| BARBACENA
(Prédio do Comando da Escola Preparatória de Cadetes do Ar) |
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CHEGADA NA ESCOLA
Cheguei na Escola Preparatória de Cadetes do Ar à noite.
Apresentei-me no Portão da Guarda, e me arranjaram um lugar para dormir.
Já havia amanhecido quando acordei ao som de uma corneta - era o toque de alvorada. Vesti minha roupa, perguntei onde se tomava café e segui a orientação.
Próximo ao local indicado encontrei uma porção de jovens, todos enfileirados e com uma expressão assustada. Em volta, outros jovens com uma postura arrogante. Achei estranhos esses novos colegas.
Como ninguém me incomodou, passei direto e desci as escadas em direção ao refeitório.
Entrei numa fila, apanhei um prato de mingau, uma banana, uma caneca de café com leite e um pão com manteiga. Achei um lugar para sentar numa mesa de oito lugares, onde haviam seis "assustados".
Nem bem havia sentado quando se aproximou um "empombado". Não pediu licença e sentou-se ao meu lado. Já não gostei do cara. A seguir, ele descascou a banana e - assombro - jogou-a no meu prato de mingau. A casca mal havia tocado o prato, e eu já o estava esfregando na cara dele.
Foi um tumulto.
Apareceram dezenas de "empombados" em defesa do mal educado. Defendi-me com cadeiradas. Logo apareceu uma pessoa, que mais tarde soube tratar-se do Oficial de Dia, e pôs fim ao imbróglio.
Mas não me perseguiram. Eu era forte e me respeitavam.
CEMITÉRIO DA BOA MORTE
Houve um ano, se não me engano 1966, em que o dia treze de agosto caiu em uma sexta feira.
O mês de agosto, o dia treze e a sexta feira eram considerados azarados. Por isso mesmo aquela data era tida como sendo especialmente azarada, como se multiplicássemos as respectivas cargas de azar.
Travou-se uma discussão em que eu e mais dois colegas, o Mario Lucio e o Costa Pinto, afirmávamos que isso era besteira, que azar não existe. Como não chegávamos a uma conclusão, fizemos uma proposta: nos três iríamos ao cemitério da Igreja da Boa Morte à meia-noite dessa data, para desafiar o azar. E, para provar que estivemos lá, traríamos alguns ossos, uma cruz ou algo do gênero.
Do planejamento passamos à ação. Na data prevista, pouco antes da meia noite, saltamos o muro (era comum fugirmos à noite) e nos dirigimos para o cemitério. Ao chegarmos na esquina da igreja, discutimos quem de nós faria um reconhecimento. Para continuar bancando o valente, me prontifiquei.
Havia um pátio à frente da igreja e uma portinha, que estava aberta. Passei por ela e contornei o pátio, em direção ao cemitério.
Cheguei à grade que o cercava e não tive coragem de pular.
A iluminação da rua já não alcançava aquela área, mas havia luar suficiente para distinguir as coisas. Aproximei-me da grade, estendi o braço e alcancei um copo de leite caído no chão, pelo lado de dentro.
E fiz o caminho de volta esforçando-me para não correr.
- Então? Como foi? - Perguntaram.
- Foi tranqüilo. Entrei e apanhei esse copo-de-leite - menti.
Ao que Mario Lúcio retrucou:
- Agora vamos todos.
Costa Pinto negou-se a entrar. Eu tinha que ir. E lá fomos nos dois.
Ao chegarmos na grade, Mario Lucio perguntou:
- Como é que você entrou?
- Escalando essa pilha de tijolos - menti novamente, apontado para uma pilha de tijolos que estava encostada na grade.
Com cuidado conseguimos escalar os tijolos e saltamos a grade.
E começamos a andar, procurando o que levar. Já não pensávamos em ossos. Impossível consegui-los.
Foi então que avistei duas velas sobre uma tumba - uma em pé e a outra deitada. Peguei a que estava em pé e a entreguei ao Mario Lucio. Essa saiu com facilidade. Fui então apanhar a outra. Puxei e ela não saiu. Fiz mais força e nada. Nervoso, apoiei o pé na lateral da tumba e puxei com toda a força. E a tampa da tumba cedeu, vindo em minha direção!!! Dei um pinote e tratei de alcançar Mario Lucio, que já havia disparado em direção à grade. Saltamos a grade não sei como. A portinha levamos no peito.
Costa Pinto, quando viu aquilo,desapareceu. Era corredor. Nunca o alcançaríamos.
Corremos mais um pouco e paramos para analisar o ocorrido. Concluímos que eu havia puxado alguma fenda ou saliência. Com o nervosismo não percebi.
Já mais calmos, prosseguimos para a Escola. Saltamos o muro em um dos locais que utilizávamos e fomos para o alojamento. Em lá chegando, notamos que havia uma aglomeração bem no centro.
Fomos verificar e constatamos ser o Costa Pinto. Estava deitado, com os olhos arregalados.
Só dizia:
- Ah ... Ah ... Ah ...
GURU DO MÃO DE ONÇA
Mão de Onça tinha-me por seu guru. Estava sempre procurando conselho e fazia tudo que eu indicasse.
Houve uma ocasião que veio falar comigo, mas eu não estava com cabeça para dar conselhos.
Perguntou-me:
- Você acha que uma pessoa mais fraca pode bater em uma mais forte?
- Lógico Mão de Onça. É tudo uma questão de cabeça, de acreditar, de ter fé.
E lá se foi ele, satisfeito.
Não demorou muito e ouvi um barulho forte vindo do fundo do alojamento. Todos corriam para lá. Fui verificar e cruzei com o Mão de Onça, todo sorridente, fazendo-me o sinal de positivo.
Logo soube do ocorrido. O Rangel havia dado uns cascudos no Mão de Onça, o qual, depois de falar comigo, dirigiu-se ao armário do Rangel, ganhou velocidade e jogou os dois pés contra a porta do armário, encaçapando o Rangel lá dentro, desmaiado.
Quando acordou, deu o troco para o Mão de Onça.
BALALAIKA
Ia haver uma demonstração e praticávamos balalaica na Praça de Esportes da Escola Preparatória de Cadetes do Ar.
Acima de nós, entre a Escola e a Praça de Esportes, passava a estrada de ferro. Havia uma locomotiva fazendo manobras, o que era comum. De repente um de nós gritou:
- Olhem aquela menina. Ela está na linha do trem e a locomotiva vem vindo. Paramos a balalaica e começamos a berrar e a gesticular. Não adiantou. Ela não entendeu e a locomotiva pegou-a em cheio.
Corremos para lá, com alguma esperança, mas só encontramos pedaços triturados. E um cheiro característico de carne macerada.
No almoço, todos ainda estavam abalados com a morte da guria. Então, um dos colegas que haviam assistido ao acidente fez um infeliz comentário:
- O que lembra o cheiro desse picadinho de carne?
Houve quem vomitasse.
O MATERIAL DA CLARABELA
Estávamos recebendo aula prática de biologia, com a professora Clarabela. Como explicava o processo da fecundação humana, observou que infelizmente não havia material para observarmos pelo microscópio. Nesse momento um colega pediu licença para ir ao banheiro, voltando com a mão cheia:
- Pronto professora. Eis aqui o seu material.
JUIZ DE BRIGA
Quase todo dia havia alguma briga. Eram marcados: local, hora e juiz de briga.
O local era, geralmente, atrás do almoxarifado.
O Juiz de Briga era um aluno convidado para assistir a briga e apartar quando necessário. Eu era escolhido com freqüência para essa função.
Deixava se estapearem um pouco e apartava, tentando que considerassem empate.