OS
EUA E O EQUILÍBRIO DO PODER MUNDIAL
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos definiram as bases de sua
política externa. Estas se prolongaram durante várias décadas, evidenciando
serem surpreendentemente resistentes frente ao embate das inexoráveis mudanças
ocorridas no mundo.
Seus antecedentes se baseavam na vocação internacionalista e multilateralista
dos presidentes Woodrow Wilson e Frank Delano Roosevelt, com a criação da Liga
das Nações e da Organização das Nações Unidas.
Entretanto, foi durante a gestão do presidente Harry Truman que tomou forma uma
política externa autenticamente estruturada. Esta assentava-se sobre duas
vertentes: a primeira, embasada em termos de segurança e defesa nacionais e, a
segunda, voltada para a criação de um entretecido de instituições
internacionais sobre as quais puderam sustentar-se, e fazer prosperar os valores
e os interesses estadunidenses.
Como expressão da primeira dessas vertentes, tomaram forma a política de
contenção ao expansionismo soviético, a doutrina da dissuasão e as alianças
com a Europa Ocidental e o Japão. No que concerne à segunda, esboçou-se,
nesse momento da História, ou em fases posteriores, uma ampla gama de
organismos internacionais, tais como: BIRD, FMI, OCDE, OMC, etc.
A então política externa norte-americana enfrentou momentos críticos em duas
oportunidades: a crise do Vietnã, a partir de 1968, e o colapso do comunismo,
em 1989. A primeira, provocou a dissolução do consenso nacional estadunidense
com relação à atuação do governo na condução da desgastante guerra contra
o vietcongue. A partir desse momento, o conflito entre poderes foi a
característica primacial nessa matéria.
Não obstante, a contenção, a dissuasão e a política de alianças,
continuariam sendo uma trilogia incontestada. O colapso do comunismo acarretou,
como conseqüência natural, uma série de interrogantes fundamentais: A quem
conter? A quem dissuadir? Para que servem as alianças?
George Bush (pai) e Bill Clinton souberam alterar os conteúdos fundamentais que
embasavam esses preceitos, mantendo-os com vida e como essência de uma ordem
internacional estável. Passou-se a conter então, não somente ao comunismo,
mas a diversas formas de anarquia e agressão internacional. Destarte, passou-se
a dissuadir, com a portentosa superioridade militar norte-americana, a qualquer
país ou entidade que representasse uma ameaça para os Estados Unidos. Como
corolário desse enfoque, mantiveram-se e expandiram-se as alianças para
sustentar um sistema internacional harmônico.
Por seu lado, a segunda das grandes vertentes da política externa
estadunidense, e que enfatizava a necessidade de costurar acordos e promover um
entretecido de organizações internacionais, aptas para promover seus valores e
interesses, permaneceu incólume ao longo de todo esse período de sobressaltos.
Recentemente, o governo estadunidense redigiu um documento intitulado “A
Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos”, e que poderá ficar
registrado na História como um novo marco entre etapas das relações
internacionais. A nova doutrina militar, ali anunciada, justifica intervenções
e ataques preventivos contra Estados ou organizações armadas que ameacem seus
interesses nacionais e subordina os acordos e tratados multilaterais à decisão
unilateral dos Estados Unidos.
O documento tem o propósito imediato de justificar um eventual ataque ao
Iraque. Ademais, faz supor o fim da era da contenção e da dissuasão - que
imperou desde a última guerra mundial e durante o transcorrer da Guerra Fria -,
e a legitimização para uma busca aberta e explícita, em qualquer rincão do
planeta, sempre que a segurança internacional e a supremacia norte-americana
sentirem-se ameaçadas.
Essas postulações vão muito além do que a comunidade internacional espera
dos Estados Unidos, no sentido de liderar ações militares, frente a conflitos
graves e em cumprimento de ações concertadas e deliberadas pela Organização
das Nações Unidas.
Apesar de que o presidente George Bush tem, sistematicamente, advertido sobre a
irrelevância em que pode cair o Conselho de Segurança da ONU – caso não
acompanhe, automaticamente, a vontade e a ação dos EUA -, fica bastante claro
que é desse organismo, e não de Washington, a fonte de onde emana a
legitimidade de toda intervenção armada, seja com propósitos preventivos ou
ofensivos.
A nova doutrina estratégica, elaborada pela administração republicana,
outorga-lhe respostas a várias questões pendentes para os norte-americanos: a
definição nítida de ameaças, inimigos em potencial e cenários de conflito.
Em alguns casos, essas ameaças e conflitos são compartilhados por
significativa parcela da Humanidade, que defende, fundamentalmente, princípios
e valores associados com a modernidade, a democracia e a dignidade humana.
Entretanto, nas últimas décadas, as sociedades forjaram uma miríade de
instituições, princípios e regras na ordem internacional – baseadas em
experiências adquiridas em tragédias, guerras e genocídios – cujo
pressuposto fundamental é que nenhum Estado, nem o mais poderoso, arrogue a si
o direito de definir, isoladamente, quando, onde e contra quem atuar, em defesa
desses aludidos valores e princípios.
O presidente George Bush deciciu enterrar, peremptoriamente, a tríade:
contenção, dissuasão e alianças – surgida no governo Harry Truman -, em
função de uma nova doutrina que postula a incontestável preeminência militar
da superpotência e sua disposição em atuar preventiva e unilateralmente
contra qualquer ameaça real ou potencial que se vislumbre no mundo.
É importante enfatizar que a consagração do unilateralismo tende a dissociar
os Estados Unidos de todo compromisso multilateral que limite não somente sua
soberania, mas, também, sua hegemonia. O curioso neste atual cenário é que ao
consagrar a doutrina de ação preventiva, os estadunidenses não somente estão
carcomendo os alicerces que sustentam a sua tradicional política externa mas,
também, toda a ordem internacional, da qual sempre foram o principal e atuante
artífice e, conseqüentemente, o maior beneficiário.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003