PASSAGEM DE COMANDO

 

        Na obra do Cel Lucena, “Trajetória Especialista”, encontramos a mensagem de despedida do Ten.-Cel.-Av.-Eng. João Mendes da Silva, por ocasião da passagem de Direção da E.T.Av. ao Cel.-Av. Bento Ribeiro Carneiro Monteiro, ocorrida em 31 de janeiro de 1949.

 

        “Deixo a E.T.Av. após dois anos e dois meses de Comandante Interino e Agente-Diretor, além de três anos durante os quais eu fui Encarregado do Endoutrinamento dos Alunos, Chefe da Administração Militar e Representante do Ministério da Aeronáutica junto ao senhor John Paul Riddle.

       

        A E.T.Av. é um estabelecimento onde a vida tem velocidade excepcional em face mesmo de suas próprias necessidades. Assim o tem sido desde o 22 de Novembro de 1943, quando dei a primeira aula; a partir desse momento acelerou-se vertiginosamente o ritmo da vida, pois chegou a ter 2.300 alunos, 2.100 funcionários e 321 instrutores.

 

        À medida que o tempo passava, novos instrutores iam chegando dos Estados Unidos, novos candidatos iam sendo por mim examinados e por mim matriculados.

 

        Entretanto, poucos eram os oficiais de que eu dispunha para o trabalho na Escola que crescia, diariamente, de modo assustador.

 

        E assim se passaram cheios de lutas, suor, momentos de alegria e de tristeza os anos de 1944 e 1945, anos de fascinante trabalho na Escola Técnica de Aviação.

 

        À proporção que a E.T.Av. se desenvolvia apareceram inúmeros problemas, devido:

 

        1) ao seu funcionamento peculiar, diferente de suas congêneres da F.A.B.

 

        2)à liberdade de ação que tinha o senhor J.P.Riddle de acordo com o seu Termo de Ajuste, documento muito comentado, mas que fora imposto pelas circunstâncias ao Ministro Salgado, como disse certa vez o Exmo Sr. Ministro Trompowsky a respeito do mesmo:

 

        “O contrato era oneroso para os cofres públicos, mas muito mais onerosa seria a liquidação total da nossa Marinha Mercante ou os prejuízos morais conseqüentes à inatividade da nossa Força Aérea e com os quais jamais se conformariam os nossos aviadores”. Eu próprio combati o Termo de Ajuste, mas fi-lo com pleno conhecimento junto ao Sr. J.P.Riddle; fi-lo com as pouquíssimas possibilidades de que dispunha, dentro das cláusulas e por entender que assim me comandava o patriotismo de oficial da F.A.B.; tão certo eu estava que, não só obtive pelo raciocínio e persuasão os fins que colimava em cada ocasião, como me foi possível preparar a Escola para o desfecho de 29 de Setembro de 1946, quando a mesma iniciou vida nova, em novas bases já estudadas e consubstanciadas em Organograma pronto desde Fevereiro de 1946, e em documento já apresentado como Anteprojeto de Instruções para o funcionamento da E.T.Av., em Abril de 1947”.

 

        Na verdade, desde o primeiro dia em que comecei a desempenhar as minha funções na E.T.Av., delineei um projeto através do qual me seria possível obter e usufruir o máximo de rendimento do trabalho do Sr. J.P.Riddle e seus auxiliares sem nenhuma quebra de dispositivo do Termo, e preparar a Escola para a eventualidade de trabalhar com a cooperação de um mínimo de americanos ao findar o Termo – caso fosse obter os oficiais e formar os monitores para a substituição – ou pedir ao Exmo. Sr. Ministro a aprovação de outro Termo, com o Sr. J.P.Riddle ou um de seus auxiliares, mas radicalmente menos oneroso para o erário – caso não pudéssemos obter oficiais, pois os monitores poderíamos formar nessa segunda fase, como aliás o fizemos. A segunda solução foi escolhida pelo Exmo. Sr. Ministro.

 

        Em março de 1946, foi denunciado pelo Exmo. Sr. Ministro Trompowsky o Termo de Ajuste do Sr. J.P.Riddle e, como já especificado acima, celebrado um contrato com o Sr. Harry Nelson Gill, que, pelo mesmo, tinha sob sua responsabilidade somente a instrução técnica da E.T.Av., ficando tudo o mais sob a responsabilidade do Comandante...

 

        ...Estava assim aprovado pelos Exmos. Srs. Presidente e Ministro o meu projeto mediante o qual, com um contrato substituindo o Termo de ajuste, havia uma economia prevista dpara o ano de Setembro de 1946 – Setembro de 1947 de  Cr$ 36.000.000,00 (trinta e seis milhões de cruzeiros) ou seja 40% da despesa anterior da Escola, que foi de Cr$ 120.000.000,00, economia esta que se acentuaria no ano de Setembro de 1947 – Setembro de 1948, à proporção que fôssemos substituindo os 321 instrutores americanos, deixados pelo Sr. J.P.Riddle, por oficiais e sargentos monitores que a própria Escola fosse formando; na realidade a economia realizada foi maior ainda que a prevista...

 

        ...Estava realizado o meu primeiro objetivo que era de preparar a E.T.Av. com uma “fase mista”, de transição, para se tornar integralmente brasileira, a partir de 31 de Dezembro de 1949, data de expiração do contrato do Sr. Gill, aproveitando a experiência dos técnicos americanos durante Setembro de 1946 a Dezembro de 1949, experiência, que, aliás, reputo indispensável à Escola mesmo após 1949, em bases, é claro, diferentes das atuais e de um pequeno grupo de 25 a 30 instrutores para o Curso de Monitores, a fim de evitar que, sem indústria aeronáutica própria onde o progresso aviatório é sentido constantemente, caiamos em atraso em relação à aeronáuticas dos outros países.

 

        A vida continuou sobre novo aspecto, em 1947, quando ainda funcionamos sob regime de créditos especiais e, em 1948, quando estamos funcionando no Orçamento da República. A E.T.Av. consolidou-se assim em um prazo extremamente curto e hoje pode ser apresentada como uma expressão genuína do trabalho dos oficias da Aeronáutica.

 

        Ao passar o Comando da E.T.Av. o meu trabalho se encontra próximo da sua meta....

 

        São inúmeros os momentos de infinito prazer que temos tido na Escola, todos independentes da vontade dos homens e fruto do nosso trabalho, da nossa tolerância e compreensão mútua. A primeira graduação a 10 de agosto de 1944, as graduações seguintes até a de hoje; as vésperas de férias, quando os alunos sorridentes e satisfeitos se preparam para partir, rumo às suas cidades natais onde ostentam com garbo e satisfação o uniforme da Escola; os “shows”, as competições esportivas e os bailes dos alunos; as cerimônias religiosas na capelinha da Escola; as páscoas; as noites juninas e as férias que proporcionamos aos que não podem ir para casa, (em uma fazenda perto de São Paulo, em cima da represa de Santo Amaro); tudo enfim que dá prazer aos alunos porque a Escola existe por causa deles. Suas satisfações e prazeres, bem como com suas tristezas são também satisfações, prazeres e tristezas para os que servem na Escola.

 

        A Escola Técnica forneceu a coluna-mestra dos serviços de manutenção e reparação do material da Força Aérea e do Ministério. Para se ter a noção exata do esforço, é necessário considerar que os alunos trabalham 45 horas por semana, e que as férias escolares são apenas duas semanas no Natal e dez dias em Junho”.

 

        O contrato entre o Ministério da Aeronáutica e o Sr. Harry Nelson expirou no final de 1949, passando, a partir de então, a Direção Técnica da Escola a ser exercida por um oficial da Força Aérea Brasileira. Os instrutores norte-americanos permaneceram por ainda por mais um ano.

 

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