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O
TABULEIRO DO PODER MUNDIAL
Joseph
Nye, decano da Escola de Governo John F. Kennedy, da Universidade de
Harward, escreveu um instigante artigo na edição de 23 a 29 de março,
do ano corrente, da revista The Economist. Nesse trabalho, ele analisa a
essência do poder dos Estados Unidos, na atualidade. Segundo sua ótica,
uma visão superficial levaria qualquer analista a concluir que a brecha
de poder existente, nos dias atuais, entre os Estados Unidos e o resto
do mundo resulta pura e simplesmente avassaladora. Militarmente, é a única
nação de alcance global em nível de armamento nuclear e forças
convencionais, e seus gastos, nessa matéria, são maiores que os dos próximos
oito grandes países do planeta combinados. Economicamente, representa
31% do Produto Bruto Mundial, ao mesmo tempo em que sua presença
cultural faz-se sentir em todos os rincões da Terra.
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Por
detrás desta primeira aproximação, entretanto, a realidade é
muito mais complexa. De acordo com Nye, o poder nesta era da
informação global se assemelharia a um jogo de xadrez
tridimensional. Na parte superior do tabuleiro, encontra-se o
poder militar.
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Ali, a superioridade estadunidense é indisputável
e o poder unipolar. No tabuleiro médio aparece o poder econômico,
que apresenta-se claramente multipolar pois os Estados Unidos
competem com outros atores significativos entre os quais
sobressaem a União Européia e o Japão.
Finalmente, no tabuleiro inferior, encontramos uma complexa rede
transnacional não governamental. Esta última incluiria os mais
diversos atores: desde banqueiros que mobilizam vultosas quantias -
maiores do que a soma dos orçamentos destinados a diversos países -,
até terroristas e traficantes de armamentos, passando pelos
“hackers” que dedicam-se a difundir o caos nos computadores de todo
o mundo.
Nesse nível, obviamente, não se pode falar de unipolaridade,
multipolaridade ou hegemonia, pois o poder se encontra atomizado. Ainda
segundo Joseph Nye, dentro de um jogo tridimensional é impossível
centrar unicamente a atenção no tabuleiro superior, pois isto levaria
a perder de vista os jogos que se desenvolvem nos outros dois tabuleiros,
bem como as conexões verticais e a capilaridade que se estabelecem nos
três níveis.
Embasados nesta linha de raciocínio atingimos, então, o cerne da dinâmica
gerada a partir dos atentados perpetrados, por terroristas muçulmanos
talibãs do grupo Al-Qaeda, às cidades de Nova York e Washington, em 11
de setembro de 2001. Num primeiro momento, o governo estadunidense
esteve convencido de que a resposta frente ao terrorismo islâmico
passava pela construção de um entretecido de alianças internacionais.
Isto fez com que Washington deixasse de lado o unilateralismo, que até
esse momento havia caracterizado a política externa do governo de
George W. Bush, propiciando uma visão muito mais sofisticada e realista
dos assuntos internacionais. O magnífico triunfo militar estadunidense
no Afeganistão parece ter trazido como ensinamento, aos norte-americanos,
que os Estados Unidos não necessitam de coalizões, bastando utilizar a
seu portentoso poder militar para atingir os objetivos colimados. Ao final
de contas, a sua própria superioridade militar parecem tornar supérfluas
a diplomacia e as concessões que ela, obviamente, entranha. Em poucas
palavras, diríamos que a atenção, no momento, está concentrada no
tabuleiro superior.
A permanente ameaça aos Estados Unidos poderá ocorrer por diversas
vias, tais como: uma bomba nuclear radiológica colocada, por exemplo,
no coração de Washington ou Nova York ou de patogênicos químicos ou
biológicos dispersados no metrô de uma grande cidade ou em algum reservatório
de água urbano. Frente a esse tipo de ameaça de pouco ou nada serve a
condição unipolar da superpotência. A única maneira de enfrentar
tais perigos é através da cooperação intergovernamental, das alianças
e da diplomacia.
Controlar, efetivamente, a subtração e o movimento de material
nuclear, biológico ou químico dos arsenais russos, mediante acordos e
adequada cooperação; enfatizar a cooperação entre os serviços de Inteligência
do mundo e, efetivamente, propiciar a resolução dos problemas que
alimentam o ódio com o Ocidente e o fundamentalismo dentro do mundo islâmico.
São iniciativas como essas as únicas susceptíveis de dar uma resposta
positiva a este imbróglio geopolítico que tantos prejuízos tem
causado à humanidade. Entretanto, dificilmente se conseguirá êxito
nessa empreitada enquanto perdurar um ambiente marcado, primacialmente,
pelo unilateralismo, pela prepotência e pela sensação de auto-suficiência
da nação hegemônica.
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