UMA
GUERRA IMPREVISÍVEL
Segundo o governo norte-americano, esta última edição da Guerra do Golfo teve
como objetivo principal pôr fim ao terrorismo islâmico, em razão dos
atentados ocorridos, em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.
A Administração de George W. Bush fez o possível para estabelecer uma
relação entre o regime de Saddam Hussein e a organização islâmica Al-Qaeda,
porque, desta maneira, acrescentaria uma justificativa a mais para atacar
militarmente o Iraque, pela suposta posse de armas de destruição em massa.
Agora, abre-se o debate se os recentes atos terroristas ocorridos em Riad
(Arábia Saudita) e Casablanca (Marrocos) são o início de uma resposta do
terrorismo islâmico à Guerra do Golfo ou, o mais provável, dois atos a mais
na longa série de atentados islâmicos ocorridos na Arábia Saudita e em
diversas partes do mundo.
Os aliados europeus da OTAN que estiveram contra a intervenção norte-americana
no Iraque, rechaçaram a hipótese de que existisse um nexo entre a Guerra do
Golfo e a luta contra o terrorismo, rompendo assim a unidade da aliança
Atlântica que o terrível atentado às Torres Gêmeas e ao Pentágono tinham
colocado em marcha. Também o presidente russo, Vladimir Putin, declarou a sua
solidariedade aos EUA ante a terrivel e mortífera agressão e aproveitou a
oportunidade para justificar a guerra na Chechenia, vindo a dizer que se tratava
de combate contra um mesmo inimigo. Desta forma, colocava em um mesmo balaio
duas questões de naturezas distintas.
A guerra no Iraque rompeu esta convergência de interesses. Surgiu o debate que
dividiu, inclusive, os membros europeus da aliança Atlântica entre si e,
também, a respeito dos EUA. Washington adjudicava a si o direito de uma
iniciativa militar que nada tinha a ver com a ameaça do terrorismo islâmico.
Empreender uma luta contra o terrorismo é uma empreitada difícil e difusa.
Especialmente, porque nada ocorre às claras, ainda mais quando se produz a
espetacularidade dramática dos atentados com suas numerosas vítimas.
Combate-se contra a irracionalidade e contra uma ideologia extremamente
impenetrável. No caso da al-Qaeda, o fanatismo religioso não admite formas de
diálogo nem a busca de entendimentos.
Desta forma, não é fácil ater-se escrupulosamente no que diz respeito aos
princípos da legalidade, baseados nos direitos humanos. A guerra contra o
terrorismo pode facilmente converter-se em uma guerra suja. Um exemplo evidente
desta afirmativa, está nas centenas de prisioneiros talibãs encarcerados em
Guantánamo, e as medidas adotadas nos EUA para a detenção e ajuizamento de
indivíduos extranacionais, sem as garantias jurídicas elementares.
No ruidoso e atuante movimento de massas contra a Guerra do Golfo, ocorrido na
Europa, evidenciou-se o desacordo com as ações bélicas das forças da
coalizão anglo-americana no Iraque, sem o devido respaldo do Conselho de
Segurança da ONU, e, também, pela intransigência do governo estadunidense, em
rechaçar a aplicabilidade das leis internacionais aos cidadãos
norte-americanos, pelo Tribunal Penal Internacional.
Os protestos de rua no cenário europeu inundaram de um ambiente de
anti-americanismo o debate diplomático que abriu-se no Conselho de Segurança
da ONU sobre a atitude a adotar com relação ao Iraque. Houve momentos em que o
debate tornou-se especialmente duro e ríspido, sobretudo entre os EUA e
França.
No período pós-bélico as águas parecem ter retornado ao nível normal.
Alemanha e França abrandaram consideravelmente suas posições e os EUA dão
indícios de que não desejam tampouco extremar as diferenças.
A magnitude dos atentados ocorridos em Riad e Casablanca, em 13 e 17 de maio,
respectivamente, obriga a recordar tanto aos Estados Unidos quanto aos seus
aliados europeus, que existe um inimigo comum e que faz tempo adquiriu novas
forças e capacidades, reorganizaram suas hostes e se acham em condições de
voltar a empreender atos criminosos em profundidade.
O presidente George Bush, acenando com a sua intransigente postura de manter,
permanentemente, uma dura campanha contra o terror, referiu-se ao atentado em
Riad afirmando que, definitivamente, trata-se da continuação da uma longa
guerra que já havia sido anunciada. Por sua parte, o vice-presidente
estadunidense Dick Cheney advertiu, recentemente, na capital saudita, que esta
ação “deveria reafirmar a vontade de outros governos em cooperar com os
Estados Unidos”. Esta vontade, evidentemente, é necessária, porém, teria
que comportar, além do aporte de recursos por parte dos europeus, uma correta,
ampla e sincera comunicação dos EUA com seus aliados transatlânticos.
Neste sentido, são de destacar dois fatos recentes: as declarações de Javier
Solana, em que mostra-se preocupado com a possibilidade de que alguém deduza
que uma Europa desunida interessa aos EUA e, de maneira especial, a declaração
conjunta de várias personalidades norte-americanas que desempanharam, no
passado, altas responsabilidades políticas e diplomáticas, tanto nas
administrações democratas ou republicanas. Estas vozes declaram, por exemplo,
que “num período determinante da história das relações entre os EUA e a
Europa, precisamente quando surge a ameaça de longos e perigosos anos de uma
guerra imprevisível contra o terrorismo, os laços de amizade entre os
tradicionais aliados parecem cruciais e incertos”.
Ultimamente, ouve-se, em uníssono, uma voz vinda dos EUA, liberal e aberta,
completamente distinta da que estamos habituados a ouvir da Casa Branca,
explicitada por seus “falcões” republicanos. Personalidades categorizadas
como Madeleine Albright, Zbigniev Brzezinski, Warren Christopher, James
Schlesinger, Robert Dole ou Alexander Haig, têm feito sucessivos
pronunciamentos, emitindo mensagens que constituem uma verdadeira chamada à
sensatez. Coincidem em que a existência de uma Europa unida e livre é um
objetivo primacial para os EUA, e recomendam que ambas as partes estejam
conscientes de que “nem os EUA e nem a Europa são onipotentes e,
conseqüentemente, terão a necessidade de ajudarem-se mutuamente para manter a
própria segurança”.
Diante deste cenário concluimos que convém aos dois lados do Atlântico que
meditem no conteúdo dessa mensagem contra a crispação e o desentendimento e
que consigam, através do diálogo, traçar as linhas mestras para o combate ao
terrorismo, de uma forma sincrônica, firme, inteligente e, acima de tudo,
participativa.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003