mais recalcitrantes.

Ao chegar a hora do pouso (os problemas quase sempre aconteciam nos pousos) senti que o apontamento no toquinho de madeira cessara e que os sentidos de alerta do Major se aguçaram. Só relaxaram após a última das quatro aeronaves sair da pista (no bom sentido) e iniciar o taxi, todas milagrosamente incólumes.

Para se chegar ao pátio de estacionamento passava-se por debaixo dos galhos de uma enorme árvore. A quarta aeronave era conduzida brilhantemente pelo então e hoje finado Ten. Alberto Koki Monma. Parecia tudo em paz e a missão coroada de êxito quando o Koki passou por debaixo do tal galho. Num relance eu o vi abandonar a aeronave e descer desesperado, correndo e gesticulando afastando-se da aeronave. Ao mesmo tempo, numa sincronia perfeita, o Maj Carmona voou do banquinho e correu para a ponta da asas da aeronave. Como aparentemente ia na direção do Koki, achei, num primeiro momento, que iria depenar o pobre nissei com a tal faca mística. Mas na realidade o Maj percebeu que a aeronave fora abandonada sem a aplicação dos freios de estacionamento e, com o motor funcionando, começava a taxiar sozinha. Foi tudo muito rápido. O tempo que se passou enter ele pular para dentro da cabina, cortar o motor e sair ventando lá de dentro, também gritando e gesticulando foi muito pequeno. Menor até do que o aumento no salário ínfimo.

Só ai, diante de um Maj Carmona vermelho e todo empolado é que soubemos que, ao passar por baixo do galho da árvore, havia caído dentro da cabina do temeia uma enorme caixa de marimbondos. E os bravos guerreiros alados estavam dispostos a mostrar quem realmente era o verdadeiro detentor do domínio da ares naquele empoeirado rincão do solo pátrio.

Eduardo e o alegre grupo

 

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