TREMEMBÉ

(Foto da Estação Ferroviária)

INFÂNCIA

Passei a minha infância em um misto de ambiente urbano com ambiente rural.

Desde cedo demonstrei gostar de alturas. 

Havia uma árvore que tinha muita erva de passarinho. Subia nela, deitava naquele colchão de ervas e ficava lá, de papo pro ar, olhando as nuvens.

Gostava também de me equilibrar. Não podia ver uma vala com uma prancha em cima - passava. Devagar, mas passava. Subia nas chaminés das fábricas e andava na borda, lá em cima. E, em dias de ventania, subia em um pé de eucalipto e ficava balançando no topo.

Também gostava de cavalos. Meu pai possuía alguns cavalos de raça, e eu costumava montá-los, em pelo, sem sela e sem freio. Apenas com uma corda passada sobre o focinho, como se fosse um cabresto. Certa vez, andando a galope, perdi o controle e a égua passou por dentro de um bambuzal. Ela passou, eu não. Fiquei trançado nos bambus.

Era arteiro. Um dia cortava algumas ramas de mandioca. O facão resvalou e decepou-me um dedo. Um tio, que era cirurgião, colocou o dedo no lugar.

Sempre gostei de armas. E de bombas. Fabriquei uma colocando carbureto e água dentro de um vidro.

 Tampei bem e joguei longe, aguardando estourar. Passou um tempo e, como não estourava, fui verificar. Foi levantar o vidro e ele estourou. 

Um pedaço bateu em minha costela e entrou por debaixo da pele.
Saiu a caminho da farmácia.

Tive cinco irmãs.

Como era o único varão, tinha um quarto só para mim. Minhas irmãs dormiam em um outro.

O meu quarto era cheio de atrativos.

Haviam cobras conservadas em álcool, criação de escorpiões, arco voltaico. Fiz uma demonstração do funcionamento do arco voltaico para uns amigos. Todos feriram a vista. Passamos dias sem poder enfrentar a luz do sol.

Como minhas irmãs menores gostavam de mexer nas minhas coisas, liguei, com o auxilio de um transformador, uma armadilha na maçaneta. Era tocar e levar choque. Quem levou o choque foi a minha mãe.

ADOLESCÊNCIA

Em outra ocasião, meu pai passou a andar de moto. Sempre que podia, eu a pegava, escondido, e saia a passear. Foi com ela que aprendi alguns dos princípios da física - como na vez em que, inadvertidamente, "levantei vôo" numa rampa natural, na subida da ponte do Rio Paraíba.

Gostava de trabalhar. Levantava cedo, às vezes ainda escuro, e ia tirar leite. Com duas vacas, tirava mais de trinta litros, em duas tiradas: uma de manhã e outra à tarde. Seguia depois para uma leiteria, onde era entregador. Entregava leite até o meio dia, equilibrando uma caixa com dez litros sobre o "guidon" de uma bicicleta. Quando recebia meu pagamento, entregava todo o dinheiro para a minha mãe. Ela ficava emocionada. Depois eu conseguia, aos poucos, mais do que havia dado.

Não tinha armas. Usava, escondido, as de meu pai - ou fabricava. Fiz uma garrucha que precisava de dois para atirar: um apontava e o outro colocava fogo no estopim. Era difícil saber se acertara. Produzia muita fumaça. Também fabriquei, com a ajuda de um amigo, uma espingarda. Um garruchão. Ainda bem que resolvemos estreá-la, amarrando-a em um mourão e pondo fogo à distância, com um bambu equipado com uma tocha na ponta.

Explodiu tudo: arma, mourão e bambu.

Demorei a aprender a nadar.

Houve um dia que não consegui companhia e fui, sozinho, nadar no Paraíba. O rio estava cheio, eu nadava mal, a correnteza me levava, não conseguia voltar. Resolvi parar no pilar da ponte. Estava cheio de paus, galhos e folhas, presos pela força da água. Tentei agarrar-me aos paus mas, como estavam soltos, afundei com eles num turbilhão d' água. Lá embaixo, senti, com o tato, a textura do concreto e subi por ele. Arrebentei as unhas e esfolei os dedos.
Mas saí.

Tempos depois, nadando melhor, fui, com mais três amigos, tirar uma pessoa que estava com câimbras e pedia ajuda. Era um sujeito grande, bem mais forte que nós. Ficamos com medo que nos agarrasse, mas ele garantiu que se deixaria levar. Mas agarrou o primeiro que se aproximou. Foi preciso ir ao fundo para ele largar.

Resolvemos, então, que era necessário nocauteá-lo.

Começamos a esmurrá-lo, mas ele não cooperava. Não desmaiava. E a situação estava ficando crítica. De repente, avistei um tronco de bananeira boiando próximo e o reboquei até o afogado - que, a essa altura, já não sabia se ficava desesperado ou furioso.

Rebocamos um pouco o tronco de bananeira, com o afogado e, assim que constatamos que poderia sair sozinho, saímos d'água e nos mandamos.

Tinha muitos amigos. Em especial uns de uma mesma família, com os quais me identificava. Uma vez a avó deles veio visitá-los e fizeram fila para pedir a benção. Entrei na fila e tomei a benção quando chegou minha vez. A avó disse para a mãe de meus amigos: "Maria, estou ficando esquecida. Não me lembro do nome desse aí" !

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