| CANOAS
(O Piloto de Ataque e sua máquina de guerra) |
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COMEMORAÇÃO
Era dia de festa.
Íamos comemorar o milésimo pouso de instrução sem nenhum acidente.
O evento ocorreria no 1º Esquadrão de Reconhecimento e Ataque, sediado na Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul, onde eu fazia estágio de Piloto de Ataque. Voávamos o NA T-6, um avião em
"tandem", monomotor, à época utilizado como avião de ataque ao solo.
O palco já estava armado. A banda já estava a postos, os salgadinhos já estavam à mesa, o Comandante da Base já se encontrava no pátio de manobras, onde seria realizada a cerimônia.
Eu estava voando. Recebi a incumbência de permanecer no tráfego e realizar quatro pousos, em "toque e arremetida" para que um outro colega realizasse o milésimo pouso.
Fiz o primeiro pouso sem utilizar "flap" e arremeti; fiz o segundo com flap, arremeti e recolhi o "flap"
após a decolagem; entrei na final para realizar o terceiro pouso e, para variar, resolvi fazê-lo com "flap" e recolhê-lo durante a arremetida (o que era proibido aos estagiários, pela pouca experiência, pois havia uma tendência a olhar para dentro, o que normalmente resultava na perda de controle da aeronave).
Assim planejei e assim fiz. E não deu outra. Perdi o controle da aeronave, saí
da pista e fui parar dentro de uma vala de drenagem, com o avião "pilonado". Sempre de prontidão, logo estavam ao meu lado o carro dos bombeiros e a ambulância. Como eu estava bem, me levaram para o local da cerimônia, onde, logo em seguida, a banda começou a tocar. Meu colega havia completado o milésimo pouso de instrução. O Comandante da Base foi ao microfone e anunciou:
- Comemoramos hoje o milésimo pouso de instrução do 1º EMRA e o primeiro acidente. Aspirante Patto, venha cá.
E lá fui eu, envergonhado, para aquele palanque improvisado.
INCIDENTE NO TRÂNSITO
Caía uma chuva fina sobre Porto Alegre.
Naquela época o calçamento das ruas do centro era de pedras polidas, muito escorregadias quando molhadas.
Éramos aspirantes na época. O Pontes, andando pelo centro com seu Karman Guia, sem saber que o calçamento estava escorregadio, freou um pouco em cima, deslizou e bateu no carro da frente. Desceu para conversar com o motorista, o qual aparentava estar furioso:
- Olha o que você fez. Não sabe dirigir?
Ao que o Pontes respondeu:
- Calma. Se houver algum estrago eu pago.
- Calma coisa alguma. Pessoas como você não deveriam andar de carro ...
Perdendo a paciência, o Pontes retrucou:
- Quer saber de uma coisa? Se não quer conversar então vá à merda.
- O que? Sabe com quem está falando? - Retrucou o outro.
- Não - respondeu o Pontes.
- Pois saiba que eu sou Capitão da Polícia Militar.
Ao que o Pontes, pondo a mão na cintura, prontamente respondeu:
- Bem feito. Quem mandou não estudar?
ACIDENTE EM SÃO JERÕNIMO
Estávamos no fim do ano. A pilonagem havia sido esquecida, e todos já haviam acumulado experiência.
Minha função era coordenar a construção da nova pista em São Jerônimo, em terras do Exército, onde tínhamos um stand de tiro aéreo.
Como sempre, decolei de Canoas e rumei para São Jerônimo.
A pista em uso era crítica. Era de cascalho, tinha seiscentos metros de comprimento, uma cerca de arame farpado em uma cabeceira, uma depressão na outra e uma ribanceira num dos lados.
Havia também um tambor posicionado a dois terços do comprimento da pista, destinado a marcar o ponto limite para arremeter, no caso de não estar com o avião dominado e com a bequilha no chão. O vento estava forte, de través. Entrei alto na final, o que me custou alguns metros a mais de corrida pós pouso.
Ao chegar no tambor; ainda estava com a bequilha no ar, mas não arremeti (afinal, eu era um dos poucos que nunca havia arremetido nessa pista). Em conseqüência, precisei frear muito. Derrapei no cascalho, e o avião saiu da pista, descendo a ribanceira. Voltei a dar motor e colei o manche para evitar uma pilonagem. Pretendia parar o avião no pasto logo abaixo. Entretanto, eu não sabia que ali era um charco, camuflado pela vegetação. Ao atingir o charco, o avião capotou. Não me recordo da pancada. Devo ter desmaiado por algum tempo. Quando acordei, estava de cabeça para baixo, a cadeira estava quebrada na base, o capacete estava rachado devido à pancada no painel, eu estava com o topo da cabeça dentro d'água (um olho estava dentro d'água) e com os braços presos, imobilizados. Havia cheiro de gasolina e dava para ver a "luz da bruxa" acesa. No início me desesperei. Fazia força para soltar os braços, tentava erguer o avião.
Aos poucos consegui me acalmar. Foi então que percebi que um braço podia movimentar-se para frente. Foi só esticá-lo, dar uma torção, e ele estava livre. Num instante soltei o outro, livrei-me do pára-quedas e passei a apalpar a fuselagem, com a faca na outra mão, procurando um local para romper a lataria. A impressão que eu tinha era de que a aeronave estava parcialmente enterrada no charco, e que o único meio de sair era rompendo a fuselagem. Foi então que ouvi passos.
Perguntei:
- Tem alguém aí?
E alguém respondeu.
Voltei a perguntar:
- Está com alguma ferramenta?
E a pessoa informou que estava com uma enxada.
- Cutuca a enxada por aqui - e batia na chapa - para eu ver se entra luz.
Na primeira enxadada apareceu luz. Em segundos eu cavei uma saída, com as mãos.
Antes de sair, enterrei minha faca no barro, pensando em não me machucar. Mais tarde a encontraram a mais de meio metro de profundidade.
Dirigi-me à sede do stand. Lá chegando, encontrei o Suboficial encarregado, que regressava da estação do Exercito. Havia escutado o barulho do avião pousando e foi até a pista. Ao ver o avião naquele estado, chamou e não obteve resposta. Pensou que eu estivesse morto e foi até a estação radio, do Exercito, para informar a Base. Rascunhei então um rádio, nos seguintes termos: "Acidente grave 1244. Perda material total". Ocorre que o Suboficial havia informado "... perda total ...". Como a mensagem passava por vários pontos, minha mensagem chegou antes e a do Suboficial após, o que confirmou a minha morte.
Assim, foram desencadeados, na Base Aérea, os procedimentos previstos para acidentes com morte: lacraram meu armário, mandaram avisar a Laura, solicitaram à Escola de Sargentos de Guaratinguetá que enviasse o capelão para avisar os meus pais, compraram meu caixão e prepararam um C-47 para buscar meu corpo. Enquanto isso eu tomei um banho, coloquei meu macacão para secar e aguardei. Já mais calmo, perguntei ao Suboficial:
- Não tem daquela caipirinha que vocês fazem para o almoço?
Ao que ele respondeu:
- O senhor tomou toda a caipirinha!
E eu pensava que havia tomado um copo duplo de limonada!! E a caipirinha não fez o mínimo efeito.
Como pensavam que eu havia morrido, o C-47 demorou um pouco. Deu tempo de secar, parcialmente, o macacão. Mas eu ainda estava com um calção emprestado quando ele pousou. Fui até o pátio recebê-los. Dentro do avião um de meus companheiros reconheceu-me pela janela e exclamou:
- Olha o Patto ali.
Mas lá havia muitos patos. Pensaram que ele estava fazendo trocadilho e quase lhe bateram. Só quando desembarcaram é que o mal entendido foi desfeito. O Comandante do C-47 mandou o Rádio Telegrafista passar uma mensagem em Morse, avisando que eu estava vivo e bem. Nesse ínterim, o Comandante da Base em exercício (o Comandante vitalício estava de férias) foi chamado à Sala de Meios, encarregada das comunicações, e tomou conhecimento da situação. Saiu em seguida para desfazer todas as providências em andamento. Mas ele gaguejava quando ficava nervoso. Naquele momento estavam entrando no prédio de comando com meu caixão. Segundo dizem, gaguejou como nunca havia gaguejado antes.
Houve tempo para cancelar a ida do Capelão que avisaria os meus pais e de avisar o pai da Laura (ela estava na Faculdade e não chegou a ser informada de minha morte).
De regresso, o C-47 pousou no V Comando Aéreo Regional, para me deixar no Hospital.
Era um procedimento de rotina - ficar um período em observação.
Havia uma enfermeira que me conhecia e que estava desolada com minha morte. Ao me avistar, ficou alegre:
- Pensei que fosse o senhor que houvesse morrido.
Ao que respondi:
- Foi eu sim.
Enquanto esses acontecimentos se sucediam, um outro colega, sediado em Santa Maria, passou pela Base Aérea de Canoas com destino a São Paulo ou Rio de Janeiro. Ficou sabendo de minha morte e foi espalhando a notícia.
No regresso, alguns dias após, pernoitou na Base Aérea de Canoas, devido ao avançado da hora. Dirigiu-se ao Alojamento, abriu a porta de meu quarto (estava frio e eu estava coberto, só com a cabeça de fora) e perguntou:
- O Vaca está?
- Não. - respondi.
- Obrigado.
E fechou a porta. Mas a maçaneta permaneceu abaixada.
E a porta foi abrindo devagar.
Eu me preparei, colocando a cabeça bem para fora.
Com os olhos arregalados, olhou novamente para mim e exclamou:
- O Patto!!!
Eu costumava contar historias de caçador e de pescador quando fui transferido para Brasília.
Quando acabou o estoque e me perguntaram qual ia ser a história do dia, eu respondi:
Hoje eu vou contar uma história em que eu morro no final.
Não me deixaram contar.
E era a única que era verdadeira.
DE PIJAMA NO CASAMENTO
Havia um Aspirante da Reserva fazendo o Curso de Ataque conosco, em Canoas. Não tinha aquela malícia adquirida na Escola Preparatória, na Escola de Aeronáutica e na Academia da Força Aérea.
Na véspera de meu casamento estavam todos os meus colegas e instrutores combinando o que fariam no dia seguinte. Entre outras coisas, combinaram ir de pijama para a Igreja.
No dia seguinte lá estava, a espera de uma carona, o mencionado Aspirante. Notou que dentre os presentes só ele estava de pijama. Os demais estavam com o quinto uniforme, adequado para essas ocasiões. Explicaram para ele que aqueles que ali estavam iam cruzar as espadas e que os demais iriam de pijama. E lhe deram uma carona até a igreja. Lá chegando percebeu o logro. E ninguém se prontificou a levá-lo de volta.
E só lhe emprestaram o suficiente para voltar de ônibus.