O
PODER DO DINHEIRO VERSUS O PODER DO ESTADO
A partir dos anos sessenta e durante as décadas seguintes a corrida espacial
consumiu enormes quantidades de dinheiro. Com muita freqüência estes gastos
foram considerados suntuosos e injustificáveis em face dos problemas
decorrentes da miséria existente no mundo. Entretanto o esforço concentrado em
pesquisa e formação de cientistas que isto requereu, teve como produto, a
título de exemplo, o raio laser, o satélite artificial, o videocassete, o
grafite e tantos outros desenvolvimentos que serviram de base ao salto
tecnológico sem precedentes em que se apoia, na atualidade, a economia
globalizada.
As gigantescas transformações científicas e tecnológicos ocorridas,
sobretudo nestas últimas décadas, conseguiram conduzir a transmissão da
informação à velocidade da luz (300 mil quilômetros por segundo) ; à
"numerização" de textos, imagens e sons; ao recurso já generalizado
dos satélites de telecomunicações; à massificação da informática nos
setores produtivos e de serviços, à "miniaturização" dos
computadores e sua integração em escala planetária. Tudo isto unido ao
processo de desregulação econômica, que se iniciou durante a era
Reagan-Thatcher, conduziu a uma inusitada aceleração do sistema capitalista.
Enquanto a Guerra Fria se manteve de pé, esta aceleração capitalista se viu
limitada em termos de liberdade de ação, em virtude da supremacia do político
sobre o econômico. O mundo ainda girava sobre parâmetros definidos pelo terror
nuclear. O colapso do comunismo determinou o desaparecimento do último muro de
contenção que ainda permanecia frente à preeminência do econômico. A partir
deste momento a força incontida da aceleração capitalista passou a encurralar
os estados. Enquanto o capital privado havia se mantido "pari passu"
com os avanços da tecnologia, gerando inovações gerenciais que permitiam
tirar proveito aos investidores, as pesadas burocracias estatais permaneciam
inertes e mais próximas do século passado.
Impotente para dar resposta ao impulso telúrico que enfrentava, a maior parte
do mundo industrializado decidiu aceitar o modelo liberal do Estado imperante
nos países anglo-saxões. Os Estados industrializados se entrincheiraram após
o "laissez faire, laissez passer" liberal, abdicando de funções que
lhes eram tradicionais. Com isto renunciavam a uma confrontação que não
tinham como ganhar. E mais ainda, decidiram projetar sobre os quatro rincões do
mundo este modelo, transformando-o em paradigma dos novos tempos.
De acordo com a revista Veja (3 de abril de 1996) as reservas de capital privado
existentes no mundo, atualmente, são da ordem 10 trilhões de dólares. Frente
a esta impactante cifra pouco pode o dinheiro público disponível. Alguns
números evidenciam a magnitude desproporcional dos fundos privados. A revista
Fortune (15 de abril de 1996) assinala que o dinheiro investido na bolsa por
investidores norte-americanos, alcança aos 5.5 trilhões de dólares. Em 1995,
o volume de empréstimos internacionais, de médio e longo prazos, proveniente
do capital privado, chegou a 1.3 trilhão de dólares. Segundo a revista Maniere
de Voir, do Le Monde Diplomatique n° 28 (28 de novembro de 1995), as
transações diárias sobre o mercado de câmbio que eram de 210 bilhões de
dólares em 1986, passaram de 1 trilhão de dólares em 1994. A mesma revista
sustenta que as transações cotidianas nos diversos mercados de valores
alcançam aos três trilhões de dólares. No plano industrial, a outra faceta
do processo globalizador, encontramos que as dez maiores corporações do mundo
faturam anualmente 1,4 trilhão de dólares, o que eqüivaleria ao PIB combinado
do Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e Venezuela.
A desproporção entre as esferas do poder público e o privado a encontramos
bem ilustrada em alguns casos, como os seguintes: enquanto o Presidente Clinton
foi centro da atenção mundial ao abrir uma linha de crédito de vinte bilhões
de dólares para salvar o México, no início de 1995, o especulador Nick Leeson
estava mobilizando 27 bilhões de dólares sem que ninguém soubesse nem de sua
existência nem de suas atividades. Da mesma maneira, enquanto os grandes
estados do planeta, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Nacional
trabalhosamente reuniram 50 bilhões de dólares para ajudar o México, os três
maiores fundos de pensão norte-americanos – Fideleity Investiments, Vanguard
Group e Capital Research & Management – controlam sozinhos 500 bilhões de
US$.
Entretanto, o Estado não somente tem sofrido uma considerável perda de
hierarquia na área econômica. Também no campo jurídico e no político sua
perda de status é evidente. A nova linguagem do direito internacional se
assenta em noções como "soberanias limitadas", "tutelas
internacionais", "direitos de ingerência" e
"administrações supranacionais", na qual todos tem, como denominador
comum, o desconhecimento do Estado como ator essencial da vida internacional.
Na área política o poder que tradicionalmente detinha o Estado está tendendo
a fluir em duas direções distintas: para cima em direção aos organismos
supranacionais e coletivos tais como o Conselho de Segurança das Nações
Unidas ou a Organização Mundial do Comércio. Para baixo, em direção a
regiões cada vez mais autônomas, as quais se consideram mais representativas
da identidade étnica, tema em moda nos dias atuais. Regiões como a Córsega,
Escócia, Catalunha ou Quebec, vão ocupando de forma crescente espaços que
antes ocupava o Estado central.
O Estado, cada vez mais encurralado, em todos os sentidos, vê escapar-se seu
papel tradicional, ou seja, o de ser intérprete das aspirações sociais, do
sofrimento dos excluídos, do coletivo. O poder do dinheiro vai ocupando cada
vez mais espaço. É o triunfo inevitável do dinheiro sobre o Estado.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003