Direto para Pasárgada, a bordo do 14 Bis!

Após uma noite muito mal dormida e uma viagem em um sacolejante ônibus por buracos negros de asfalto, cheguei a Fortaleza, em cuja rodoviária almocei e de onde parti para uma espera de umas três horas no aeroporto, até o momento do embarque. 

Estava muito cansada, mal conseguia esperar a hora, mas agüentei firme até o momento do check-in, quando fui informada de que o vôo estava atrasado em apenas cinqüenta minutos. Após entregar minha mala, recebi a recomendação de comparecer ao Portão 7 daí a cinqüenta minutos. 

Dirigi-me para lá e, na hora marcada, eis que os passageiros apressaram-se e algumas crianças correram para a fila do embarque, enquanto eu mal conseguia despregar os pés do chão. E após um tempinho, que me pareceu interminável, a voz no alto-faltante: 

- Srs Passageiros, por motivos técnicos não será possível o embarque pelo Portão 7. Avisamos que o embarque se dará pelo 11. 

Novo corre-corre pelo corredor e a descida pela escada rolante para conseguir novo lugar na fila de embarque. 

Eu, já cansada, tendo tido um entrecortado sono de umas três horas e pouco (nada como um sono preocupado e entremeado de acordadelas assustadas para deixar o corpo cansado), já começava a sentir dificuldade em permanecer de pé. 

E nada de começarem a nos atender para o devido embarque. Sentei-me por um pequeno espaço de tempo, os cílios superiores e inferiores teimando no encontro inoportuno. 

- Srs. Companheiros de Viagem, alguém teria aí dois palitos, de dentes ou de fósforos mesmo? 

- Não tenho – responde-me alguém com visível cara de para quê? 

Nem espero que alguém pergunte: 

- Preciso manter os olhos abertos. 

Ninguém tinha e nada de sermos embarcados. Eu já me sentia “emborcada”, o corpo ameaçando curvar-se sobre si mesmo e cair estirado. 

- Srs.Companheiros de Viagem, acabo de ser informada de que a Cia. Aérea já mandou providenciar a comprar da aeronave. E para desculpar-se do atraso, irá devolver o valor da passagem para quem quiser embarcar imediatamente, porém no ônibus aí em frente, pelas rodovias intermináveis, até Rio ou São Paulo. Alguém se habilita? Os que concordarem, deverão antes assinar um Termo de Aceitação da Proposta. 

Daí a pouco começaram a atender no Portão 11, mas era para outro vôo. E como algumas pessoas não devem ter ouvido o aviso pelos alto-falantes, custaram a aparecer, o que ocasionou várias outras chamadas, até que veio um rapaz louro e afobado para o embarque. 

- Ufa! Estamos salvos! É a hora e a vez dos Augustos Matragas do dia. 

Vã esperança! Ainda ficamos mais algum tempo na bendita fila. 

- Srs Passageiros, está aí fora, no saguão inferior, a solução! Não vimos antes porque não queríamos. 

- Como assim? – pergunta-me a moça de trás. 

- A réplica do 14 Bis! Ofereço-me voluntariamente como piloto. 

Demoraram um pouquinho a se decidir, apesar de alguns até acharem que seria uma aventura inesquecível, para recordar no céu. Ouvi alguns cochichando e apressei-me: 

- Srs. Companheiros de Viagem, qual o problema? Não se preocupem, tenho brevê de piloto. (De cozinha e de carro particular, com sérias recomendações para trafegar apenas em pacatas cidades do interior). Mas abro mão do meu pretendido posto e aceito ser apenas o co-piloto. 

Já estavam quase aceitando, mas eis que finalmente começamos a ser atendidos e não foi preciso chegarmos a tanto. 

Enfim, o avião decolou, com apenas uma hora e vinte minutos de atraso. Felizmente a viagem transcorreu bem e por volta de 23:30 desembarcávamos em São Paulo. Eu tomei o rumo para casa, para depressinha aconchegar-me nos lençóis macios, apertada nos braços de Morfeu, sonhando com o perdido paraíso. 

Da próxima vez, nem perco tempo. Entro logo no 14 Bis e rumo direto para Pasárgada. 

Maria Esther Torinho 
met48@terra.com.br 

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