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          Os Albuquerque Maranhão estavam destinados a dar ao Brasil filhos ilustres. Os fidalgos portuguêses, Jerônimo e Matias de Albuquerque aqui chegaram em 1532. Tomaram parte nas guerras contra os holandeses e franceses. Jerônimo seguiu para o Rio Grande do Norte para o Maranhão, a fim de expulsar os franceses que lá se encontravam. Vencidos os invasores, resolveu apor a seu nome – “e Maranhão”  – em homenagem à vitória. Pelo lado materno,  Severo descende dos Pedrosa, família originária da Inglaterra.

          Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão, pernambucano de Nazaré, era em 1847 eficaz colaborador de Fabrício Gomes Pedrosa, seu conterrâneo, estabelecido em Guararapes, onde gozava de grande prestígio comercial e social. Mais tarde Amaro veio a casar com uma das filhas de Fabrício, D. Feliciana Maria da Silva Pedrosa. Dessa união nasceram 14 filhos, nove homens e cinco mulheres: Fabrício, Maria, Amaro, Pedro Velho, Inês, Sérgio, Adelino, Augusto Severo, Isabel, Luís, Joaquim, Amélia, Alberto e Áurea.

          Dentre os irmãos de Augusto Severo destacava-se, em primeiro plano, Pedro Velho, médico e senador. Afastou-se do Congresso para governar o Rio Grande do Norte. Durante a campanha abolicionista, com seu grande prestígio, conseguiu, em todos os municípios, a libertação dos escravos, que receberiam a carta de alforria a 11 de julho de 1888. O Rio Grande do Norte teria sido, assim, o segundo Estado brasileiro a abolir a escravatura, antes mesmo da Lei Áurea. Foi, também, um dos baluartes da defesa da República, fundando o Jornal “A República”, hoje patrimônio do Estado. Orador dos mais eloqüentes, quando da partida de Ruy Barbosa para Haya, coube a Pedro Velho a honra de saúda-lo. E de tal maneira o fêz que Ruy, ao agradecer, considerou suas palavras, “jóias derramadas de um vaso de ouro”.

          Em viagem para o Rio de Janeiro veio a falecer, a bordo do paquete “Brasil”, no dia 9 de dezembro de 1907. Seu corpo, embalsamado, foi transladado para Natal.

          Alberto Maranhão, bacharel em Direito, foi deputado federal e governador do Rio Grande do Norte. Era o mais jovem e sempre lutou para que não ficasse no esquecimento a obra de Augusto Severo. Realizou inúmeras conferências sôbre o assunto, merecendo destaque à de Londrina, Paraná, em agôsto de 1942: “Aviação e Aeronáutica”;

          Fabrício Maranhão dedicou-se ao comércio e depois à agricultura. Foi dono de Engenho e chefe político.

          Amaro Barreto estudou piano em Paris, de onde regressou casado. Foi professor da Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro.

          Sérgio Maranhão desapareceu muito cedo. Joaquim Cipião e Luís Carlos, gêmeos, são falecidos. Luís Carlos viveu sempre no interior (Canguaretama), dedicando-se à agricultura. Cipião era músico. Chamavam-no “Maestro”. Em Natal trabalhou no Teatro Carlos Gomes, do qual foi diretor.

          As irmães de Severo souberam, também honrar o nome ilustre dos Albuquerque Maranhão.

          Quando visitei D. Maria Amélia Tavares, no Rio de Janeiro, senti a emoção com que se referia aos seus. Senhora amável, alma pura, falou-me de Augusto Severo, das suas experiências com um balão de brinquedo, a que dera o nome de “Augusto Severo Filho”. E contou:

       – Um dia meu irmão veio despedir-se. Ia a Paris, realizar seu sonho. Berta, a filha hoje freira, pediu-lhe: “papai, quero que o senhor leve esta medalhinha, porque tendo mêdo dêsse negócio de subir...” Severo para satisfaze-la, guardou a medalha.

          D. Maria Amélia é a única filha viva daquele casal feliz de Macaíba...

          Aos vinte e três anos a personalidade de Augusto Severo já estava bem definida. O físico avantajado era o espêlho fiel de espírito vigoroso. Figura simpática, sabendo o que dizia e fazendo-o desembaraçadamente, com os olhos mansos, o sorriso fácil e os gestos aristocratas, conquistava sem dificuldade as pessoas mais esquivas. Quantas jovens não sentiram bater mais forte o coração, ao ver aquêle moço elegante, dominando os salões! Mas o caráter retilíneo de Severo não lhe permitia viver farsas amorosas. Aprendera, desde cedo, a ser leal. E não demorou a encontrar aquela que seria sua bem-amada espôsa.

          A história dêsse amor pode ser contada em rápidas palavras> Fabrício estabelecera em Canguaretama a “Usina Maranhão”. Severo foi visitar o irmão, certa vez, e lá conheceu Maria Amélia Teixeira de Araújo. Era a professôra das filhas de Fabrício. Amaram-se e Severo pronunciou a frase tão antiga e sempre atual:

          – Eu quero casar com você!

          Maria Amélia, jovem, simples, dedicada, compreendeu aquêle que a escolhera. Casaram-se em Recife, regressando depois para Natal. Tiveram cinco filhos: Augusto Severo Filho, falecido quando cursava o segundo ano de Direito; Otávio, morto também; Berta, religiosa; Sérgio, comerciante em Natal; Mário, advogado em São Paulo.

          Em 1893 os Severo transferiram-se para a Capital da República. Já eram nascidos Augusto, Otávio e Berta. Sérgio nasceu em Petrópolis e Mário, na Ilha de Paquetá. Seu nascimento marcou o ponto final na existência de Dona Maria Amélia. A educação das crianças foi confiada à avó materna.

          Merece registro especial, neste capítulo, o nome de Sérgio Severo, fiel guardião da chama votada à memória do pai. Graças a êle, Augusto Severo não é prisioneiro do esquecimento, em sua terra natal.

          Sérgio nasceu aos seis de janeiro de 1895. Após a morte de sua mãe, seguiu para Natal, com os irmãos, em companhia da avó. Em 1908 voltou ao Rio de Janeiro para estudar. Cursou o Ginásio Pio-Americano e o Colégio Anchieta, em Friburgo, onde se formou. Foi bom estudante. No fim do curso teve seu nome incluído entre os dez melhores alunos, merecendo a tradicional coroa de louros. Regressando a Natal, em 1914, foi auxiliar de comércio, funcionário federal e comerciante. Hoje, mantém escritório de representação e conta própria. Casou-se a 11 de setembro de 1918, com D. Adla Lucena, de cuja união existem seis filhos: Berta, casada com José Elízio Bezerra Cavalcanti; Augusto Severo Neto, casado com Creuza Fonseca; Lúcia, casada com Paulo Paes Barreto; Maria Amélia, casada com Oldanir Soares. Agora os netos aí estão, crescendo para perpetuar o nome ilustre: Sônia, Olga, Berta, José, Virgílio, Sérgio, Paulo Maurício. O mais nôvo membro da família é Afonso Henrique.

          Presto esta homenagem ao filho de Augusto Severo, que dêle herdou, como patrimônio admirável, um espírito nobre e humanitário.

 

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