PIRASSUNUNGA

(Aeronaves T-37C no pátio de estacionamento do Ninho das Águias)

SOLO DE T-37

Já estava na Academia da Força Aérea.

Taxiava para a cabeceira da pista com o T-37, um jatinho de treinamento avançado para os cadetes aviadores do último ano. Faria meu primeiro vôo solo, no tráfego. O vôo consistia em cinco toques e arremetidas.

O esquema de segurança era pesado. Havia um instrutor na Torre de Controle, um na cabeceira da pista, numa Kombi que tinha uma bolha em cima e comunicação com os aviões e mais um instrutor voando no trafego, juntamente com os outros três cadetes solos.

Quando autorizado, entrei na pista, tomei posição para decolagem e, ao ser liberado, dei cem por cento de potência e disparei pista afora. Ao atingir a velocidade prevista, tirei o avião do solo, recolhi o trem de pouso e desci, acelerando cada vez mais. Voava tão baixo que meus colegas, que assistiam do pátio, me disseram que eu quase sumia, tapado pela grama alta. Ao final da pista, dava uma puxada no manche, observando o avião à frente e, num relance já me encontrava na "perna com o vento" ( ) . Foi então que o instrutor que estava na cabeceira da pista entrou na freqüência e falou:

- Patto. Não foi isso que combinamos no "brieffing". Não faça mais isso. Mas ele falou de uma forma tão gentil e educada que pensei que estava gostando. E continuei repetindo aquilo que chamávamos de "americana".

Quando terminou o vôo, todos os instrutores estavam furiosos comigo. Uns queriam me bater, outros prender e alguns queriam me levar a conselho.

Felizmente, com o decorrer dos dias, os ânimos se acalmaram.
Não sei se fui a conselho, mas se fui, passei. Tanto é que estou aqui - já aposentado.



SOBREVIVÊNCIA NO XINGÚ

Ainda como cadetes, fomos realizar um curso de sobrevivência na selva ministrado pelo PARASAR. O curso seria prático, às margens dos rios Ronuro e Kolueno, formadores do Rio Xingu. Fomos de avião até o Posto Leonardo Vilas Boas e, de lá, prosseguimos de lancha. 

Já no primeiro dia nosso grupo, de seis pessoas, deu uma bobeada. Passamos o dia limpando a área e fazendo a barraca com lona de pára-quedas e não designamos ninguém para providenciar comida. Já estávamos no pôr do sol quando um tucano, inadvertidamente, pousou bem acima de nossas cabeças. Saquei a pistola quarenta e cinco e, com sinais, pedi silêncio. Fiz pontaria e atirei. O tucano caiu num rodopio. Mistério! Não estava ferido!

A partir de então fui designado caçador do grupo.

Mas tucano só tem bico ... e penas. Depois de limpo, tinha o corpo de um passarinho. Mesmo assim, foi para a panela. Deu um pedacinho para cada um, que foram comidos com ossos e tudo.

O exercício durou cinco dias, como previsto. Voltamos para o Posto Leonardo e ficamos aguardando o avião que nos levaria.
Enquanto isso, conversava com um índio Yualapiti. Era um índio forte, bem maior que qualquer um de nos. Como eu era bom de braço de ferro - ninguém me ganhava na Academia - o pessoal queria que eu jogasse com o índio. Expliquei para ele como era e jogamos. Não era de nada. Ganhei fácil. A pressão agora era para jogar dedo. Eu não queria, pois esse jogo pode quebrar o dedo. Mas tanto insistiram que resolvi jogar. Expliquei ao índio com detalhes como era o jogo e o avisei:

- Se eu falar para parar, pare. Esse jogo quebra o dedo.
Entrelaçamos os dedos e apertei bastante.

O índio não apertou e torceu a mão. 

Deu para ouvir o estalo. O dedo dele quase que fica em minha mão. Queríamos levá-lo para nosso médico, mas ele não quis. Sem mudar de expressão, colocou o osso no lugar e ficou massageando, enquanto o dedo inchava. Perguntei-lhe como faria e ele me explicou:

- Fico raspando por vários dias (não me lembro quantos) com dentes de piranha e pronto. Fica bom.

A técnica consistia em manter o inchaço, o qual servia de gesso.

Perguntei-lhe se faziam assim para qualquer osso quebrado e ele me explicou que servia para vários. Alguns eram mais difíceis, como os ossos da clavícula. Outros, como os da coluna, não tinham solução. Quebrou, morre.

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