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BRASÍLIA
(Eixo Monumental) |
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MOVIMENTOS INVOLUNTÁRIOS
Passei um ano no Rio de Janeiro fazendo o último curso da carreira, no Campo dos Afonsos - Curso de Política e Estratégia Aeroespaciais. Na ocasião, o Parkinson já se manifestara, e eu não sabia ao certo como estava evoluindo. Assim, de três em três meses, mais ou menos, eu ia ao médico, no Hospital da Força Aérea do Galeão, para um acompanhamento.
Quando regressei de uma dessas visitas, um colega, preocupado com minha saúde, veio falar comigo:
- Então Patto. Como está?
Respondi bem sério:
- Estou bem. O médico receitou-me novos remédios ... O ruim são os efeitos colaterais.
- Quais efeitos colaterais?
- O pior deles são os movimentos involuntários..
- Como assim?
- É como o nome diz. São movimentos que independem de sua vontade. São involuntários, imprevisíveis e incontroláveis.
- Ah!
E a conversa parou por aí.
Passados alguns minutos, esse colega se distraiu, deu-me as costas e passou a conversar com outra pessoa. Aproveitei a distração e dei-lhe um "telefone" nos ouvidos. Ele virou-se rápido, para revidar, e eu disse:
- Ah, ah!!! Movimentos involuntários, imprevisíveis e incontroláveis.
INTERFERÊNCIA ELETROMAGMÉTICA
Almoçava no Rancho do Grupo de Apoio de Brasília, com outros Coronéis.
A conversa girava em torno do tema de sempre: vôo e Força Aérea.
Lá pelas tantas, num daqueles vazios que ocorrem em qualquer conversa, um desses colegas perguntou-me:
- Patto. Como está seu problema com o Parkinson?
De imediato todos ficaram muito sérios.
- Está sob controle - observei.
- Não há possibilidade de uma cirurgia?
- Há três tipos de cirurgia. A que vêm apresentando melhores resultados é uma em que se coloca um eletrodo no centro do cérebro e, com um controle remoto se aplica, de vez em quando, uma pequena descarga elétrica que estimula a "substância negra" a produzir dopamina. O problema são os efeitos colaterais.
- Que efeitos colaterais?
- Como o comando é realizado por controle remoto, as vezes pode ocorrer que um portão de garagem esteja sendo aberto nas redondezas, o que causa interferência - automaticamente a pessoa levanta a perna esquerda e mija.
O NÚCLEO DO EU
A Laura, minha esposa, é psicóloga. Em uma ocasião estudava, juntamente com outras psicólogas, A Formação do Núcleo do Eu, uma teoria da formação da personalidade, de
Rimenes Bermudes.
O tema era tão interessante que eu ficava ouvindo, interessado.
Terminei por aprender uma parte.
Acontece que, na ocasião, eu apanhava, todo dia, uma Kombi da Aeronáutica que me levava, com outros militares, para o trabalho.
Numa dessas ocasiões um colega contava para o outro um caso de seu conhecimento. Distraidamente, ouvindo a conversa e com a teoria do Bermudes na cabeça, observei:
- Furo no papel do urinador!
Ninguém entendeu nada!
CAVALO-DE-PAU DE HS
Pilotei HS durante seis anos. É um jato executivo para cinco passageiros, utilizado, na FAB, para transporte de autoridades, normalmente Ministros de Estado.
Em uma dessas missões fui a Congonhas, São Paulo, transportando o Ministro Ibrain Abi Ackel e sua esposa.
Ao chegarmos em Congonhas chovia muito e tivemos que aguardar. Éramos os primeiros da "prateleira". Apesar de estarmos baixo, onde o consumo de combustível é maior, não estávamos preocupados porque havia visibilidade. O controlador só queria aguardar um pouco o amainar da chuva. Todavia a pista era restrita, em comprimento, para o HS. Uma vez tirando o motor para pousar não era possível arremeter. Além do mais já era noite, o que sempre dificulta um pouco. Mas nada além da tensão normal que antecede um pouso.
Passados alguns minutos fomos liberados para pousar.
Entrei na final, realizando uma descida com o auxilio dos instrumentos e, na curta final, reduzi um pouco o motor para tocar logo no início da cabeceira. Ainda chovia e o controlador nos alertou para o excesso de água na pista.
- Isso é que é pouso suave! - comentei.
Mas logo em seguida, quando fui frear, nada! O avião deslizava, o freio não pegava. Gritei para o 2P:
- O freio não pega!
De imediato o 2P tentou seu freio e nada. O avião estava em hidroplanagem. Com uma velocidade de toque em torno de duzentos e cinqüenta quilômetros por hora, o avião não desacelerava o suficiente.
Sabíamos que num dado momento ele sairia da hidroplanagem.
Mas sairia a tempo de pararmos a aeronave?
E o final da pista se aproximava rapidamente. Aos poucos o avião começou a desviar para a esquerda, o que aumentava ainda mais os riscos, pois, a partir de um determinado ponto, havia um barranco também à esquerda. Foi quando, instintivamente, ou talvez pelo condicionamento no vôo em aeronaves menores e mais lentas, pisei no freio esquerdo. O freio pegou e a aeronave girou violentamente para a esquerda, dando um "cavalo-de-pau". Com o giro a asa direita subiu, juntamente com o nariz da aeronave, a ponto de sumir as luzes da cidade. Quando terminou o giro o 2P já havia desligado os motores, a bateria - tudo.
Disse então a ele:
- Fale com a Torre que eu vou ver como está o pessoal lá atrás.
E fui falar com o mecânico, com o Ministro e com sua esposa.
Todos estavam bem. Havia somente o susto.
Nesse ínterim o 2P, ao ligar o radio, ouviu a Torre autorizar o pouso de um Boeing. De imediato ele entrou na freqüência e mandou o
Boeing arremeter, pois estávamos na pista.
Havíamos parado a trezentos metros do final da pista. E estávamos alinhados no centro dela - o que significa que havíamos deslizando de lado.
O PIANO DA VIZINHA
Bem diz a etiqueta que elevador não é lugar de conversar.
Havia chamado o elevador para subir ao meu apartamento, em Brasília, e aguardei a chegada de minha vizinha. Cumprimentamo-nos, entramos e começamos a subir.
Então ela me perguntou:
- O piano está incomodando muito? (havia comprado um piano há alguns meses).
- Não - respondi.
- Aliás, a senhora está de parabéns. Nesses poucos meses melhorou muito, está tocando muito melhor.
Ao que ela retrucou:
- Mas eu sou professora de piano há vinte anos.