PREFÁCIO 

Alguns militares formados pela Escola Técnica de Aviação (ETAv) vêm, por intermédio do RESERVAER, procurando entrar em contato com seus colegas e reatar os laços de amizade nascidos numa saudosa época, em que o idealismo da juventude e a crescente evolução da Aeronáutica Militar os impulsionavam para uma empolgante carreira.  

Estamos nos referindo à década de quarenta! 

O que nos levou a escrever sobre este assunto foi a mensagem do senhor Artemio Bottene, aluno da 6ª turma da ETAv, formado, em 21 de outubro de 1944, na especialidade de motores. Dizia, e com razão, não haver encontrado em nosso site qualquer menção sobre aqueles que cuidam do avião e o fazem voar: os especialistas.  

Após alguns contatos virtuais, e aproveitando as festas de fim de ano em Ribeirão Preto, viemos a conhecer o Sgt Bottene, sua esposa, dona Mercedes, e  Juliana, uma das filhas do casal. O bate papo, como não podia deixar de ser, foi comandado por ele, a relembrar o seu tempo na Força Aérea Brasileira (FAB), vivido na ETAv e na Base Aérea de Natal. Foram momentos agradáveis, temperados pelo entusiasmo do nosso anfitrião e de sua incontida satisfação em poder conversar sobre aquela época, da qual muito se orgulha e que fora um dos principais artífices na sua formação de soldado e de cidadão.  

Natural de Piracicaba, estado de São Paulo, realizou, antes de sentar praça, o curso de pilotagem no aeroclube local, que seu pai, João Bottene, ajudara a fundar, em 26 de abril de 1938. O primeiro avião do aeroclube foi um biplano Muniz M-7, prefixo PP-TMR, muito elogiado pelo Artemio. Praticamente todos da família eram pilotos: seu pai, seu irmão, Fleury Bottene, também formado na ETAv – 14ª turma, em 3 de março de 1945, como controlador de vôo –, os primos Tito e Pedro Bottene, e sua irmã, Zayra Bottene.

Zayra Bottene, primeira mulher piracicabana a tirar brevê, em 1941. Voou mais de 1.000 horas, encantando a todos que acorriam para assistir suas manobras e acrobacias. É detentora do Brevê Nacional de nº 1.265 e o Internacional de nº 1.042.

Sobre Zayra, é digno citar que a Câmara Municipal de Ribeirão, em sessão de 29 de maio de 2001, prestou-lhe justa homenagem, ao reconhecer seu espírito pioneiro em prol da aviação brasileira, outorgando-lhe o Título de Honra ao Mérito. Naquela oportunidade, ao agradecer tal honraria, disse: “Termino, recordando com saudades do ano 1941. Foi o melhor ano de minha vida, pois  naquela época conquistei o céu, auxiliada por um anjo prateado: o avião biplano biplace  Waco F3, PP- TGC, que hoje repousa no museu dos meus sonhos”.

 Zayra não está mais conosco, mas seu exemplo permanece vivo no coração das pessoas que tiveram o privilégio de conhecê-la. 

Os Bottene contribuíram para que muitos jovens realizassem o tão desejado sonho de pilotar um avião. 

Artemio contou-nos que seu pai nasceu em 1892, era proprietário de uma oficina mecânica onde fazia reparação das locomotivas da Estrada de Ferro Sorocabana de 1925 a 1930, e que neste ano – 1930 –, com um amigo, fez circular o primeiro automóvel a álcool do Brasil, um Ford 1929. Durante a revolução constitucionalista de 1932, passou a converter carros e caminhões, do governo de São Paulo para uso de álcool, produzido na região de Ribeirão Preto, e construiu uma locomotiva acionada por dois motores automotivos a álcool. Fora, também, pioneiro em utilizar tal combustível em avião, barcos e fornos de fundição.Continuando a conversa sobre as proezas de seu pai e da sua capacidade empreendedora, citou que a locomotiva Baldwin existente na Praça 7 de Setembro, em Guarulhos, inteiramente brasileira, e uma outra em Gato Preto, município de Cajamar, foram construídas por ele nas Oficinas da Usina Monte Alegre, em Piracicaba. 

Ao relembrar esse passado na presença de sua família, senti reconfortante prazer pela oportunidade de conhecer pessoas que, na sua simplicidade, tiveram importante participação na sociedade, preenchendo as lacunas existentes com denodo, capacidade criativa e muito trabalho. Os ecos dessas ações continuam presentes e haverão de persistir através dos tempos. 

Ao término da visita, presenteou o RESERVAER com seu arquivo pessoal, repleto de momentos vividos na ETAv.  

Sargento Artemio Bottene: nosso especial agradecimento por colaborar na divulgação desta página tão bonita da história da Força Aérea Brasileira, que o senhor e seu irmão, Sargento Fleury Bottene, também ajudaram a escrever.

 

 Brig.-do-Ar Carlos G. S. Porto  

 

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