TERRORISMO PÓS-GUERRA DO GOLFO


Os cidadãos norte-americanos e ingleses devem estar se perguntando se após a invasão do Iraque, pelas tropas da Coalizão, o Estado será capaz de protegê-los, realmente, contra as ameaças do terrorismo internacional, que certamente advirão.

Até a realização dos atos insanos perpetrados por terrorista talibãs, do grupo al-Qaeda, às cidades de Nova York e Washington, as ameaças prognosticadas pelos agentes da Inteligência (CIA) e pelos analistas em fricções geopolíticas e hipóteses de conflito, enfocavam, prioritariamente, e de modo contumaz, as instalações dos Estados Unidos situadas no exterior, onde os inimigos atuavam com a cumplicidade dos agentes regionais, geralmente promovidos por algum “revolucionário” que pretendia fortalecer-se desafiando a uma grande potência mundial. Era, portanto, um esquema básico e relativamente fácil de prevenir – ainda que nem sempre com êxito – porque o adversário estava obrigado a atuar em cenários pré-estabelecidos, apelando a recursos técnicos e militares muito limitados, submetidos a interesses políticos superiores à sua própria organização sectária. Desta maneira, os enfrentamentos ditavam suas regras primitivas e a única forma de superá-los era sendo tecnologicamente hegemônicos na prevenção. As conseqüências desta visão equivocada ficou evidenciada, com tremenda estupefação, após os atentados ao Pentágono e à Torres Gêmeas, em setembro de 2001.

As autoridades estadunidenses imaginavam que poderiam regionalizar os conflitos e imprimir-lhes um efetivo controle, nos âmbitos políticos e militares. Atuaram, exclusivamente, em defesa de seus interesses como superpotência mundial, e faziam sentir sua presença em qualquer rincão do planeta; porém esqueceram que essa “mundialização” poderia reverter no momento em que qualquer movimento rebelde apelasse, como hoje, ao terrorismo como prolongamento de seu “movimento de libertação”. Porém, os aliados do passado são os fanáticos e encarniçados inimigos de hoje. O povo estadunidense está sentindo na pele, as conseqüências de decisões políticas erradas tomadas quando, descurando das projeções futuras de seus atos, cooptaram grupos fundamentalistas que agora escapam a qualquer controle, atuando, inclusive, à revelia de seus líderes históricos.

Como tem sido fartamente assinalado pelos meios de comunicação, a esses caudilhos religiosos foram obsequiadas farta provisão de armas e de recursos financeiros, além de conferir-lhes poder e presença junto à imprensa internacional e amamentá-los em seus projetos calcados na intolerância, na violência e na ira fundamentalista. Hoje, constituem-se em um perigo para todo o mundo e, não raro, têm ferido e causado a morte de milhares de pessoas inocentes que nada têm a ver com as causas que advogam e os seus conflitos.

A responsabilidade ética que implica numa ação de governo muito além de suas fronteiras, não pode ser produto de um jogo estratégico decidido em um conciliábulo de supostos peritos do Pentágono, que produzem mais danos do que bens ao país. Esta lição tem que ser aprendida de uma vez por todas. Não é a primeira vez em que este tipo de política tem se convertido em uma grave ameaça.

Independente do que se faça agora, porque o governo dos Estados Unidos deve continuar reagindo, com firmeza, toda vez que surgirem indícios de focos terroristas, dando uma resposta concreta a essas preocupações e temores.

É importante enfatizar que em nossas reflexões, jamais imaginemos a possibilidade de que este lamentável ato de horror ocorrido, simultaneamente, em Washington e New York, constituiu-se em episódio final nesta escalada de terror que assola a humanidade. Tenhamos plena convicção de que, após esta edição da segunda Guerra do Golfo, sempre haverá imaginação e criatividade suficientes - entre os extremistas e fundamentalistas islâmicos -, para açular mentes doentias e voltadas para o mal, no sentido de infligir sofrimento e terror ao gênero humano, calcadas em alegações e crenças de matizes variados, invocando razões políticas e religiosas.

Daí resulta a complexidade de dar respostas concretas ao que virtualmente escapa à realidade. Combate-se contra uma imagem e um inimigo invisível, encarnado por suas duas faces : a crença e o terror. Cada uma está satanizada pela outra e, imbricam-se de tal maneira, que formam um conjunto coeso e indissolúvel. Certamente que as grandes potências acudirão, sincrônicamente, em busca de acordos para deter esta terrível ameaça que, fora de seus controles, as afetará, cedo ou tarde, de algum modo. George W. Bush e Tony Blair, amadores neste assunto; Vladimir Putin, frio veterano em questões dessa natureza ; o presidente chinês e os líderes da União Européia saberão colocar as coisas em seu devido lugar porque, a qualquer momento, poderão ser alvo deste tresloucado fanatismo. Porém, a responsabilidade de buscar uma saída definitiva a este assunto corresponde a todos os governos do mundo porque, em realidade, somos todos co-partícipes neste mutirão anti-terrorismo em que deve engajar-se, com o devido empenho, a humanidade.




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MANUEL CAMBESES JR. © Copyright 2003

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