A LONGA CAMINHADA CHINESA

A República Popular da China celebrou cinqüenta e dois anos de sua fundação, no dia 10 de outubro do ano corrente. A revolução que conduziu ao poder os comunistas chineses figura entre os grandes acontecimentos políticos que definiram o Século XX. 

Isto se deve à proeza de um homem, Mao Tsé-Tung (falecido em 9 de setembro de 1976), que reacionou contra um sistema de senhores feudais e de mandarins anacrônicos, com sensibilidade política e visão de estrategista. Assim, como na revolução russa , foi uma doutrina ocidental - o marxismo - que contribuiu, paradoxalmente, a por fim à influência dos poderes ocidentais na Ásia.

A grande revolução chinesa não foi obra de um dia. Mao, nascido em 1893, começou sendo soldado, primeiramente nas revoltas contra a dinastia King (1911-1912); a seguir, contra a revolta anti-japonesa, em 1919. Sendo bibliotecário da Universidade de Pequim, familiarizou-se com o pensamento político ocidental e, em 1921, contribuiu para a fundação do Partido Comunista Chinês. Em 1931, Mao foi eleito presidente da República Soviética da China, o que não significou a estabilidade do poder, senão novas lutas que o levaram a conduzir à Longa Marcha de inumeráveis milícias camponesas, enfrentando-se vez que outra com os japoneses, em uma aliança tática com os nacionalistas chineses.

A Longa Marcha o converteu num líder inconteste. Durante a Segunda Guerra Mundial, nacionalistas e comunistas abriram um parênteses em suas lutas internas - que se reavivaram depois - e derivaram na divisão de Taiwan, onde os nacionalistas do General Chiang Kai Shek estabeleceram seu governo.

Em outubro de 1949, Mao Tsé-Tung foi eleito presidente da República Popular da China, praticamente 20 anos depois do ensaio da “república soviética”. Mao iniciou, então, um longo período no exercício do poder, de grande influência dentro e fora da China. É uma etapa de polêmicas e controvérsias e de amizade e tensões com a União Soviética, de aberta rivalidade e desafio entre países do bloco socialista e de confrontação com o Ocidente. No ano de 1976 ocorreram estranhas coincidências: Mao morreu em 9 de setembro e também veio a falecer Zhou Enlai ( que havia iniciado os contatos secretos com Henry Kissinger, em 1973). Depois de seguidas pugnas pela liderança, impôs-se Deng Xiaoping e iniciou-se um novo período de renovação sob a égide do combativo prócer chinês.

Com os países do Ocidente e em especial com os Estados Unidos, o enfrentamento da China foi tão prolongado como áspero, até que em 1979 ( na época do presidente Jimmy Carter ) estabeleceram-se, finalmente, relações diplomáticas. A China passou a ocupar um assento como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, em substituição a Taiwan. O ingresso do país na comunidade mundial estimulou as políticas de desenvolvimento econômico, a abertura às inversões estrangeiras, iniciadas sob a influência de Deng Xiaoping, nos anos oitenta, e continuadas desde então. Observa-se uma etapa de moderação política e de modernização econômica, características marcantes da China neste início de século.

Em 1993, ascendeu ao poder o atual presidente Jiang Zemin. A China converteu-se em uma potência econômica e militar. Sua população ultrapassa aos 1,255 bilhão de habitantes e seu comércio expande-se por todo o mundo. Talvez porque esteja se aproximando os cinqüenta e dois anos da grande ruptura de 1949, observa-se que as tensões entre Taipei e Pequim vêm recrudescendo gradualmente, inclusive, com ameaças de guerra.

Entretanto, China e Estados Unidos retomaram recentemente o diálogo e as negociações para o ingresso da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), o que implicaria reformas adicionais do sistema econômico. Trata-se de gestos de boa vontade entre países que se distanciaram, como conseqüência de posições divergentes durante a recente crise do Kosovo.

Em agosto de 1999 a China subscreveu uma aliança com a Rússia, gerada pelas políticas unilaterais da OTAN. Os presidentes Bill Clinton e Jiang Zemin encontraram-se em 11 de setembro do mesmo ano, antes da realização da Cúpula para a Cooperação Econômica dos Países Asiáticos do Pacífico, na Nova Zelândia. Os Estados Unidos sempre consideraram indispensável o ingresso da China na OMC, ao mesmo tempo em que advogam por uma solução pacífica no contencioso entre Taiwan e China.

A reincorporação de Hong Kong carreou para a China um considerável incremento de seu potencial econômico. Atualmente, suas reservas cambiais superam as do Japão e seu pujante e crescente comércio exterior situa-se entre os quatro primeiros no cenário internacional.. Em 1997, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos admitia: “A China já é a terceira economia do mundo e poderá tornar-se a primeira no alvorecer do Século XXI”.

Se a Longa Marcha de Mao Tsé Tung ainda não terminou, este curioso caminho político percorrido pelo governo de Pequim, nos últimos tempos, não encontra paralelo na recente história chinesa.

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