AS
RELAÇÕES SINO-BRASILEIRAS
O Brasil e a República Popular da China, separados geograficamente por vastos
oceanos, contam com acentuadas diferenças no processo histórico, regime
político, sistema social, tradição cultural e condições naturais. Porém,
possuem muito em comum no sentido da salvaguarda da independência e da
soberania nacional, na luta pela construção da Pátria e da própria
identidade. A China, desde o século XIX, durante a gestão da Dinastia Qing,
estabeleceu relações diplomáticas com o Brasil. Muitos chineses, vencendo
todo o tipo de dificuldades, atravessaram os oceanos para chegar até o Brasil,
e juntarem-se ao povo local para ajudar a construir, com o seu trabalho, a
Nação brasileira. Os dados estatísticos demonstram que, na atualidade,
existem no Brasil cerca de 200 mil chineses e seus descendentes. Eles criaram
amizades e estabeleceram profundas raízes com o povo brasileiro compartilhando
o mesmo destino, as mesmas alegrias e agruras. Desde o estabelecimento de
relações diplomáticas entre a China e o Brasil, as relações bilaterais, em
todas as áreas, vêm se desenvolvendo de maneira bastante satisfatória e
evidenciam resultados altamente compensadores. Nos primeiros anos da década de
1990, os líderes dos dois países chegaram ao consenso de estabelecer uma
parceria estratégica duradoura, estável e de benefício mútuo. Assim, o
Brasil tornou-se o primeiro país em desenvolvimento com quem a China
estabeleceu uma parceria estratégica. Desde então, a cooperação amistosa
entre os dois países entraram numa nova época. As altas autoridades dos dois
países trocaram visitas, com relativa freqüência, o que aumentou o
conhecimento e a confiança mútuos. O presidente da China, Jiang Zemin, visitou
duas vezes o Brasil, nos anos de 1993 e 2001. O presidente Fernando Henrique
Cardoso também visitou a China no ano de 1995. Os dois países compartilham
visões e posições idênticas ou semelhantes em importantes temas
internacionais e, através de uma excelente coordenação de suas ações e
apoios recíprocos, lograram alcançar excelentes resultados junto à
Organização das Nações Unidas e demais organismos internacionais.
As cooperações econômica-comercial e científico-tecnológica são dois
pilares na parceria estratégica sino-brasileira, e vêm se aprofundando de
forma crescente. Na área econômica e comercial, as estatísticas chinesas
mostram que o volume total do comércio entre a China e o Brasil chegou a 2,8
bilhões de dólares no ano 2000, que é 160 vezes maior do que o volume
registrado em 1974, ano em que restabeleceram-se relações diplomáticas entre
os dois países, durante a gestão do presidente Ernesto Geisel. As
estatísticas brasileiras mostram que, no primeiro semestre deste ano, a
exportação brasileira para a China cresceu 91,4% em relação ao mesmo
período do ano passado. O Brasil já é o maior parceiro comercial da China na
América Latina, há vários anos consecutivos, e a China também se tornou um
dos dez maiores mercados para a exportação brasileira. A cooperação
econômica e os investimentos mútuos vêm aumentando a cada ano. As empresas
chinesas nas áreas de processamento de madeira, siderurgia, eletro-domésticos
e telecomunicações estão realizando investimentos maciços para instalarem-se
no Brasil. A título de exemplo, a empresa Gree da China investiu 20 milhões de
dólares em Manaus e instalou uma unidade montadora de aparelhos de
ar-condicionado, de última geração, com capacidade de produção anual na
ordem de 200 mil unidades. A Usina Siderúrgica Baoshan acabou de assinar um
acordo com a Companhia Vale do Rio Doce para explorar, em joint-venture, minas
de ferro no estado de Minas Gerais. A parte chinesa investirá 20 milhões de
dólares e comprará todo o minério de ferro extraído dessa mina. Algumas
empresas brasileiras também fizeram investimentos na China. Empresas brasileira
famosas como a CVRD, a CBMM e a Embraer mantêm boas relações de cooperação
com a parte chinesa e instalaram escritórios na China. As cooperações na
área hidrelétrica já tiveram progressos significativos. Na licitação para a
instalação de turbinas-geradoras, para o projeto Três Gargantas, empresas
brasileiras ganharam a concorrência para a instalação de seis turbinas,
colaborando, desta maneira, na construção da maior hidrelétrica do mundo.
Na área de ciência e tecnologia, o primeiro satélite de sensoreamento de
recursos terrestres - desenvolvido e fabricado em parceria pelos dois países -,
foi lançado com sucesso, em outubro de 1999, e teve sua vida útil prolongada,
em face dos excelentes resultados tecnológicos obtidos. O segundo satélite
está sendo montado no Brasil, conforme havia sido planejado. Durante a visita
do Chanceler chinês Tang Jiaxuan ao Brasil, no ano 2000, as duas partes
assinaram acordos sobre o desenvolvimento e fabricação, em conjunto, dos
terceiro e quarto satélites. Na área espacial, a cooperação entre os dois
países, já se tornou um edificante exemplo – para as relações Sul-Sul - no
estabelecimento de parcerias objetivando o desenvolvimento de alta tecnologia.
Além disso, os dois países estão incrementando novas e profícuas
cooperações nas áreas de tecnologia de informática, biotecnologia e
desenvolvimento de novos materiais avançados.
A China e o Brasil são os maiores países em desenvolvimento situados
respectivamente a Leste e Oeste do globo terrestre. Ambos estão se dedicando ao
desenvolvimento de suas economias e à melhoria do padrão da vida de seus
povos, carreando, primacialmente, grandes responsabilidades para o progresso e
prosperidade de suas respectivas regiões e, secundariamente, para o desfrute de
toda a humanidade. O aprofundamento e o fortalecimento constantes da parceria
estratégica, entre os dois países, não apenas correspondem aos interesses
fundamentais dos seus povos, como também ajudam na defesa da paz e no
desenvolvimento em níveis regional e mundial. O governo chinês tem atribuido
muita importância a isso. Em abril de 2001, o presidente Jiang Zemin visitou o
Brasil pela segunda vez, e teve uma proveitosa conversa e troca de opiniões com
o presidente brasileiro sobre o desenvolvimento contínuo da parceria
estratégica entre os dois países, no alvorecer deste século. Os dois
presidentes chegaram a um acordo abrangente, o que ergueu um novo marco no
avanço do relacionamento entre as duas Nações.
O presidente Jiang Zemin, durante a sua última visita à América Latina, no
ano de 2001, propôs algumas iniciativas para aquecer o relacionamento entre a
China e o Brasil e que, ao nosso ver, servem como diretrizes para incrementar,
substancialmente, as relações sino-brasileiras:
-
Desenvolver
a confiança mútua, através do aumento do entendimento e da igualdade de
oportunidades, nas parcerias entre brasileiros e chineses;
-
Continuar
o estreitamento das relações políticas entre a China e o Brasil,
intensificando diálogos e cooperações bilaterais, em todos os níveis e em
todas as áreas. Embora, na atualidade, a tecnologia das telecomunicações e da
informática faculte a que as pessoas saibam o que está acontecendo no outro
lado do mundo, sem sair de casa, o velho ditado “mais vale ver uma vez do que
ouvir cem vezes” continua valendo. É assaz importante que mais brasileiros,
de diferentes setores de atividades, possam ir dar uma minuciosa olhada na
China, para testemunhar a gigantesca mudança que lá ocorre e ouvir os
sentimentos e pensamentos dos cidadãos comuns chineses. Também devemos
estimular as visitas de chineses ao Brasil, para conhecer e entender, com maior
profundidade, o nosso País;
-
Salvaguardar
os direitos e interesses legítimos dos países em desenvolvimento, no cenário
internacional, através da intensificação de consultas bilaterais e apoios
mútuos. Os dois países devem continuar os amplos diálogos sobre os
importantes temas internacionais, coordenar as posições, valorizarem-se e
apoiarem-se reciprocamente em ações concatenadas. Em organismos ou
organizações internacionais tais como a ONU, o FMI e o Fórum Ásia-América
Latina, devem engendrar esforços no sentido de buscar consensos e ampliar as
cooperações. A China tornou-se, recentemente, membro formal da Organização
Mundial do Comércio (OMC). Isto, certamente, abrirá um novo e importante nicho
para as cooperações econômicas e comerciais internacionais entre a China e o
Brasil. A China está disposta a intensificar a coordenação com o Brasil na
OMC, para que todos os países possam tirar benefícios em comum no processo da
globalização econômica;
-
Ampliar
as cooperações econômicas e comerciais na base de benefício e
desenvolvimento comuns. A China e o Brasil possuem imensos recursos naturais,
eficiente controle dos setores produtivos, domínio de tecnologia-de-ponta e
mercado interno com enorme potencialidade. As perspectivas de cooperação entre
os dois países são vastas. As duas partes devem explorar as suas
potencialidades e promover o crescimento gradual do comércio, elevando o valor
agregado dos produtos exportados, dando maior importância à ampliação do
investimento mútuo e ao desenvolvimento de parcerias que envolvam alta
tecnologia. O governo brasileiro já classificou a China como um dos países
mais importantes para a expansão da exportação. É importante que
empresários brasileiros conheçam o mercado chinês e negociem cooperações e
parcerias, ao mesmo tempo que devemos estimular que empresas chinesas explorem a
potencialidade do mercado brasileiro.
Finalizando,
entendemos que faz-se mister que seja estabelecido, com ênfase, um abrangente e
completo relacionamento de cooperação com a China, visualizando a um futuro de
médio e longo prazos. Brasileiros e chineses têm realidades muito semelhantes
e compartilham muitos interesses comuns. Devemos libertar a nossa imaginação
em relação às cooperações bilaterais, diversificando as formas e ampliando
as áreas de atuação. Por um imperativo geoestratégico, torna-se
imprescindível enriquecer e aprofundar o conteúdo da parceria estratégica
sino-brasileira, aumentando os intercâmbios e as cooperações bilaterais, em
todas as áreas e em todos os níveis, criando benefícios objetivando o
bem-comum de ambos os povos.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003
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