PREÇO DO PÓS-GUERRA AOS ESTADOS UNIDOS


Existe consenso entre analistas e estrategistas internacionais no sentido de diferenciar vitória militar de triunfo político. A primeira, é de natureza quantitativa e tecnológica e, no caso do conflito com o Iraque, foi indiscutivelmente alcançada com a retumbante vitória da coalizão anglo-americana. O caso da política é totalmente diferente, pois neste campo incidem fatores filosóficos, culturais e ideológicos que, se não forem administrados com prudência, podem originar efeitos não esperados e gerar sucessivos conflitos.

Autoridades americanas têm advertido que serão necessários pelo menos seis meses para transferir o controle do Iraque a um governo formado por nacionais iraquianos. Isto, sem contar o tempo necessário para a instalação de uma administração que possa exercer suas atividades, sem a proteção estrangeira.

É importante enfatizar que a intervenção militar dos EUA não estará concluída com o desarmamento do Iraque. Fica evidenciado que este procedimento se estenderá a outros países da região, na qual os americanos exigirão uma colaboração maior na luta contra grupos terroristas, bem como radicais modificações no curso do conflito entre israelenses e palestinos. Em suma, a região será profundamente transformada em poucos anos. Pode-se vaticinar que, a partir do território iraquiano ocupado, os EUA representarão o papel de ator principal no Oriente Médio, através da ativa participação de suas expressões políticas e militares.

Porém, uma empreitada desta magnitude será longa e custosa para a superpotência. Em termos militares, conseguir o controle absoluto de um país das proporções do Iraque em que, certamente, aparecerão os bolsões de resistência, será uma tarefa complexa. A possibilidade de que a cifra de civis mortos aumente, incrementará a onda de oposição e a falta de apoio da opinião pública mundial.

Em termos diplomáticos, o assunto não é menos complicado. As relações entre os EUA e a Europa encontram-se gravemente afetadas, e os americanos parecem não dispor da intenção de abrir à ONU o exercício de qualquer papel político na reconstrução do Iraque. Este parece ser o tema discordante entre Bush e Blair. Caso prevaleça a posição americana, a ONU lamentavelmente terminará como uma ONG encarregada de ações humanitárias, porém perderá o importante papel de ator político que, desde sua fundação, tem sido chamada a cumprir.

Como corolário desse preocupante cenário, certamente haverá uma profunda reorganização do sistema internacional causada pela guerra global ao terrorismo declarada pelos EUA. Isto afetará a todos os povos em todos os rincões do planeta, pois não se trata de um fato exclusivo a contemplar o Oriente Médio.

Este momento da História, em que o mapa geopolítico do Oriente Médio está sendo redesenhado, exige que a superpotência tenha a maturidade suficiente para administrar com parcimônia os efeitos de uma vitória militar e, também, do grande vazio político provocado pela derrocada de Saddam.

Oxalá esta guerra, que dividiu a opinião pública e tantos dissabores trouxe ao relacionamento internacional, além de imensos prejuízos materiais e perdas de vidas entre iraquianos e soldados da coalizão, não se transforme numa vitória de Pirro para os americanos.




*****************************

MANUEL CAMBESES JR. © Copyright 2003

<< índice - próxima página >>