O PARADOXO ESTADUNIDENSE

Nenhum outro povo sobre a face da terra evidencia, como os norte-americanos, a paradoxa situação de ser, ao mesmo tempo, profundamente homogêneo e intensamente heterogêneo. A homogeneidade expressa-se através de um somatório de denominadores comuns e de uma reprodução, até o infinito, dos mesmos nomes, dos mesmos padrões,

 da mesma maneira de fazer as coisas e dos mesmos gostos. A heterogeneidade, por sua parte, manifesta-se por via de uma sociedade fortemente atomizada na qual os sinais de identidade étnicos ou nacionais, a pluralidade das crenças ou a participação em agrupamentos das mais distintas naturezas, vão definindo marcantes linhas divisórias.

O beisebol, o vestuário, a Coca-Cola, a torta de maçã, o Mickey Mouse e a troupe da Disney, a festa de Halloween, apenas para exemplificar, uniformizam a sociedade inteiramente. De um lado a outro da geografia estadunidense repetem-se os mesmos centros comerciais, os “malls”, com as mesmas lojas, os mesmos nomes e os mesmos desenhos arquitetônicos. Suas autopistas, subúrbios, postos de gasolina, estabelecimentos de “fast food”, livrarias, farmácias, etc, são curiosamente estandardizados.

As cadeias de hotéis, cada uma com seus próprios desenhos interiores, procedimentos e gastronomia, brindam um nicho protetor que permite que todos sintam-se próximos de suas casas, não importando a distância que delas se encontrem. Definitivamente, ao conhecer-se uma localidade norte-americana dá-nos a impressão de ter conhecido a todas as demais. Um repertório variado, porém curiosamente limitado, cobre a cena inteira do país. Os norte-americanos parecem estar cabalmente calcados no mesmo padrão. Nenhum outro povo no mundo mostra tamanho nível de uniformidade. E mais ainda, ao sair de suas fronteiras, os sinais de identidade estadunidenses chegam a constituir a base sobre a qual está se uniformizando a quase totalidade da humanidade. 

Por outro lado, os americanos podem mostrar-se os mais diferentes uns dos outros do que se possa imaginar. Os descendentes de gregos seguem mantendo, na intimidade de seus círculos familiares ou no âmbito de suas comunidades, os velhos costumes de seus antepassados. Da mesma maneira, os descendentes de irlandeses, árabes, chineses, hispânicos, italianos ou polacos, guardam zelosamente seus costumes ancestrais. Nos Estados Unidos um judeu norte-americano pode manter-se, concomitantemente, plenamente leal ao Estado de Israel e à pátria de Washington. Da mesma maneira, um grego estadunidense sente que pode guardar fidelidade, sem nenhum constrangimento, aos EUA e à Grécia. Em suas memórias, o intelectual francês Raymond Aron assinalava que na França esse duplo sentido de identidade nacional, próprio dos norte-americanos, seria inaceitável. Um cidadão francês de origem étnica distinta tem que ser cabalmente assimilado pela língua e civilização francesas para ser considerado parte integrante desse agrupamento humano. 

Porém, a heterogeneidade estadunidense não se limita ao ancestral. A intensidade das crenças determina uma atomização da sociedade em grupos de interesse político de caráter virtualmente ilimitado. Ali estariam, ainda, conjuntos de pessoas com interesses de caráter econômico, os ideólogos, os religiosos, os de interesse público, etc. Usualmente, cada verso da moeda tem um anverso e cada postura corresponde, igualmente, uma contrapostura. Os grupos antiaborto versus aqueles que propugnam pelo direito à escolha conceptiva; os grupos pró direito ao uso de armas versus aqueles que entendem que a proibição das mesmas redundaria na diminuição da violência, e assim sucessivamente. Isso, evidentemente, ameaça conduzir a sociedade norte-americana a um processo de “tribalização”. Ou seja, a possibilidade de uma fratura societária em identidades múltiplas e incompatíveis. O analista político Jerry Adler publicou, há alguns anos, um instigante trabalho na revista Newsweek (10 de julho de 1995) em que assinalava o seguinte: “Nos Estados Unidos, até os movimentos considerados pequenos, medem suas adesões em milhões de pessoas. A identidade de cada um está politizada, não somente em termos de raça, etnia, religião e língua, mas, também, em termos de gênero, comportamento sexual, idade, vestimenta, dieta alimentar e hábitos pessoais”. 

Definitivamente, a sociedade estadunidense constitui uma curiosa mescla de elementos de homogeneidade e heterogeneidade. Esta capacidade de serem todos idênticos e, ao mesmo tempo, profundamente desiguais, conforma o mais característico e curioso da identidade norte-americana. Aí reside, precisamente, a grande diferença com uma sociedade, por exemplo, como a japonesa, em que todos não somente parecem iguais mas, também, pensam igualmente. Talvez, nessa paradóxica coexistência entre uniformidade e singularidade se encontre o segredo do notável êxito desenvolvimentista norte-americano. Ou seja, a salutar e profícua convivência entre a disciplina social que provém da homogeneidade e a criatividade que advém, obviamente, da heterogeneidade. 

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