INTEGRAÇÃO HEMISFÉRICA: UTOPIA OU INEXORABILIDADE?


A noção de pan-americanismo surge nos Estados Unidos, ao amparo da Primeira Conferência Pan-americana de Washington, em 1889. Tratava-se, entretanto, de um conceito mais próprio do século XX do que do século anterior. No século XIX, os EEUU estavam demasiadamente ocupados estruturando seu próprio território para pensar em termos hemisféricos, e transformar-se no polo catalisador dos interesses e aspirações de toda a América. Uma vez concluído o seu processo de integração nacional é que o país do Norte buscou projetar sua presença sobre todo o conjunto do hemisfério. 

Etimologicamente, pan-americanismo significa: “uma só unidade em toda a América”. Através dessa idéia, os EEUU pretendiam dar sustentação aos seus vínculos e ideais em toda a extensa região situada ao Sul do Rio Grande. Da mesma maneira que a França, algumas décadas antes, batizou o termo América Latina para justificar sua projeção sobre a América Ibérica, os estadunidenses recorreram a um novo termo com os mesmos propósitos.


O pan-americanismo, em realidade, buscava encontrar as suas raízes em dois fatores. O primeiro, de natureza eminentemente geográfica. O segundo, fundamentalmente de natureza histórica. O geográfico mostrava-se óbvio e respondia a realidade desse imenso continente, situado entre dois oceanos e descoberto por Cristóvão Colombo. O histórico, aludia a condição de civilizações transplantadas de outro lado do oceano, que compartilhavam a América anglo-saxônica e a América ibérica, bem como o episódio comum de emancipação vivido por ambas. 

Intelectuais latino-americanos daquela época como Marti, Ugarte e Ingenieros, viram com suspicácia o surgimento da idéia pan-americanista. Entretanto, a mesma afiançou-se como justificativa conceitual a uma interrelação política e comercial cada vez mais dinâmica. Em 1910, Buenos Aires serviria de sede à IV Conferência Pan-americana. Ali surgiria a denominação União Pan-americana e se formalizaria a criação de um órgão permanente com sede em Washington. 

A partir dos anos trinta a noção de pan-americanismo veio perdendo força, mudando, gradualmente, para um novo conceito: o interamericanismo. Esta mudança adquiriu forma jurídica através de dois novos instrumentos lançados no cenário internacional: O Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), datado de 1947 e a Carta da Organização das Nações Unidas, de 1948. A diferença entre ambos os conceitos era sutil, porém bastante significativa e importante. O interamericanismo não respondia à idéia de um “todo”, mas sim a “relação” entre suas diversas partes. 

Curiosamente, com o despertar do século XXI a noção pan-americanista, longe de perder vigência, foi afiançando-se cada vez mais. Efetivamente, mais do que a afirmação da “relação” das diversas partes do amplo continente americano, as tendências apontam para a conformação de um “todo”. No campo econômico e comercial se marcha, inexoravelmente, para a integração hemisférica. Entretanto, muito mais significativa que aquela é o imbróglio cultural que parece estar se produzindo entre as duas grandes vertentes da América. 

No âmbito econômico a América Latina transformou-se em um interlocutor cada vez mais vital para os Estados Unidos. As exportações dos norte-americanos para a região aumentaram 24,3% em 1998, transformando-a no mercado de maior crescimento para os produtos estadunidenses no mundo. Durante a próxima década, segundo estimativas do Departamento de Comércio de Washington, a América Latina sobrepujará a Europa e a Ásia para converter-se no maior sócio comercial dos EEUU. Vislumbra-se para o ano de 2005 a ativação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), dando forma a um grande bloco econômico no continente americano. 

Não obstante, será no campo cultural, que a interrelação entre o Norte e o Sul se fará mais notória. Há muito tempo, a penetração da cultura norte-americana na América Latina faz-se sentir com grande intensidade, determinando uma autêntica transculturação da região. Porém não se trata de uma pista de uma só direção. Também da América Latina para o gigante do Norte, tem se produzido uma invasão cultural. Cada dia mais, os EEUU vêm sofrendo o impacto da “hispanidade” e de “brasilidade”, as quais vão, paulatinamente, reforçando a sua presença na nova identidade estadunidense. Los Angeles já é a segunda cidade do mundo de fala espanhola, somente superada pela cidade do México. As cidades de Miami e de Orlando, na Flórida, recebem, anualmente, um enorme afluxo de turistas brasileiros em busca de diversão e lazer. Nova York acolhe em suas entranhas um grande contingente de residentes oriundos do Brasil e demais países latino-americanos. Para meados do século, estima-se que um quarto da população desse país será de origem hispânica. A simbiose entre as duas Américas irá se tornando cada vez mais evidente com o passar dos anos. 

Poderemos então, diante deste curioso cenário, vaticinar que a tendência do novo pan-americanismo deverá ser, de forma contundente, a da interdependência e a da profunda interação entre os países constitutivos do espaço geopolítico do continente americano? 

Seria de bom alvitre, que o governo do presidente norte-americano George W. Bush funcionasse como elemento catalisador deste fascinante processo de integração hemisférica. 

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