A odisséia da Apolo XIII (Epílogo)
Chegamos a Pirassununga na noite da terça feira. Encharcados. Tiritando de frio.
Cansados. Esfomeados. Diante de um sentinela incrédulo e assustado como se
estivesse diante do fantasma do Cadete Imortal tivemos que exibir todos os
documentos disponíveis. Mesmo assim fomos escoltados pelo Sargento Comandante da
Guarda ao Oficial de Dia, que na fatídica noite era o finado Tenente Lazzarini.
O espanto demonstrado pelo pobre Soldado repetiu-se em escala crescente. O
Oficial de Dia não sabia se chorava ou ria diante do quadro dantesco que
presenciava. Mas tinha que acreditar, pois estávamos à sua frente, palpáveis,
reais e mais catinguentos que o Mendog em noite de gala...
Refeito do choque causado pelo susto inicial e descartada a idéia de que aquilo
era apenas um pesadelo que logo iria passar, o Ten Lazzarinio recompôs-se e
passou a tomar as providências cabíveis ao inusitado caso. Acionou o rancho e
determinou o preparo de uma refeição quente enquanto nos conduzia ao alojamento
para um banho e troca de roupa. Tudo às pressas, pois tínhamos que pegar o
ônibus que partia à meia-noite para o Rio de Janeiro.
Acho que o episódio deve ter impressionado significativamente o Tenente
Lazzarini e permanecido na sua memória, pois assim que chegamos a Pirassununga
ele me escolheu para ser seu aluno no T-37C. Imagino que ele deve ter
vislumbrado ai a grande oportunidade de livrar a FAB de um lunático...
Uma vez recuperados e após fazer-nos repetir a história alguma vezes para
platéias variadas de curiosos incrédulos, ele reivindicou a guarda da Apolo e
nos forneceu uma condução até a Estação Rodoviária. Era a Viação Normandie que
fazia a linha Pirassununga – Rio de Janeiro. Chegamos em cima do horário de
saída do Ônibus. O único problema é que não havia mais vagas. Foi preciso muita
conversa e alguma dramatização para convencer o motorista a transgredir a lei e
nos levar de pé. Ou melhor, sentados no corredor. A presença do Sargento que o
Oficial de Dia designou para nos acompanhar (certamente para se certificar de
que havia se livrado do trio de malucos) foi fundamental nesta negociação.
Chegamos à Avenida Brasil já de dia e tomamos um táxi que nos levou de volta à
Escola. Foi o tempo de nos recompor e correr para chegar em meio à terceira aula
da manhã, morrendo de medo do atraso e da cadeia que poderia advir caso fossemos
vistos. Recordo como se fosse hoje a chegada esgueirando-se na alameda que
passava pelas janelas das salas de aula, vendo todos atentos à explanação de um
mestre. Por sorte não fomos vistos por ninguém e chegamos intactos ao
alojamento. Um bem aventurado cochilo pós carnaval da segurança no Corpo de
Cadetes. Depois de tantas peripécias era este o nosso único receio: o de
havermos chegado atrasados para as aulas.
Quando fomos transferidos para Pirassununga lá estava a jaca – agora
oficialmente batizada de Apolo XIII a nos esperar. O Lingüiça (Lobato) pintou
uma placa (o jipe não via uma placa oficial havia muito tempo) que consistia num
sapo à beira de um brejo cercado de taboas.
E lá íamos nós, um grupo de abnegados Cadetes laranjeiras, todo fim de semana a
rondar os alambiques da redondeza ou pescar nos pesqueiros próximos. O finado
Jorge Costa, Castrão Patagão, Tchê Serpa e muitos outros cansaram de empurrar a
máquina que se recusava a pegar pelas vias normais. Autênticos push-backs. De
vez em quando ela era ornamentada com as taboas da lagoa de decantação de esgoto
(bosteiro) da AFA e circulava lotada de Cadetes pelas estradas curimbatás...
Teve ainda muito vôo na ala do Citröen do finado Carneiro Filho... Outra
distração era subir e descer o morro que servia de anteparo para as balas do
stand de tiro.
Posteriormente foi feita uma reforma geral (IRAN), quando foram encontrados até
pedaços de lata de óleo de milho Mazzola no interior do motor. A tal vela que
foi colocada em substituição à que fora ejetada não saiu nem durante esta
reforma. Nas rodas traseiras não foi encontrado sequer um vestígio de que ali um
dia houvera algum resquício de freio, mesmo porque tal filigrana era mais
supérflua que feriado para aposentado. Foi nesta ocasião que a Apolo XIII ganhou
uma cor amarela que assustava de longe. No início de 1970 voltou de trem para
Campo Grande e foi posteriormente trocada por uma espingarda. Triste fim de um
herói.
O Tenente Lazzarini acabou me indicando para a aviação de caça. Imagino que deva
ter refletido antes de tentar me desligar... Afinal, a aviadores é permitido um
ligeiro quê de extravagância e alguns desvios de conduta.
O Superintendente da PF de Campo Grande faleceu sem acreditar que cometemos a
insensatez. Minha mãe comprou o estoque de velas do mercadinho local para
agradecer seus guias. Fiorino até hoje se encontra com seu ex anjos da guarda e
atuais colegas de trabalho e discute com eles que acredita que eles gastaram
toda sua quota de proteção nesta aventura e por isso não sobrou para o T-33. O
Póvoa ficou com a capacidade de memória redobrada a ponto de recordar todas as
leis vigentes neste paraíso tropical ao sul da linha do equador e arrasar entre
a militância jurídica goytaqueana.
Quanto a mim, hoje o que mais recordo de tudo isto é a capacidade que a gente
tinha de se divertir com tão pouco...
E agora, com a experiência retratada pelas cãs embranquecidas (o Póvoa escapou
porque seus cabelos brancos caíram), quando a gente imagina que amadureceu o
suficiente para não repetir périplos contendo esparrelas e sandices, me vem uma
única e aterrorizante certeza: eu faria de novo...fim...