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O
BRASIL E A ÁREA DE LIVRE COMÉRCIO DAS AMÉRICAS
A
participação do Brasil na Área de Livre Comércio das Américas
(ALCA) terá efeitos decisivos e negativos sobre a possibilidade de
construir uma sociedade, uma economia e um Estado mais justos,
prósperos e democráticos no Brasil.
O nosso país não é, simplesmente, mais um entre os 35 Estados das
Américas. O Brasil, os Estados Unidos e a China são os únicos três
países que se encontram na relação dos dez países de território
mais extenso, maior população e de PIB mais significativo no mundo.
Além disso, no Brasil não há situação grave de conflito étnico ou
religioso e existe um só idioma. Por outro lado, o Brasil se
caracteriza por extraordinárias disparidades de renda, riqueza, acesso
à tecnologia, cultura e poder político. E, também, por uma crônica e
crescente vulnerabilidade externa, não só econômica mas também
política, militar e ideológica.
Assim, o Brasil reúne os requisitos potenciais para se situar entre os
países mais avançados economicamente, mais respeitados politicamente,
mais seguros dentro de suas fronteiras e mais democráticos. Porém,
somente conseguirá obter êxito, no concerto das nações, se as suas
elites políticas, econômicas e culturais forem capazes de enfrentar,
com firmeza, os desafios das disparidades e vulnerabilidades,
mobilizando democraticamente a população.
Essas tarefas são inadiáveis e urgentes, pois as políticas
econômicas, sociais e de poder, de cunho neoliberal, agravaram as
disparidades internas, acentuaram a vulnerabilidade externa, esgarçaram
o tecido social, debilitaram o Estado, desnacionalizaram a economia e
enfraqueceram a democracia.
De outro lado, o cenário internacional se caracteriza pela
concentração de poder econômico e militar no centro do sistema, pela
expansão da exclusão social, da instabilidade política e dos
conflitos armados na periferia e, finalmente, pela emergência de um
mundo multipolar, onde os Estados Unidos terão de enfrentar a
influência crescente da União Européia e da China, e, em menor
escala, do Japão, da Índia e da Rússia.
A ALCA não é um mero projeto econômico e comercial dos Estados
Unidos. Ela é parte essencial de sua estratégia global para defender
os interesses norte-americanos - econômicos e políticos -, neste mundo
multipolar e conflituoso. A ALCA tem como objetivo incorporar a economia
dos países latino-americanos à economia americana, através da
eliminação gradual - porém definitiva, formal e legal -, ao comércio
de bens e serviços, à movimentação de capitais e às atividades das
mega-empresas americanas, através da aceitaçào de regras mais de
proteção aos detentores de patentes e direitos autorais. Na prática,
se consolidariam, por tratado, os atuais programas econômicos
neoliberais e os Estados renunciariam à sua capacidade e ao seu direito
de exercer, com eficácia, suas políticas comercial, industrial e
tecnológica, para promover o desenvolvimento. Na esfera
político-militar, a ALCA e a Iniciativa das Américas têm como
objetivo desarmar a região, assegurar a sua presença militar direta e
assegurar o alinhamento latino-americano com as iniciativas e posições
políticas americanas em confrontos com outros pólos de poder com os
países renegados da periferia. A América Latina e o Brasil, passarão,
com o advento da ALCA, a serem apêndices, subordinados aos Estados
Unidos da América, renunciando a toda expectativa de uma participação
mais ativa no sistema internacional em benefício da sociedade
mundial.
O Mercosul, nesse quadro, praticamente desaparecerá em relação aos
Estados Unidos e ao Canadá, os dois grandes países desenvolvidos do
Hemisfério Ocidental e integrantes do NAFTA. O Mercosul, apesar de
todos os esforços retóricos para aprofundá-lo, através de políticas
comuns, ou de ampliá-lo geograficamente, com a inserção de países
como o Chile, a Bolívia e a Venezuela, é ainda, essencialmente, uma
área de livre comércio entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e,
uma união aduaneira cujo instrumento central é a Tarifa Externa Comum
(TEC) entre esses quatro países em relação a todos os demais.
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Com a efetivação da ALCA e a eliminação gradual, entre dez e quinze anos, a partir de 2005, das tarifas e medidas não-tarifárias incidentes sobre o comércio das Américas, a TEC deixará de existir, a tarifa passará a ser zero para os produtos provenientes dos Estados Unidos e Canadá, países detentores de maior pujança industrial e capital de giro. |
Assim,
as mega-empresas norte-americanas estarão em pé de igualdade com as
empresas brasileiras nos mercados do Mercosul, inclusive no Brasil. O
Mercosul, como área de livre comércio, se dissolverá na ALCA, e, como
união aduaneira, não existirá a não ser para os países extra-ALCA.
Essa situação alimentará, fortemente, as pressões para um acordo de
livre comércio com a União Européia. Celebrado este acordo, na
prática, o Mercosul terá desaparecido de todo, tendo em vista a
pequena importância relativa do comércio do Mercosul com a África e a
Ásia.
De outro lado, a estratégia americana de construção acelerada da ALCA
minou o Mercosul (e a política brasileira) ao atrair o Chile, a
Argentina e o Uruguai para negociarem acordos bilaterais. A Argentina,
através de seu ex-Ministro Domingo Cavallo, não só “revogou” o
Mercosul para o setor de bens de capital como expressou seu desejo de
transformá-lo em um esquema mais avançado de integração: uma zona de
livre comércio.
Com a ativação da ALCA, as repercussões sobre a economia brasileira
serão contundentes. É correto que algumas empresas e alguns setores
exportadores brasileiros se beneficiariam com o melhor acesso ao mercado
norte-americano. Porém, o nível médio de eficiência, da
competitividade (em termos de dimensão, de capacidade organizacional,
de acesso a financiamento, de dinamismo tecnológoco) de cada setor da
economia americana é bem superior ao correspondente nível brasileiro.
O resultado será uma maior expansão das exportações americanas para
todos os Estados do Hemisfério (inclusive para o Brasil) do que das
exportações brasileiras para o Hemisfério (inclusive para os Estados
Unidos). O resultado para a balança comercial brasileira - e para o
fortalecimento de novas empresas - será grave e muito negativo. De
outro lado, em uma área de livre comércio, os investimentos tendem a
se concentrar na região mais dinâmica do conjunto, em termos de
mercado, infra-estrutura, dinamismo tecnológico, e qualificação de
mão-de-obra, como ocorrerá, indubitavelmente, no caso da ALCA, com os
Estados Unidos. Assim, novos investimentos tenderão a se instalar nos
EUA para abastecer o principal mercado e exportar para os demais países
e, o mais grave, antigos investimentos estrangeiros podem migrar para o
território norte-americano, pela mesma razão.
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Diante deste cenário prospectivo nada promissor, podemos inferir que a açodada ativação da Área de Livre Comércio das Américas, a partir de 2005, poderá acarretar sérios transtornos à nossa economia e carcomer as bases em que se sustenta o Mercosul, colocando todo o hemisfério à mercê do usufruto da superpotência hegemônica do Norte. |
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