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CENÁRIOS PROSPECTIVOS GLOBAIS
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Há trinta anos, o grupo de empresas Shell vem realizando, trianualmente, um interessante exercício de prospecção. Ou seja, a cada três anos, a Shell torna público dois cenários alternativos que, a seu juízo, marcarão o rumo do mundo para as próximas décadas. |
No início de janeiro do ano corrente, na matriz da corporação, em Londres, o presidente da junta diretora da Empresa convidou a um grupo de personalidades e jornalistas para apresentar os cenários possíveis para os próximos vinte anos.
Os dois cenários apresentados foram os seguintes: primeiramente, a consolidação de uma economia globalizada, sob as normas tradicionais ditadas pelo Consenso de Washington ou, alternativamente, a erosão da economia globalizada, com o conseqüente abandono aos conceitos contidos no Consenso de Washington e uma considerável retração da liderança estadunidense, devido ao desenvolvimento de um mundo muito mais multicultural. O primeiro cenário foi denominado de “business class”, em função das características de um mundo dirigido por uma elite internacional de valores compartidos. O segundo foi chamado de “prisma”, em alusão a um mundo na qual a cor apresentada dependerá do cristal cultural com que for observado.
O primeiro dos cenários citados reafirma a liderança econômica dos Estados Unidos, em nível mundial, bem como as tendências para uma economia global cabalmente integrada e para uma homogeneização de valores e culturas. Isto implica, naturalmente, na existência de Estados crescentemente debilitados em função das pressões que sobre eles se exercem, nos mais diversos níveis. Sob este marco de referência, a balança na correlação de poder inclina-se para as grandes corporações e os Estados competem entre si para tornarem-se atraentes à inversão forânea. Isto implica, fundamentalmente, em uma estrita sujeição às regras do Consenso de Washington. As corporações, entretanto, para manterem a sua vigência e a própria sobrevivência em meio a uma corrida desenfreada e com velocidade máxima, encontram óbices cada vez mais difíceis de serem superados. Confrontadas pela permanente ameaça de verem-se, a qualquer momento, engolfadas pelas correntes que caminham com maior velocidade, as empresas devem empreender constantes avaliações para saber tornar obsoletos seus próprios produtos e serviços antes que a competição desenfreada o faça. Sob a ótica deste cenário, a volatilidade das finanças internacionais segue sendo a norma e os mercados continuam castigando igualmente aos culpados, inocentes e vulneráveis.
No segundo cenário apresentado, batizado curiosamente de “prisma”, parte-se do raciocínio de que os estadunidenses não conseguirão superar – a curto prazo - a crise de seu setor de alta tecnologia e, ademais, terão que enfrentar atentados terroristas – dos mais variados matizes -, em seu próprio território e nas representações diplomáticas espraiadas por todo o mundo. Naturalmente, isso exige que sejam repensados os seus compromissos internacionais, com ênfase no âmbito hemisférico. Se bem que este cenário não implica, necessariamente, no abandono da “modernidade”, representa, entretanto, o surgimento de uma “modernidade plural”. Ou seja, a possibilidade de que em um cenário econômico mundial, crescentemente dividido em regiões, cada região tenha a sua própria resposta e a sua maneira de fazer as coisas. De fato, a relação entre os blocos regionais determinará o essencial a ser observado na agenda da nova ordem econômica mundial, com substancial perda de influência dos agentes financeiros internacionais e dos organismos multilaterais globais.
Sob esta ótica, pode-se vaticinar que os Estados recuperarão muito da influência perdida no cenário internacional atual. E, mais ainda, não serão eles que terão que lutar para tornarem-se mais atrativos ao grande capital internacional. As corporações terão que competir entre si para atender e entender melhor o Estado e a comunidade anfitriã. Ou melhor, o êxito das corporações será medido, fundamentalmente, em função de sua capacidade em adaptar-se a este ambiente plural.
O tempo se encarregará de apontar, dentre os cenários apresentados, aquele que realmente tornar-se-á realidade. No momento, são meras conjecturas embasadas em jogos de simulação e exercícios de prospecção.
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