A CRIAÇÃO DO ESTADO PALESTINO

No dia 11 de setembro de 2001, o mundo inteiro assistiu, estupefato, aos atentados terroristas perpetrados, simultaneamente, por fanáticos muçulmanos, às cidades de Washington e Nova York, acarretando, em conseqüência, uma enorme transformação na ordem internacional até então vigente.

Analisando, acuradamente, a atual dinâmica mundial, percebe-se como muito provável, que o novo ordenamento que venha a emergir deste instigante processo, tenha as seguintes características:

Em primeiro lugar, os Estados Unidos terão, finalmente, encontrado um adequado substituto para a Guerra Fria, com capacidade para ordenar suas prioridades, articular suas políticas e projetar um referencial de coerência sobre a ação de sua burocracia. Sob o manto da luta contra o terrorismo tomará forma, substancialmente, a contraposição ao islamismo radical, com uma intensidade e determinação de propósitos similar a que teve a contenção ao comunismo, a nível mundial. A consciência ideológica com relação a este novo e singular inimigo, permitirá uma confrontação de valores de calibre similar à dicotomia capitalismo-comunismo.

Em segundo lugar, presenciaremos a um renascimento da “presidência imperial” dos Estados Unidos. A mesma é expressão de períodos em que o povo norte-americano percebe que está submetido a graves ameaças forâneas. A essência desse novo inimigo, capaz de golpear em qualquer momento, em qualquer lugar e pelos meios mais terríveis, determina um tal nível de insegurança nas psiquês estadunidenses que exigirá, conseqüentemente, uma presidência forte e carismática. Isto, evidentemente, inverterá a correlação de poder que desde 1965 havia prevalecido entre o Congresso e a Casa Branca, beneficiando, claramente, o poder executivo. Por outro lado, surgirá uma nova correlação entre os direitos civis e os imperativos da segurança nacional, existente desde o início dos anos setenta, do século passado, brindando cabal preeminência ao segundo, em face das atuais circunstâncias.

Em terceiro lugar, determinará o renascimento do Estado e um esmaecimento proporcional do mercado. Os gastos em material de defesa, os imperativos da segurança, as exigências de voltar a por em marcha a uma economia mundial em nítida recessão e a necessidade de obsequiar uma malha de sustentação social a um acentuado desemprego, correspondem a objetivos que somente podem responder os Estados.

O pacote de 130 bilhões de dólares provido pelo governo estadunidense para socorrer a economia do país, após o atentado às torres gêmeas, do World Trade Center, é mera expressão desta nova realidade. Por sua vez, as limitações à livre circulação de bens e pessoas, determinado pelas exigências de segurança, frenarão a força expansiva do comércio mundial. O predomínio que durante esta última década evidenciou o setor privado sobre o setor público, se inverterá e a inovação tecnológica passará do âmbito da economia produtiva ao da segurança e defesa.

Em quarto lugar, a Rússia se incorporará ao Ocidente, reivindicando a condição européia de sua matriz eslava e buscando encontrar um espaço a nível da União

Européia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Abandonando a concepção de um mundo bipolar, e sua associação estratégica com a China, tenderá para um âmbito de alianças que não somente enfrente ao inimigo comum - o islamismo radical - mas que, também, esteja em condições de responder a seus gigantescos objetivos econômicos. Esta virada para o Ocidente, obviamente, não estará isenta de fortes e desgastantes rusgas com os Estados Unidos, como resultado da presença crescente deste em sua esfera de influência centro-asiática.

Em quinto lugar, tornar-se-á inevitável o surgimento de um Estado palestino. A única forma de mobilizar ao islamismo moderado na luta sistemática e, a longo prazo, contra o islamismo radical e, conseqüentemente, subtrair forças dos fundamentalistas islâmicos, será através do apoio decisivo à criação deste novo Estado. O debilitamento do Congresso norte-americano frente à Casa Branca e a percepção generalizada, pelo povo estadunidense, de que o contumaz e dispendioso respaldo a Israel gera altos custos políticos aos Estados Unidos, serão fatores determinantes para a consecução desta importante ação, a ser deslanchada, primacialmente, com o concurso da Organização das Nações Unidas e o imprescindível respaldo das superpotências mundiais.

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