REMINISCÊNCIAS

 

         Vejamos o que os Ex-Alunos da ETAv têm para nos contar

 

Sou Tarcisio Ferraz Arruda, remanescente dos anos 40. Apresento-me como um simples limeirense, que se voluntariou à famosa Escola Técnica de Aviação, em setembro de 1944. Prestado o concurso e aprovado, fui incluído na 3ª Esquadrilha, tendo como comandante o Ten. Eurico e o Sargento Kalil. Hoje, agradeço o aprendizado militar e técnico desse estabelecimento. Formei-me na 18ª turma, Dia da Vitória, 08 de maio de 1945, tendo como paraninfo Maj Brig Ar Gervásio Duncan. Visitava a Escola, nesse dia, o General Arnold (USA) e o Ministro da Aeronáutica Salgado Filho.

 

Eu era da especialidade de Sistemas Elétricos, formado em 9 de maio de 1945, 18ª Turma da ETAv e meus companheiros de especialidade eram: Arlindo Montagnoli Filho - Antonio F. Mabilde - Carlos Moreira Araújo - Hélio Spindola Costa (orador) - José Clayton Píton - Alcides de Azevedo.

 Atualmente resido na cidade de Canoas, RS, sede do 5º COMAR, na rua Anita Garibaldi, 315, Centro, CEP 92010-100. Se pudesse, gostaria de receber mais histórico da ‘chocadeira’. A ETAv era assim chamada, porque, com o Brasil declarando guerra ao Eixo, era necessário formar, de forma rápida, especialistas para suprir as necessidades da FAB, e os alunos da ETAV eram chamados ‘filhos da chocadeira’, pois se formavam mais rapidamente que os da Escola de Especialistas do Rio de Janeiro.

  

Nazareno Medeiros

 

VIAGEM A FLORIANÓPOLIS COM MEU PAI

 

Quando li as instruções para ingresso na Escola Técnica de Aviação, entusiasmei-me deveras, especialmente pela oportunidade de estudar eletrônica, matéria que sempre me interessou, além de prestar o serviço militar.

Talvez a combinação desses fatores levou meu pai, faroleiro aposentado, a enfrentar a minha separação da família, levando-me a Florianópolis para fazer minha inscrição de candidato, no Destacamento de Base Aérea daquela capital.

Este acompanhamento também se prendia ao fato de jamais eu haver deixado minha cidade natal – Laguna - e, assim, desconhecer como era “a cidade grande”.

Estivemos hospedados durante um, talvez dois dias, na capital catarinense, numa pensão não muito chique. Das “negociações” na Base Aérea restaram apenas a lembrança de que eu teria de regressar quando fosse chamado para os exames.

Voltamos para Laguna, onde continuei a prestar serviços na Comissão de Marinha Mercante, anexa à agência do Lloyd Brasileiro S. A..

 

DESPEDIDA PARA SÃO PAULO

 

Falha-me a memória para dizer quanto tempo esperei para saber que me deveria separar mesmo de minha família, o que se deu com a chegada de um telegrama.

Feitas as malas (acho que era só uma...) foi a hora das despedidas e da “choradeira” de meus irmãos e, especialmente de minha madrasta, a quem queria como mãe.

Nossa família morava em um local de nome Roça Grande, à margem da rodovia BR-101, pelo menos parcialmente pavimentada naquele ponto. O ônibus, avisado o motorista, parou para me apanhar.

O percurso durava umas duas ou três horas até a capital, tempo em que permaneci “matutando” qual seria o meu proceder daí para frente.

E lá fui eu, com ônibus da Empresa Auto Viação Catarinense, linha Laguna-Florianópolis.

Iria apresentar-me na Base Aérea para receber as passagens para Curitiba; nova apresentação, outra passagem para São Paulo e, afinal, a ETAV.

Em Florianópolis, hospedei-me, não sei por quanto tempo, na mesma pensão, não conhecia outra na cidade.

Ao embarcar no ônibus, travei conhecimento com um outro candidato a aluno de nome ATILIO BORTOLON, que foi companheiro de aventura na cidade desconhecida chamada Curitiba.

Na nova apresentação “militar”, depois de indagarmos sobre como chegar a Bacacheri, viajarmos de bonde (veiculo desconhecido). Ao chegar foi frustrante: o destacamento não tinha instruções sobre a emissão de passagens e foi uma troca de telefonemas, muito difícil naquele tempo, entre Curitiba e Florianópolis. Resolvido o impasse, fomos encaminhados para S.Paulo.

Ao chegar, novas indagações para achar a Visconde de Parnaíba e depois o número da Escola. Durante o trajeto, lembro-me bem, ia guardando mentalmente as ruas por onde passávamos, numa intenção de reencontrar a origem, na hipótese de não ser atingido nosso objetivo.

 

ALOJAMENTO NA 7ª ESQUADRILHA

 

Meio difícil acertar agora como fui parar na 7ª esquadrilha.

Posso dizer que, inicialmente, passei pelo ANEXO 13, um barracão enorme com camas-beliche, e onde, durante minha permanência, roubaram-me um relógio de bolso, marca POLONO, presente de meu pai.

De nada adiantaria tentar reavê-lo, diante das circunstâncias em que me encontrava. Ainda o tenho na memória, especialmente pelo fato de que para acertar os ponteiros era necessário pressionar a “cabeça”, quando nos demais era preciso puxá-la. Aparentemente não era de grande importância, mas, várias vezes uma pressão imperceptível modificava as posições dos ponteiros.

Instalado na esquadrilha, dispúnhamos de armário particular para a guarda de nossos pertences, banheiros e cama beliche, se não me engano.

Para ser aceito como recruta era exigido exames de saúde, coisa para mim ainda novidade, mas cheguei lá.

Neste ponto, ou melhor, nesta graduação, o ordenado era de 300,00 (trezentos  cruzeiros/cruzeiro novo)  não me lembro.

Recebíamos fardamento, calçado, roupa de frio, meias e etc. para enfrentarmos a instrução técnica e, após o almoço, a instrução militar.

Ficou-me na memória a figura de um terceiro sargento, chamado Sgt. GARCIA. Sua principal característica era o desejo de estar sempre EM DIA com a instrução militar. Disse, certa ocasião, que sonhava em conhecer o REGULAMENTO DISCIPLINAR DA AERONÁUTICA, inteirinho, e de cor.

Voltávamos da instrução militar já próximo do meio-dia, e, assim, logo nos preparávamos para o RANCHO.

Certa ocasião, num feriado, eu, permanecendo na Escola, ao ser servido um sanduíche avantajado, não me satisfiz e, dando volta na fila, busquei outro. Fui notado pelo militar que controlava o movimento, mas me deixou passar...

Após algum tempo no ANEXO, fui transferido para a sétima esquadrilha, no conjunto de edifícios da Escola.

Nosso “chefe supremo” era o tenente PASCHOAL, oficial jovem ainda, permanentemente cuidadoso em sua aparência pessoal, estava sempre muito bem fardado.

Tínhamos revistas semanais para a disputa da melhor esquadrilha da Escola, e, naturalmente, escala de serviço, com “cabo de dia” e auxiliares.

Permaneci nesta esquadrilha durante todo o tempo que estive na Escola.

 

REMINISCÊNCIAS MILITARES

 

            Desde a admissão na Escola, éramos preparados para o posto de cabo e de sargento, antes de terminar o curso técnico.

        Tínhamos as instruções normais do Exército para o preparo dos recrutas, soldados, cabos e sargentos: ordem unida, regulamentos disciplinares (lembrando o Sgt. Garcia), marchas e juramento à Bandeira.

        Algumas reminiscências da época:

 

-         Ordem Unida nas ruas do Brás (ah! se lembrasse dos nomes!) mas, em uma delas, durante um pequeno descanso, lembro-me haver sentado na calçada e experimentado deitar-me de costas, para um melhor relaxamento. E neste momento ocorreu-me que, em Laguna, jamais aconteceria um “quadro” destes.

 

-         Um plantão noturno no antigo hipódromo da Mooca, com preparo prévio de aprendizado de senha e contra-senha. O serviço era prestado com fuzil, baioneta e munição. Ao percorrer a minha área, ultrapassei o limite e tive que fornecer a identidade com a tal senha.

 

-         Outro tipo de plantão era dado nas dependências da esquadrilha; num destes, ao assumir, exigi que me fosse apresentado pelo “cabo de dia” anterior uma relação do material para limpeza do alojamento e dependências.  Como ele não havia recebido do antecessor tal relatório, preparei um para assinarmos juntos. Algum tempo fui questionado sobre um determinado material que deveria estar presente entre os demais. Respondi que o que eu recebera se achava descrito na “parte” por mim assinada e, portanto, não me caberia qualquer responsabilidade pelo fato. Fui respeitado e nunca soube como a Escola resolveu a questão ...

 

-         Já próximo de me formar, certo dia ocorreu que, em virtude de pressa, não troquei de uniforme para ir ao hipódromo, estando eu coberto com uma capa de chuva. No primeiro instante não me preocupei, mas, logo após, resolvi procurar o tenente Abrahão para lhe explicar o fato. Este oficial, diariamente, fazia inspeção nos uniformes dos alunos (a esta altura já éramos “formandos”) e, quando me expliquei, ouvi uma resposta que me deixou a certeza de haver mudado o seu pensamento a respeito da inspeção, declarando ele que não seria o “uniforme” (precisaria eu estar de “caqui”). E agora? O que iria ele examinar? Repassei todos os itens possíveis do exame e fiquei na expectativa dos acontecimentos. No momento adequado, o tenente Abrahão procurava pela “placa de identificação” (e eu então me convenci que ele havia antes observado que eu estava “em ordem”, quando teve uma pequena demora para a declaração que eu ouvira; acho que admirou meu conceito de cumprimento do dever).

 

-         Na “ordem unida” havia um comando para o “grupo de combate”, formado em “coluna por três”, que, obedecido, fazia com que a coluna do centro executasse 3 “meia-volta volver!”, a coluna da esquerda 3 “esquerda volver!” e a coluna da direita 3 “direita volver!”. Executado com exatidão, o grupo de combate estaria, ao fim dos movimentos, seguindo na mesma direção, todos em perfeita “coluna por três”. Entretanto, qualquer erro, de qualquer componente, deixaria o “errado” inteiramente “perdido” e iria precisar encontrar o lugar onde estava no começo, si pior não fosse pior a situação resultante para o dito-cujo !!!

 

-         Em meio a tudo isto de militarismo, houve também treinamento musical, ministrado pelo único oficial de cor que conheci; infelizmente não me ficou gravado o seu nome. Entretanto, com ele, ensaiamos, como um coral, uma música a que, de memória, dou o nome de “VIVA O SOL DO CÉU DA NOSSA TERRA”. A letra era reduzida (“viva o sol / do céu da nossa terra / vem surgindo / atrás da linda serra “), mas o que havia de interessante, era o fato de o nosso maestro insistir que “terminava aqui”, sendo o “aqui” a posição de suas mãos entre as pernas ...

 

-         Ao terminarmos a instrução militar, voltávamos para a Escola e, ainda em forma, ouvíamos a chamada e a posterior (e diária) distribuição da correspondência. Cada aluno era chamado nominalmente e quando o número de cartas ultrapassava cinco, havia sempre o grito uníssono: “G I B Í   !!!).  A razão era uma coluna de correspondência dos leitores da revista ‘GIBI”, uma espécie de “clube do leitor”. Certo dia, sabedor que eu havia fornecido meu nome para a tal revista, um colega da esquadrilha de nome Humberto (éramos vizinhos de armário), enviou-me uma carta de mulher apaixonada, onde aparecia a frase: “nós as mulheres sofremos tanto !”. O tom com que foi escrito me pareceu algo familiar – falávamos freqüentemente –, mas fiquei na expectativa. O fato se repetiu e logo após ele acabou confessando a autoria das cartas ...

 

-         Esquecia-me da festa de aniversário da Escola !

Quem possuir a coleção do “Papel Pega-Mosca” poderá situar, no tempo, a ocasião em que se deu o que descrevo a seguir. Primeiramente, o fato se deu alguns dias ANTES do aniversário, ocasião de mais um treino para a apresentação de um PELOTÃO DE DEMONSTRAÇÃO.

No local em que seria realizada a festa (antigo Hipódromo da Mooca) se achava presente, entre outras pessoas de quem não recordo, um subtenente que, à boca pequena entre nós, era conhecido por “tenente jabá”, talvez pelas espinhas no rosto.

O pelotão, do qual eu fazia parte, se aproximava quando, com o microfone em mãos, o subtenente anunciou: “Eis que surge o bravo tenente Abron, com seu peloton de demonstraçon”.

Bem; foi só isto antes das evoluções que o pelotão executou e, acredito que o célebre comando das três meia-voltas também foi realizado...

       

REMINISCÊNCIAS TÉCNICAS

 

            Falo agora do CURSO BÁSICO, iniciado algum tempo após ser aceito como recruta.

        Era o que se chamava de INSTRUÇÃO TÉCNICA para a preparação dos futuros sargentos especialistas da FAB.

        Dos cursos ministrados recordo que havia: MOTORES, TEORIA DE VÔO, FÍSICA, MATEMÁTICA, ELETRÔNICA e METEOROLOGIA, além, é claro, o de RADIOTELEGRAFIA, minha especialidade.

        De motores (de avião) recordo das explicações sobre o motor a explosão e as variantes para o motor aeronáutico; conheci o motor radial, vimos como era o funcionamento em um painel preparado para vermos “em câmera lenta” os movimentos dos pistões, a admissão do combustível e coisas afins.

        Em teoria de vôo as influências das condições do tempo, a velocidade, as forças atuantes na aeronave, as questões de centro de gravidade, os lemes de direção e profundidade, etc.

        A meteorologia trouxe-me o conhecimento mais aprofundado das medições de velocidade e direção dos ventos, umidade do ar, pressão atmosférica; terminou com um exame de campo, onde se mostrava se realmente havíamos assimilado os ensinamentos ministrados. Lembrei-me que guardo o resultado deste exame entre meus pertences.

        Em física, matemática e eletrônica foi onde me dediquei mais, em virtude de minhas predileções, desde o tempo de estudante.

        Ao fim do curso básico, éramos submetidos à CLASSIFICAÇÃO para uma especialidade. Ignoro quem tinha a responsabilidade de analisar os resultados obtidos pelos alunos durante o período decorrido.

        Recordo-me, muito bem, que, certo dia, ao ser divulgadas as classificações, fui incluído entre os que iriam se especializar em HÉLICES.

        Fiquei muito contrariado com isto; mas, apareceu-me um aluno se dizendo descontente com a classificação recebida de RADIOTELEGRAFIA, quando ele desejava justamente a minha classificação.

        Seu nome era (e espero que ainda esteja vivo) ABILIO SERRA, há algum tempo morador em São Paulo, e que me visitou em Vitória, passados vários anos.

        Fomos ter com a pessoa responsável pelas classificações (um americano, ao que me recordo) expusemos nossa situação e conseguimos fazer a troca pretendida. (eu havia estudado telegrafia quando ainda estudante ginasial).

        Naquela época eu tinha perdido meu pai e desejava ser formado no menor tempo possível, por questões financeiras; assim, influenciado pela duração do curso, deixei de pleitear o de RADIOMANUTENÇÃO, meu mais ardente sonho.

 

        Passei com isso, a pertencer a um grupo especial, freqüentando aulas de telegrafia para adquirir os hábitos da FAB, ministradas por um professor americano (teoria) e, após, por um sargento telegrafista que nos ensinou os “macetes” da operação real que iríamos enfrentar.

 

REMINISCÊNCIAS TÉCNICAS (ainda)

 

        Durante o curso básico, quando recebíamos aulas de  eletricidade, especialmente de eletrônica, pude sentir que me destacava entre os alunos, em virtude de estar a lidar com assunto já conhecido.

        Lembro-me bem que me dedicava no estudo da eletrônica, pois era a oportunidade para aprofundar meus conhecimentos.

        O caderno de apontamentos, conservo até hoje, ainda que bastante apagado – foi escrito a lápis –, e a data de inicio registra 11 de dezembro de 1946. Nunca imaginaria que quatro anos depois seria pai pela primeira vez ...

        Nesta primeira aula, noções sobre a lei de Ohm, com desenhos de pequenos circuitos.

        O assunto continuou até a nona aula, quando estudamos a pilha seca e suas associações.

        Na décima primeira, em 14/01/47, entrávamos em corrente alternada e muita coisa se seguiu, inclusive dando noções sobre as transmissões radioelétricas. Estudaram-se os efeitos de indutância, capacitância, resistência e as associações possíveis em corrente alternada.

        Na décima sexta aula, em 21/01/47, entrávamos em transformadores, com uma seqüência de fórmulas, cálculos diversos nas aulas seguintes.

        Em 29/01/47, iniciávamos a segunda fase do curso, ELETRÔNICA, sendo professor o americano de nome GEORGE BIGGS.

        A vigésima terceira aula, em 31/01/47, deu inicio ao estudo das válvulas eletrônicas, passando pelos rudimentos do efeito Edison, diodos de aquecimento direto e indireto, retificação da C.A. Em 03/02/47, iniciamos o estudo da válvula de três eletrodos

        Na trigésima aula, ocorrida em 08 de fevereiro de 1947, ocorreu algo para mim muito importante e que justifica palavras contidas no inicio desta “expansão”.

        O professor Biggs retardou-se para começar a aula e, não sei por qual razão, li para os colegas meus apontamentos do tal caderno até o ponto em que registrava a AMPLIFICAÇÃO CLASSE “A”.

        Mas, entusiasmado com o que fazia – estava à frente da turma sentada, a escrever no quadro negro – não percebi a chegada do professor, o qual, por razão inexplicada, não veio ocupar a posição em que eu me achava; sentou-se em uma das últimas cadeiras e ficou “apreciando o novo professor”.

        A turma nada me falou e prossegui até o momento em que me voltei para os colegas e notei então a presença do mestre.

        Imediatamente movimentei-me para lhe ceder o lugar, mas, para minha surpresa, ele disse que “estava gostando” e que eu prosseguisse. É claro que aquilo me encheu de orgulho e continuei até o ponto em que se encerrava o assunto da AMPLIFICAÇÃO. Depois, a aula prosseguiu com os assuntos que estavam em pauta pelo mestre.

        Esta fase terminou em 28/02/47, na quadragésima terceira aula, com uma sabatina onde recebi o grau 97.

No dia seguinte iniciou-se a FASE III- Equipamentos das Bases, onde trabalhamos com o transmissor RF50-A e o receptor EVPL, efetuando cálculos, medidas em componentes e instruções sobre operação com os mesmos.

O fim do ‘FUNDAMENTAL DE COMUNICAÇÒES” ocorreu em 29/03/47, sexagésima-sexta aula, com uma sabatina onde obtive grau 95. Após estes fatos é que fui classificado em “Rádio-Operação”, já próximo da formatura.

 

 

 

REMINISCÊNCIAS DIVERSAS

 

        Dentre os exercícios de tropa, ocorreu uma marcha de uns dez quilômetros, mas não me lembro qual o destino.

        Todos completamente equipados; e o que mais castigava era o fuzil 1908, pois, com o passar do tempo, íamos sendo vencidos pelo cansaço do braço.

        Conheci, então, o artifício para aliviar tal situação: no “cinto de segurança” sobrava uma ponta vinda dos ombros, ambos os lados. Passei a tal ponta sob a coronha do fuzil, como faziam os colegas, e transferi parte do peso para os ombros, acarretando um pouco de alívio ao braço (bom macete).

 

.................................................................................................

 

Nas folgas de fim de semana – o castigo mais comum era o SD (sábado e domingo) que impedia a possibilidade de ausentar-se do recinto escolar.

Mas, como bom soldado, nunca me aconteceu.

E numa destas saídas, eu e o colega VENÂNCIO TIETZ, de Passo Fundo RS, resolvemos dar uma volta pelo centro de São Paulo, para localizar uma instituição de ensino de nome Instituto Radio Técnico Monitor, situado na rua Aurora, se me não engano.

Não se pagava passagem viajando no estribo dos bondes. E lá fomos em busca da avenida São João, e dali prosseguir andando até o endereço.

Tendo em vista a enormidade de S. Paulo, segui a sugestão de comprar guia da cidade, que me foi proveitoso por mais de uma vez.

Depois que atingimos o ponto desejado, raciocinando sobre a posição em que estávamos, resolvemos não regressar pelo mesmo caminho, mas prosseguir dando uma volta para atingirmos a S. João.

Péssima idéia: andamos e acabamos a nos perder (nem a grande referência do Banco do Estado, tão proclamada pelo Venâncio, funcionou); o Tietz, achando que “seria feio”, não permitiu que eu sacasse do bolso meu guia, e, assim, depois de algum tempo, fomos ter em local por onde passava o bonde destinado à praça Ramos de Azevedo.

Tomamos o tal bonde e retornamos  à Escola.

 

        ........................................................................................

 

Os alunos tinham uma associação – Sociedade dos Alunos da Escola Técnica de Aviação.

Sempre arredio, não quis fazer parte dela; e sua lembrança se acha associada ao colega Waldir Bennati Ribeiro do Val, anos mais tarde, minha testemunha de casamento.

Tal associação tinha repercussões na vida da Escola, pois  proporcionava festas, especialmente as de formaturas, e por umas horas de entretenimento entre o jantar e o toque de recolher, quando podíamos desfrutar de algum tempo para nós mesmos.

E vem a recordação das horas que passei, sentado à frente da Escola, num pequeno jardim, a ouvir músicas da época (sem faltar as americanas, é claro...), a sonhar com os meus familiares em Santa Catarina.

Hoje, de vez em quando, a ouvir algumas delas a saudade retorna, lembrando também das amizades daquela saudosa época.

 

REMINISCÊNCIAS DIVERSAS (mais)

 

        Ainda durante o período em que estava cursando o Básico, ao circular pela Escola, pude encontrar um grupo de alunos do curso de rádio-manutenção treinando o uso de um equipamento móvel. Tratava-se de um radio goniômetro.

        O conjunto era transportado em um carrinho empurrado por eles, mostrando muito claramente a variação do posicionamento da antena receptora que, naquele instante, apontava para a localização do transmissor de uma emissora da capital.

        Na época, era muito utilizado pelas aeronaves para sua orientação durante as viagens pelo Brasil, e a antena era bem visível no exterior da fuselagem dos DC-3, o mais usado nas rotas comerciais da época.

 

.................................................................................................

       

        Relacionado ainda ao curso de radio-manutenção, com duração aproximada de um ano, gostava eu de me colocar junto às janelas do laboratório do curso, notadamente para ver funcionar o OSCILOSCÓPIO DE RAIOS CATÓDICOS.

        Meu interesse era tão forte que permanece até hoje, mesmo após haver deixado a vida militar e haver “aportado” por Vitória (ES), já funcionário do Banco do Brasil S. A.

        Nesta cidade apareceu na vitrine de uma loja de material eletrônico um desses aparelhos. Com o auxilio de um colega do Banco, como fiador, ADQUIRÍ o tal aparelho, zelosamente mantido em meu poder até hoje (2006).

 

MISS LEE

 

“Era nossa professora de língua inglesa, muito bonita, e, naturalmente, chamava a atenção de todos os alunos. Certa vez, durante uma aula, meu amigo Carlos Alberto Von Bahten observou a ela que havia uma mancha de giz em sua saia: ’Miss Lee, your skirt is dusty with chalk’. Ela muito graciosa, respondeu: ‘Oh! Thank you’, enquanto espanava com a mão aquela poeira de giz. Isto me ficou na memória. Antes de me graduar sargento, ela deixou a Escola, regressando para sua terra”.

 

PATRULHA

 

“Fazia parte dos treinamentos militares dos alunos, os patrulhamentos realizados nos dias de folga, sábados e domingos. A missão tinha por objetivo percorrer os lugares mais freqüentados da cidade, principalmente as boates paulistanas, a procura de qualquer irregularidade provocada por algum aluno mais bagunceiro. Participei uma única vez dessa escala, composta de um comandante e dez alunos. Íamos acomodados na carroceria da viatura, e nos equipávamos com cassetete e cinto de guarnição. Nós nos sentíamos constrangidos, pois seria muito desagradável encontrar um companheiro em situação de reprovável comportamento e ter de reconduzi-lo para a Escola, pois, certamente, iria receber séria reprimenda. Eram momentos de tensão. Ainda bem que não trouxemos nenhuma vítima”.

 

  

FÉRIAS ESCOLARES

 

        Saí em férias, ao menos uma vez, indo até Laguna SC, levando comigo algumas fotos. Vale notar que me sentia tão satisfeito pelo que ocorrera em São Paulo que, quando me encontrei com aqueles amigos de infância e ginásio, levava comigo um desejo muito forte de convidar a todos eles para irem para a Escola, como eu fizera.

        Isto porque Laguna era uma cidade de muito poucas chances de emprego e não dispunha de ensino superior ao Ginásio Lagunense, onde me formei. Assim, àqueles mais chegados expuz meu ponto de vista.

        Não posso garantir que tenha sido esta propaganda que levou um lagunense de nome LIVIO PAGANI a aparecer na Escola; e estou citando isto aqui, apenas por haver ocorrido uma conversa entre nós, lá na Escola.

        Tudo não passou de uma observação dele sobre o trânsito paulista. Disse-me ele:

        “Nazareno, puxa, mas São Paulo tem carro, hein? Tem mais de 100”! Não tive mais que um sorriso para ele, lembrando que, naquela época, o número de carros em Laguna não deveria passar de 20.

        Mas, voltando ao relato de minha visita, e, ao que me parece, ainda dentro do pensamento do convite, recordo haver redigido um plágio da letra da canção “VIENE SUL MARE” (deve ser assim ...) já plagiada (ou traduzida) para ‘MINAS-GERAIS”. Permita-me transcrevê-la:

 

       

        Vou partir é meu último adeus

        Ao rincão em que eu vi a luz 

        Deixar-te-ei, doce amigo, e aos meus

        Por um destino que mais me seduz

 

                Oh! Minha Laguna !

                Oh! terra querida

                Teu filho parte afim de outra vida

                Oh! Laguna querida !

 

        Meus amigos que ficam reparem

        Precisam educar-se também

        Este meio lhes impedem que se tornem

        Homens dignos, homens de bem !

 

        O que houve de curioso foi a posse desta letra por uma garota (enorme surpresa para mim) que não quis, de forma alguma, devolvê-la ...

        E, passados os dias de férias, ao retornar, fiz minha apresentação à maior autoridade da cidade, mas que não recordo quem era, voltando para a Escola.

       

PORTEIRA DO BRÁS

 

“Naquela época, havia no Brás, bairro onde se achava a Escola, uma passagem de trem, cruzando a avenida Rangel Pestana. Para evitar acidentes com os veículos que cruzavam a estrada de ferro, havia uma porteira de madeira para fechar a passagem do comboio ferroviário em benefício dos carros. Era lógico, pois o trem só de vez em quando passava por ali. Tal situação deveria ser uma dor de cabeça para os administradores da cidade, pois, certa vez, mereceu crítica num programa de rádio, intitulado ‘São Paulo no ano 2000’. Aquele programa era uma ficção sobre o progresso; tinha até informação de trens para a lua saindo de hora em hora, e ao encerrar, o locutor dizia: E continua em estudos a questão da porteira do Brás”.

 

FORMATURA

 

        “Para madrinha, escolhi minha irmã Terezinha. Residia em Laguna, Santa Catarina, e certamente gostaria de vir a São Paulo para entregar as divisas de sargento, ao irmão. No entanto, a questão financeira não ajudou; senti muito. Recorri a uma funcionária da Escola e expus a minha situação, pedindo a ela para que sua irmã, Maud, aceitasse o meu convite. Não deu certo, já estava compromissada com outro formando. Embora me sobrassem opções, socorri-me da boa amizade de uma família que conhecera, onde haviam duas irmãs: Maria Aparecida Rocha, de temperamento extrovertido, e Maria da Penha Rocha, observadora e silenciosa. Convidei Maria da Penha, o que provocou ciúme em Maria Aparecida, manifestado somente no dia do baile, quando trouxe para nossa mesa um companheiro que não me era muito simpático. Aí aconteceu um fato curioso. Minha madrinha pegou uma cédula de peso argentino e propôs um pacto. Quanto romantismo! Dividiu a cédula em quatro partes, deu uma para cada um de nós, impondo a condição de ficarmos comprometidos a atender ao chamado representado pelo recebimento de uma daquelas partes. Ainda guardo o meu pedaço. Nunca mais tive notícias dessas pessoas...

 

Eis a relação dos meus companheiros de especialidade RT-TE, formados em 30 de setembro de 1947, 63ª Turma da ETAv: Wilmar Lima (primeiro colocado da Escola), Nazareno Medeiros, Heron D’Ávila, Egon Baumer, Caetano de Almeida, Túlio Adão Tassinari, Célio Bueno de Miranda, Benedito Moreira da Silva, Mércio Pacheco da Rocha, Enio José Bonatti, João Ximenes de Mesquita, Antonio Carlos Paiva, Aurélio Guidi e José Alves de Oliveira.

 

DESPEDIDA NA ESTAÇÃO DA LUZ

 

        Este é o último episódio de minha história na Escola Técnica de Aviação.

        Formado sargento QRT-TE, minha turma foi enviada para o Rio de Janeiro, e nos apresentamos na Diretoria de Rotas Aéreas, para sabermos qual a Unidade de destino.

        Tudo começou com uma reunião na estação Ferroviária da Luz; “despachados” para seus lugares, sentei-me à janela de um vagão para despedir-me especialmente da família de minha madrinha Penha e de sua irmã Aparecida.

        É possível que tenha havido algumas lágrimas por parte delas, mas, afinal, o trem partiu.

        Fui anotando em um “diário” os fatos que julguei interessante.       Anotei a hora e dia em que vi o Pão de Açúcar (já era no dia seguinte à partida).

        Não me lembro como, fiz dupla com o sargento ENIO JOSÉ BONETTI quando estávamos a procura de alojamento, conseguido – quem indicou? – numa pensão próxima a estação D. Pedro II, denominada “Pensão Marilia”, onde ocupamos o quarto número 11.

        Não posso deixar de fazer um comentário a parte: enquanto por uns 20 dias ficamos na pensão, aconteceu travar conhecimento com aquela que viria a ser minha esposa.

        Certo dia nos apresentamos para recebermos as designações.

        Tenho quase certeza que minha madrinha de formatura apareceu por lá, influenciando na escolha dos nossos destinos.

        De inicio, declarei que desejava a unidade da FAB que ficasse mais ao sul, visando permanecer próximo dos meus familiares. Mas, como as designações seguiam a ordem dos primeiros aprovados na Escola, a localidade mais setentrional onde havia vagas era ................. ,e para lá foi designado o sargento PAIVA, aquele que não me era muito simpático e ocupou a mesma mesa no baile de formatura.

        E para mim sobrou Salvador (BA).

        Para a apresentação em Salvador, precisei seguir até Recife, sede da Segunda Zona Aérea.

        Fiquei em Recife por uns dois dias, até conseguir transporte pela FAB para Salvador, onde servi por dois anos.     Depois fui servir em Aracajú (SE) e Florianópolis (SC), onde ocorreu meu desligamento, indo ser escriturário no Banco do Brasil.

                O B R I G A D O    ! ! !

 

 Para imprimir

 Voltar