NAVEGAR É PRECISO...

Há momentos nos quais eu acredito que o Maj. Carmona devia ter uma carga de resgate cósmico bastante diferenciada, ao ter que assumir o comando dos Tenentes leoninos do Quarto EMRA. Se formos analisar etimologicamente, as palavras Carmona e carma devem ter a mesma raiz...

Afinal de contas teve que encarar uma turma pioneira não só num novo conceito de treinador avançado (birreator Cessna T-37C) como também a primeira turma a ser diretamente transferida para os esquadrões operacionais, ao invés do estágio em Natal, sem sombra de dúvida muito mais preparado do que os EMRAs para a crítica fase de transição Cadete – Oficial. E ainda por cima numa fase politicamente conturbada.

Este episódio eu testemunhei inocentemente e de graça. Tinha ido a Lagoa Santa levar um temeia para a revisão de 100 horas (não confundir com ginecologistas e revisão de senhoras). E a volta foi de carona com o líder de uma esquadrilha cuja missão era o cheque de navegação estimada de audazes e intrépidos Tenentes. Autênticos desbravadores dos ares! O Maj. Carmona era o líder e checador e, após a decolagem e reunião, o checado passaria a liderar o bando.... Quatro T-6s D. Daqueles pé de boi. Sem nada para navegar a não ser uma mísera bússola.... Uma temeridade...

No trecho de retorno, Lagoa Santa – Cumbica, o checado era nada mais nada menos que o Cassimiro Pena, vulgo Tatão. Hoje o rei do queijo minas frescal e do presunto em Belo Horizonte. Atualmente bastante parecido com o ACM, Tatoninho Malvadeza, entre porções do maravilhoso lombinho mineiro defumado e uma lata de cerveja bem gelada haverá de lembrar-se desta aventura!

Dado o briefing lá se foram os cavaleiros do apocalipse em direção às suas máquinas voadoras. Decolagem e reunião perfeitas. Uma vez nivelados e na proa do destino, Tatão assume a liderança. Como bom e experiente Tenente, havia preparado diligentemente sua navegação. Preencheu aquele calunguinha que a gente amarrava na coxa, separou a carta da rota, e, pasmem senhores, guardou diligentemente o restante do material na pasta de navegação e esta naquele compartimento de carga que o velho temeia tinha na parte... externa....

E lá vamos nós desafiando o ignoto... O tempo passando... Uma leve camada de estrato começando a se formar por baixo, ameaçando tisnar o brilho da navegação do Tatão....... Eu, na nacele traseira, como saco, isolado do mundo, sem ouvir nada, pois o interfone não funcionava, curtia o silêncio dos inocentes. Nem o liquidômetro do temeia dava para enxergar, o que a meu ver passou a ser uma vantagem naquelas circunstâncias, poupando-me de inquietações parasitas...

Pelas tantas comecei a notar sinais de inquietação no Maj. Carmona. Ele olhava para trás e erguia os sobrolhos como a me indagar algo. Pelas tantas, mesmo sem interfone e apesar do ruído ensurdecedor do temeia ouvi ele gritar para mim... Tenente... Onde você acha que estamos?

Gente.. Eu... de saco, sem mapa, sem ver nada, sem um instrumento sequer, a única coisa que pude fazer foi mostra-lhe meu polegar estendido para baixo.... Negativo.. Em outras palavras, uma maneira aeronáutica de dizer sei lá!

Eu sentia que o Maj Carmona estava berrando pelo rádio com o Tatão.... Mas este, certamente aproveitando-se das deficiências técnicas do sistema comandinho 5680 (no qual ninguém falava com ninguém e supostamente deveria receber as respostas via freqüência do NDB, entre os sinais de identificação de cada estação sintonizada) apenas apertava a tecla do microfone e fazia aquele barulhinho de portadora...

Eu comecei a ver as artérias do pescoço do nosso Maj Carmona se estufando. Jugulares pulsando não são bom sinal... Uma cor vermelho-cólera se apossava de seu rosto. Nem uma mistura explosiva de Viagra + loirinha tchã provocaria ereção tamanha... O homem estava possesso. Eu ouvia em meio ao ruído do temeia os palavrões coprolálicos com os quais mimoseava Tatão. O tempo piorando e a tardinha chegando.

Foi quando vi as manetes todas violentamente empurradas para frente. Com aquele motorzão a pleno senti uma violenta aceleração que me colou no encosto da cadeira..... Nossa aeronave (éramos o número 3 da esquadrilha) e estávamos mais acima, em formação de deslocamento, de repente mergulhou nos ares e foi ganhando velocidade até ultrapassar a aeronave do Tatão.

Em seguida foi comandado um sinal de reunião do qual nunca mais me esquecerei, pois minha cabeça batia nas laterais da capota. Eram semi-tunôs para cada lado, na mesma medida da raiva do Major. Quando chegou perto da aeronave do Tatão (achei por alguns instantes até que iria abalroá-lo), vislumbrei gestos obscenos nunca dantes imaginados (nem piloto comercial norte-americano faria tais gestos)... Acho que o Tatão, na outra aeronave deve ter ouvido os palavrões parrudos com os quais foi mais uma vez brindado.

Mas o momento era grave. Por baixo tudo fechado e, sabemos, cheio de montanhas das alterosas. Toca a buscar um espaço, quando, de repente apareceu um buraco entre as nuvens e deu para passar para baixo. Em seguida avistamos as instalações de uma fábrica de armas do Exército, e reconhecemos Itajubá.

Dai foi pegar o rumo do vale do Paraíba, sabendo que São José dos Campos nos acolheria de pistas abertas. Em lá chegando, mesmo com o combustível no finalzinho e sabendo que a noite estava perto, fomos até Cumbica.

Assim que a esquadrilha estacionou e os motores foram cortados nosso Maj Carmona desceu do avião e partiu para cima do Tatão. Achei que iria testemunhar um tatonato explícito.

Mas a coisa resumiu-se a uma descompostura magistral, pois imagino que toda a adrenalina do Maj Carmona havia se esgotado durante o vôo. Ainda mais que foi o tempo de correr para o hangar e desabar a tempestade trazida pela frente fria que estava entrando....

É por essas e outras que acredito que Deus foi Tenente da FAB.... E graças a Ele Tatão pode agora degustar seu queijinho, aio mesmo tempo em que deve imaginar que tinha razão o poeta luso... Navegar é preciso.. . viver não é preciso.

 

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