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OS EUA E O “EIXO DO MAL”
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O presidente estadunidense George W. Bush, recentemente, em seu primeiro “Discurso da União”, cunhou a lapidar frase “eixo do mal”, para referir-se aos três Estados que, neste momento, simbolizam os grandes adversários dos Estados Unidos: Irã, Iraque e Coréia do Norte. Os mesmos, segundo Bush, constituem uma categoria superior dentro do que convencionou-se chamar de “Estados vilões” (rogged states).
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Aí também se situariam Cuba e Líbia, entre outros. Do ponto de vista semântico, a palavra “eixo” não parece ser a mais adequada para referir-se a três Estados que pouco têm de comum entre si e que de modo algum constituem uma aliança. Não obstante, ao definir o inimigo, o presidente norte-americano pôs em movimento uma dinâmica política cujas implicações, cabalmente entrelaçadas, poderiam ser as seguintes:
Em primeiro lugar, uma volta ao unilateralismo com substancial perda de influência da política de alianças. Até o dia 11 de setembro de 2001, a política externa da administração Bush esteve caracterizada pelo unilateralismo, com manifestada e nítida subvalorização de tratados e alianças internacionais. A partir desta data, entretanto, o presidente estadunidense parece querer retomar o caminho traçado por seu pai, nos tempos da tão decantada Nova Ordem Mundial. Ou seja, o exercício de uma liderança norte-americana sustentada por uma malha de alianças cuidadosamente trabalhada. Ao definir os novos adversários, sem consultar aos tradicionais aliados e independentemente dos custos que isto possa representar, Bush demonstra ter retomado, enfaticamente, o caminho do unilateralismo.
Em segundo lugar, a erosão do consenso doméstico ditado pela opinião pública estadunidense, em política externa, e, junto a ela, a enorme possibilidade do surgimento de uma “presidência imperial”. Isto decorre do fato de existirem períodos em que o povo norte-americano percebe que está sendo submetido a ameaças forâneas que exigem, como corolário, a existência de presidentes fortes, carismáticos e atuantes no campo externo. Entretanto, isso requer a criação de políticas com atitudes de convergência a nível de Congresso. Ao definir-se uma opção tão taxativa como a representada pelo “eixo do mal”, corta-se a possibilidade de uma política consensual o que, fatalmente, conduzirá ao surgimento de uma presidência não afeita ao diálogo e à conciliação.
Em terceiro lugar, evidencia-se um acentuado fortalecimento da ação militar com um debilitamento proporcional da opção diplomática. O rápido e avassalador triunfo obtido pelas Forças Armadas norte-americanas, no Afeganistão, poderá tornar supérfluo, aos olhos do cidadão comum americano, o imenso trabalho diplomático que o antecedeu. Ao final de contas, se os Estados Unidos é um país suficientemente poderoso para prevalecer, no cenário mundial, como potência hegemônica, sem a ajuda de terceiros, para que então preocupar-se em costurar alianças? Como bem dizia, humoristicamente, Winston Churchill: “Ao trabalhar com aliados, as vezes ocorre que eles desenvolvem suas próprias opiniões”.
Em quarto lugar, dentro do Gabinete do presidente George W. Bush, tudo leva a crer no retorno à correlação de forças que antecedeu à fatídica data de 11 de setembro. Isto é, os “falcões” prevalecendo sobre as “pombas”. Ou seja, Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, eclipsando Collin Powell e o Pentágono debilitando o Departamento de Estado norte-americano.
Ainda é demasiadamente cedo para conclusões definitivas, porém, o “Discurso da União” bem que poderá estar representando uma volta ao estado de coisas que precedeu a data de 11 de setembro, quando duas cidades estadunidenses, Washington e Nova York, foram duramente atingidas pelos atentados terroristas perpetrados por fanáticos talibãs do grupo Al-Qaeda.
Estamos diante de instigante e curioso cenário prospectivo. Oxalá as perspectivas sejam promissoras e a superpotência possa dar ao mundo um exemplo de equilíbrio, moderação e maturidade política. Assim o desejamos para o bem da Humanidade.
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