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DECLÍNIO DE “TIO SAM”?
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Geralmente se considera o ano de 1898 como marco do ingresso dos Estados Unidos no clube das grandes potências mundiais. Nesse ano derrotou militarmente a Espanha e herdou um império que abarcava desde Porto Rico até as Filipinas. Entretanto, desde 1880 havia ultrapassado a Inglaterra como a maior nação industrializada do planeta e produzia 29% do produto industrial bruto mundial. |
Em 1914, o conhecido editor Henry Luce escreve o seu famoso ensaio: O Século Americano que, com o passar dos anos, passou a ser reconhecido como expressão de uma inapelável realidade. Após a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos se consolida como uma das cinco grandes potências mundiais e ao terminar a Segunda Guerra se transforma em uma das duas grandes superpotências. Ademais, em 1945, sua superioridade econômica não encontra comparações pois o país já ostenta a expressiva marca de 50% do PIB mundial. Com o colapso do comunismo, iniciado em 1989, os Estados Unidos não somente ganha a Guerra Fria como também se transforma em única e indisputável superpotência.
As manifestações da atual hegemonia norte-americana são múltiplas. Trata-se de um portentoso poder militar. O orçamento que os Estados Unidos destina à aquisição de armamentos é equiparável ao total das seis nações mais poderosas que lhe seguem na lista e duplica em relação ao orçamento com defesa em comparação a todos os adversários juntos que ainda lhe restam.
Trata-se, também, de um pujante poder econômico. Os Estados Unidos é o quartel general da economia global. O maior mercado monetário, bursátil e de bônus do mundo. Suas empresas representam a terça parte das quinhentas maiores corporações do mundo e acumulam a metade dos seus benefícios. As mesmas dominam nos setores de maior tecnologia e valor agregado, mas, também, nos de consumo maciço.
Constitui-se, ainda, de um prodigioso poder institucional. Os Estados Unidos não somente sedia as maiores organizações mundiais, tais como a ONU, o Banco Mundial e o FMI, mas também exerce um papel determinante sobre estas e as demais instituições de nosso tempo como a OTAN e a OMC.
Consiste, também, em um extraordinário poder diplomático. Os Estados Unidos tem sido o grande árbitro dos conflitos mundiais: Irlanda do Norte, Oriente Médio, os Balcãs, etc. Sua ação diplomática tenta pôr fim à divisão de Chipre, busca equilibrar a China e Taiwan, a Armênia e Azerbaijão, a Índia e Paquistão, aos tutsis e hutus.
Trata-se, ainda, de um incrível poder cultural. Desde Hollywood, a CNN e MTV, passando por McDonald’s até a Microsoft e Marlboro, as idéias, hábitos, valores, costumes e modismos norte-americanos reinam em profusão. A própria Internet leva a marca estadunidense. É tudo aquilo que convencionamos chamar de “poder suave” e que se manifesta através da multimídia e da cultura global “pop”. Não é sem razão que a jornalista francesa Sophie Gherardi assinala: “A hegemonia norte-americana não é uma novidade. O que resulta excepcional é que através de uma conjunção de fatores e de circunstâncias, os Estados Unidos passaram a ganhar em todos os tabuleiros” .
Curiosamente, nunca antes haviam surgido tantas teses, desde o interior do mundo acadêmico norte-americano, que proclamassem o declínio inevitável dos Estados Unidos no cenário internacional. Mesmo no momento em que a evidência de seu poder parece inquestionável, surgem algumas teses como a de Paul Kennedy, em sua obra “Ascensão e Queda dos Grandes Poderes”, que sustentam que os Estados Unidos iniciou um processo de decadência. Samuel Huntington afirma que a modernização somente tem servido para fortalecer outras culturas rivais e para reduzir o poder do Ocidente e, por conseguinte, dos Estados Unidos. E, mais ainda, que o “multiculturalismo” que afeta internamente o país, ante o impacto de culturas estranhas que o permeiam, constitui-se em uma poderosa fonte de decadência.
Robert Putnan, conceituado politicólogo, entende que a “arte da associação”, elemento-chave da grandeza estadunidense está se desmoronando. O povo perdeu a fé em suas autoridades e em suas instituições e, ao mesmo tempo, está perdendo, também, a capacidade de associar-se em grêmios e organizações. Para outros, como Arthur Schlesinger Jr, pelo contrário, a causa do declínio norte-americano se encontra na excessiva capacidade associativa, que tem conduzido a sociedade a um processo de tribalização.
Lester Thurow, conhecido analista político, indica que a globalização está reduzindo seriamente o poder dos Estados e que os Estados Unidos não se constitui em exceção, neste sentido. E, mais ainda, a economia desse país não somente tem-se mostrado menos relevante na economia global mas, também, tem diminuído progressivamente sua influência nas organizações econômicas multilaterais.
O aparecimento da nova moeda européia, o Euro, está conduzindo, inevitavelmente, ao surgimento de uma rivalidade ao dólar, o que impactará fortemente a preeminência econômica estadunidense. Por outro lado, a crescente desigualdade econômica que está ocorrendo no interior do país cria as condições para sérias crises políticas e institucionais.
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Donald White, conceituado estudioso do assunto, sustenta que a redução da presença norte-americana na economia global, a atomização da sociedade em parcelas ideológicas, étnicas e grupais, bem como a perda da capacidade de consenso com respeito ao papel que os Estados Unidos deve representar no mundo, evidenciam um claro e acentuado declínio da superpotência no cenário internacional. |
Diante desta constatação, resulta paradoxal o fato de que no momento de máxima glória e de euforia em que vive, atualmente, os Estados Unidos, a intelectualidade naquela superpotência, tenha adentrado em um processo reflexivo marcado pelo pessimismo com relação ao futuro do país.
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