A POLÍTICA EXTERNA ESTADUNIDENSE

Após a queda do Muro de Berlim, George Wallace Bush (pai) compreendeu que o seu país não podia atuar sozinho no contexto internacional. O mundo dificilmente aceitaria que uma superpotência única impusesse a todos as suas regras. Seria necessário, portanto, desenhar um mecanismo que permitisse afiançar a liderança norte-americana sob um marco de ação coletiva.

A política exterior implementada pelo presidente George Wallace Bush (filho) representa a antítese da adotada por seu pai. Isto, apesar de ter colocado nos postos de mando uma significativa parcela da equipe daquela época. Enquanto Bush (pai) acreditava na ação coletiva sustentada em uma aliança cuidadosamente trabalhada, Bush (filho)

crê no unilateralismo norte-americano com manifesta subvalorização das alianças e tratados internacionais. E mais, tem ressuscitado antagonismos que durante a gestão de seu pai haviam sido deixados para trás. 

A política exterior perseguida pelo atual presidente tem facultado o surgimento de pontos sensíveis no cenário internacional. Enfureceu a europeus e japoneses com a rejeição ao Tratado de Kioto, que tinha como premissa básica minimizar a emissão de gases poluentes e o conseqüente aquecimento do globo terrestre. No que se refere aos europeus, as relações diplomáticas ficaram bastante desgastadas, ao asseverar que estava disposto a abandonar o Tratado Antimísseis Balísticos de 1972 e, também, à renúncia, unilateral, do projeto que tratava da utilização de armas biológicas e, ainda, com a enfática oposição à política de defesa européia definida na Cúpula de Niza. No que diz respeito à Rússia, em março do ano em curso, ordenou a expulsão de 56 diplomatas russos, o que não se via desde 1986, em pleno auge da Guerra Fria, quando Ronald Reagan expulsou 55 diplomatas do corpo diplomático soviético. Entretanto, muito mais significativo, ainda, foi o abandono do tratado antimísseis, e as declarações do secretário Collin Powell de que o novo sistema de defesa estratégica estadunidense seria continuado, embora contando com o desacordo do governo russo. 

Com a China, as coisas têm caminhado de forma pior. Recentemente, a Casa Branca aprovou um pacote de vendas de armas a Taiwan, no prazo de doze anos; declarou, pela primeira vez, enfaticamente, que os Estados Unidos defenderiam Taiwan se esta nação fosse atacada pela República Popular da China; qualificou este país de “rival estratégico”, abandonando a categoria de “sócio estratégico” que Bill Clinton lhe outorgara, em virtude de um comércio bilateral de 75 bilhões de dólares; congelou contratos militares bilaterais, circunscrevendo-os a casos pontuais. E mais, enquanto delegações norte-americanas visitaram o Japão, a Rússia, a India e a Coréia, para explicar o novo sistema de defesa estratégica que será implementado, a China ficou completamente excluida desse rol de visitas. 

Com os países árabes, as tensões alcançaram seu ponto mais efervescente nas relações diplomáticas. Desde o início de sua gestão, o presidente Bush deixou bem claro que seu envolvimento com o contencioso palestino-israelense seria limitado, enfatizando que sua atenção para o Oriente Médio seria direcionada, prioritariamente, para a contenção da fricção geopolítica entre Irã e Iraque. 

Ao abandonar o seu papel de mediador fundamental no processo de paz na região, Washington não somente frustra qualquer possibilidade de acerto e negociação e deixa evidente que sua participação restringir-se-á ao tradicional apoio a Israel. Isto traduz-se em um pacote de ajuda anual da ordem de três bilhões de dólares àquele Estado, bem como o apoio permanente ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. 

Passo a passo o atual governo estadunidense tem alienado, sistematicamente, a europeus, japoneses, russos, chineses e árabes. É certo que nos últimos tempos tem havido algum esforço no sentido de aliviar tensões a nível internacional. As duas viagens empreendidas por Bush à Europa, seus encontros com o presidente russo Vladimir Putin, a recente viagem do General Collin Powell a Beijing e o envio ao Oriente Médio, do diretor da CIA, George Tenet, para tentar negociar um cessar-fogo entre as partes litigantes, demonstram, enfaticamente, esta tendência. Não obstante, enquanto a marcha frenética do unilateralismo seguir o seu curso, o mundo continuará, cada vez mais, vivendo dias conturbados, e as implicações decorrentes desta postura arrogante e incompreensível - para o resto do mundo - adotada pelo governo norte-americano, são óbvias e, além de indesejáveis, causam estupefação ao mais frio dos analistas. Como bem dizia Tom Daschle, líder da maioria no Senado estadunidense: 

“Estamos nos isolando da comunidade internacional e, ao fazê-lo, estamos nos minimizando, drasticamente, no concerto das nações”. 

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