VARIAÇÕES
EM TORNO DO TEMA: “GLOBALIZAÇÃO”
O artigo enfoca a interpretação do autor sobre cinco aspectos contidos na
Globalização:
Globalização Perversa
O sociólogo francês Henri Mendras batizou o termo "contra-sociedade"
para referir-se a todos os integrantes de uma determinada sociedade que não
podem ou não querem seguir o ritmo e as exigências que esta impõe. Seu
expoente natural seria aquele indivíduo que, por impossibilidade ou simples
falta de desejo, não consegue adaptar-se à velocidade com que se move o seu
entorno social, transformando-se, conseqüentemente, em um verdadeiro pária
dentro da sociedade a que pertence. Ou seja, um deslocado, um desadaptado, um
ser verdadeiramente excluído.
Nos dias atuais, bem poderíamos falar de uma contra-sociedade mundial. A mesma
estaria composta por todos aqueles que não conseguiram assimilar o ritmo
evolutivo da sociedade globalizada. O número de desadaptados pode
contabilizar-se em dezenas de milhões. E mais ainda, dia-a-dia aumenta o
número de pessoas que, em todas as regiões do planeta, albergam o temor e a
angústia de sentirem-se excluidas das filas dos seres produtivos. São pessoas
comuns que vivem atormentadas e sob ameaça permanente da exclusão social.
Os números dessa contra-sociedade têm sido manejados com bastante
freqüência. Michel Rocard, ex-Primeiro Ministro francês, aponta os seguintes
dados: 30% da população ativa dos Estados Unidos, ou seja, quarenta milhões
de pessoas, vivem em situação de pobreza ou precariedade social, ao passo que
30% da população ativa nas três grandes regiões do mundo industrializado
pode qualificar-se como desocupada ou marginalizada (Le Monde, Bilan du Monde,
1997). Por sua parte, Jacques Chirac, Presidente da França, assinalava em
março de 1998, que os países que compõem a União Européia, contam com
dezoito milhões de desempregados e cinqüenta milhões de cidadãos sob a
ameaça de exclusão social. Os países integrantes da OCDE, o clube dos estados
mais ricos do planeta, contam hoje com trinta e cinco milhões de desempregados.
E o que dizer dos países em vias de desenvolvimento? A conjunção entre um
desenvolvimento técnico acelerado, sustentado na automação, associado à
ausência ou abandono generalizado das normas de proteção social, estão
fazendo aumentar, assustadoramente, os números de desempregados e de
subempregados. O Brasil, lamentavelmente, é um bom exemplo de país que tem
aumentado substancialmente sua competitividade e inserção na economia global
às custas de um notável incremento das filas de desempregados.
A lógica deste perverso processo é simples. Sob o impacto de uma competição
produtiva sem fronteiras e sem mesuras, em que a redução de custos
transformou-se em dogma, não há espaços para considerações sociais. Existe
a tendência, por essa via, a um nivelamento por baixo, na qual a mão-de-obra
mais barata, ou a substituição desta pela tecnologia, determinam a
sobrevivência dos produtos no mercado. A tecnologia e a redução de custos
laborais são os grandes dinamizadores do novo crescimento econômico. Como bem
assinala a revista Fortune, em sua edição de abril de 1998: "Os avanços
tecnológicos unidos aos implacáveis desempregos em massa, dispararam a
produtividade e elevaram, consideravelmente, os ganhos da indústria".
Frente a essa dura realidade, os países apresentam a tendência de
transformarem-se em um autêntico bazar persa, competindo entre si para fazer
maiores concessões ao grande capital, como via para captar inversões e
garantir o crescimento econômico. O resultado dessa postura é que se observa o
abandono do sentido do coletivo e do imprescindível papel do Estado em matéria
de arbitragem e de observância da regulamentação social. Que outra coisa
poderia fazer o Estado? Este se vê incapacitado para fazer frente ao volume e
à dinâmica dos capitais privados. Os três maiores fundos de pensão
estadunidenses, Fidelity Investments, Vanguard Group, Capital Research &
Managements controlam em torno de quinhentos bilhões de dólares. Impotente, o
Estado teve de adaptar-se às exigências do grande capital, sem poder evitar
que o homem se transforme, cada vez mais, no lobo do próprio homem.
A força emergente após o ocaso do Estado é, obviamente, o grande capital
privado transnacional. Este governa a economia globalizada, passando por cima de
fronteiras e atropelando governos, impondo leis à sua conveniência e
promovendo uma acirrada e desumana competição entre países, a serviço de
seus interesses. Prova inconteste disso, encontramos no acordo multilateral
sobre inversões que está sendo negociado na Organização Mundial de
Comércio, que submeteria as leis regulatórias dos países membros às
objeções internacionais, restringindo a capacidade dos Estados para ditar
políticas econômicas de interesse nacional. A pergunta a fazer, nesse caso, é
a seguinte: que lógica domina o grande capital transnacional? Esta se sintetiza
em uma consideração fundamental: a rentabilidade imediata. A necessidade de
dar resposta às exigências de curto prazo, de um gigantesco número de
acionistas anônimos, tem se transformado, efetivamente, na razão de ser
fundamental do processo econômico em curso. Dentro desse contexto, as grandes
corporações competem ferozmente entre si para captar as preferências dos
acionistas, livrando-se de tudo aquilo que possa significar um peso na busca por
maiores rendimentos.
Porém, quem é esse acionista anônimo que sustenta a engrenagem e dita as
regras da economia globalizada? Este não é outro, senão o homem comum: o
operário, o gerente médio, o funcionário público, o profissional liberal, a
dona-de-casa. Ou seja, o mesmo homem comum que vive atormentado pelo fantasma do
desemprego e com medo de vir a engrossar, com sua presença, as filas da grande
contra-sociedade dos dias atuais. Através de sua cotização e na busca de
máximo rendimento para as suas economias, investe em fundos de pensões mutuais
ou, através de pequenas inversões de capitais, nas Bolsas de Valores. Dessa
maneira, paradoxalmente, ele tem se transformado em atuante protagonista deste
perverso processo econômico que o atemoriza e o encurrala.
Segundo um curioso processo circular imposto por esta globalização perversa em
que vivemos na atualidade, o homem comum tem se transformado em seu próprio
inimigo, erigindo-se feroz e desapiedadamente frente a si mesmo.
Globalização Ingênua
A globalização é um novo fato no mundo. Não existe dúvida de que a
tecnologia, as comunicações e a economia conduzem a fazer do planeta uma
unidade mais entrelaçada, complexa e inter-relacionada. Também é um fato que
tal acontecimento tem efeitos em todas as áreas da vida social e,
sensivelmente, na economia.
É fora de dúvida que a globalização em si mesma é um progresso da qual
ninguém poderá escapar e um processo irreversível. Porém, ao aceitarmos esta
constatação, não se admite necessariamente que todas as suas conseqüências
devem projetar-se em uma só direção, a qual, até agora, parece beneficiar
basicamente a alguns países e prejudicar a outros.
Na globalização existem ganhadores e perdedores porque entre os países
desenvolvidos se está criando uma mentalidade, em muitos sentidos excludente, e
que não interpreta todos os fatores que entram no jogo. Tais fatos podem
produzir desequilíbrios internacionais capazes de conduzir o mundo a
dificuldades maiores do que as que se conheceram durante a Guerra Fria.
É uma tremenda ingenuidade pensar que o final da Guerra Fria abriu as
perspectivas de um paraíso para a humanidade. Pelo contrário, estão sendo
geradas intensas contradições que poderão multiplicar os conflitos no
alvorecer deste século e tornar mais difícil a vida para grande parte do
gênero humano.
Por esse motivo é necessário que os países em desenvolvimento tenham claras
as noções de interesse nacional. Em muitos casos pode haver tendência a uma
"globalização ingênua" e a um "internacionalismo –
irmão". Esta posição se alimenta na idéia de que existe uma espécie de
progresso linear que automaticamente produzirá benefícios pelo simples fato de
inscrever-se no "clube da globalização". Se esquece, desta maneira,
que neste clube existem membros de primeira classe, vários de segunda, muitos
da terceira e inúmeros outros na lista de espera.
A "globalização ingênua" pode conduzir-nos a erros fundamentais. O
primeiro deles é o de prescindir do interesse nacional e do papel que os
estados e os governos nacionais têm que assumir para defender os interesses dos
países que representam. É muito bom o diálogo, as negociações, as aberturas
de mercado e todos os demais benefícios que produz o desenvolvimento
tecnológico e comunicacional. Porém, dentro deste intricado jogo temos alguns
interesses a defender, uma posição a assumir e uma atitude a vigiar
constantemente.
Há alguns anos li um livro que me intrigou profundamente. Está escrito por um
homem sobejamente conhecido no cenário internacional, Kenichi Ohmae, cujo
título é: The End of the Nation State (New York, Free Press, 1995). É um
livro inteligente, porém seus delineamentos e conclusões poderiam nos levar a
admitir postulados que conduziriam ao prejuízo dos interesses dos povos e das
nações menos desenvolvidas. Os argumentos são muito bons para defender a
posição dos países poderosos, porém inconsistentes para assumir a tribuna
dos menos aquinhoados.
Um dos argumentos que agora costuma-se alardear é de que os estados são apenas
referências cartográficas dentro da estrutura política do planeta. Isto, em
termos técnicos e comunicacionais pode ser considerado correto. Porém, a
realidade humana é outra. Os estados estão formados por seres humanos que
deveriam estar representados e encarnados por eles, mas sabemos que, muitas
vezes, não é assim que as coisas ocorrem. Entretanto é importante enfatizar
essa dimensão histórica do Estado nacional: um elo entre as pessoas e a ordem
política.
Existe uma tecnocracia apátrida que voa sobre as fronteiras e possui fórmulas
sintéticas para todas as realidades nacionais. Grande parte da crise financeira
de hoje se deve a que as tecnocracias, particularmente aquelas que influem nas
instituições econômicas e financeiras internacionais, não possuem uma idéia
histórica das realidades que manejam. Administram fórmulas, abstrações e
jogam com os números e os deslocamentos financeiros sem ter em conta que a base
de toda essa circulação financeira internacional está apoiada em complexas
comunidades nacionais que têm seu direito a viver, suas expectativas ante o
mundo, uma cultura e uma história que defender e preservar e uma lógica
aspiração à dignidade e à reciprocidade.
Com a crise asiática ficou bem evidenciado que os mecanismos financeiros não
se auto-regulam, como ingenuamente alguns vinham pretendendo; que neles
intervém fatores psicológicos e políticos e que ao final das contas, os
árbitros não podem ser os interesses internacionais e sim os povos que elegem
os seus governantes.
Outro efeito da globalização ingenuamente aceito é o que supõe que o fato de
proclamar a "adesão ao clube" pressupõe, automaticamente, a
conquista do bem-estar. Para globalizar-se é necessário desenvolver certas
capacidades nacionais, a formação de recursos humanos, as infra-estruturas
básicas, a instantaneidade nas comunicações e todo um sistema cultural que
lhe apoie e proporcione sustentação aos efeitos da globalização.
Para criar competição e competência é imprescindível preparar as pessoas,
administrar inteligentemente a formação do capital humano e dar-lhe mística,
entusiasmo e estímulo para que entenda que a riqueza se apoia,
fundamentalmente, na capacidade das pessoas. Para ser competitivo é preciso ser
capaz e para atingir a capacidade é necessário preparar-se e assumir o
objetivo fundamental da educação, em bases totalmente distintas das que
prevalecem na atualidade.
Porém, também existem requisitos políticos para a globalização. O primeiro
de todos é que os governos têm que ser representativos da vontade da
sociedade. Isto supõe um controle efetivo por parte da opinião pública e do
eleitor, do que fazem os governos e um contrato social claramente definido para
que aqueles que aspiram a falar em nome das unidades nacionais que entram no
jogo global, possam ser, realmente, legítimos representantes dos povos.
A "globalização ingênua" esquece a maior parte destes componentes.
É necessária a privatização de alguns segmentos parasitários do setor
público, mas isto tem que estar orientado a que as iniciativas e os negócios
que se empreendam em nome dos países e das nações, beneficiem o interesse
geral e não determinados setores excludentes.
A conclusão é que a globalização sem a democracia não funcionará com
eficácia e para que haja bons governos tem que existir mecanismos de
responsabilidade política ante o eleitorado e ante o povo que esses governos
representam. Isto quer dizer que a liberdade e a amplitude dos mercados está
somente garantida pela liberdade e dignidade democrática dos povos.
Globalização, Educação e Direitos Humanos
Por motivo de estarmos próximos da celebração do qüinquagésimo quinto
aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos – que ocorrerá em
10 de dezembro do ano corrente - considero necessário que reflexionemos sobre a
situação destes direitos nas circunstâncias atuais. Evidentemente, o mundo de
hoje é muito diferente ao que existia há 55 anos, quando apenas se iniciava a
profunda revolução que conduziu a sociedade do conhecimento e da informação
ao mundo globalizado. Ante estas novas circunstâncias, os direitos humanos não
somente perderam sua vigência, mas se fazem mais evidentes porque muito embora
a globalização e seus suportes essenciais (as novas tecnologias, as empresas
transnacionais e os novos sistemas financeiros) têm sido benéficos em muitos
aspectos, também têm produzido graves danos como a expansão e agudização da
pobreza, a acentuação das diferenças entre ricos e pobres, o aumento do
desemprego e a vulnerabilidade do Estado e das pessoas ante os interesses das
empresas transnacionais e das entidades financeiras.
A liberdade, a igualdade e a dignidade, sem distinção alguma entre os seres
humanos, proclamados nos dois primeiros artigos da Declaração, continuam sendo
vitais, mas talvez agora como nunca se encontram ameaçados. A debilidade
crescente do Estado ante os interesses econômicos transnacionais, que não
possuem pátria nem consideração com os sofrimentos que possam ocasionar,
deixam ao desamparo impotentes e densos setores da população.
O Artigo 26 estabelece o direito à educação básica, a qual deve ser gratuita
e obrigatória. A educação técnica e profissional deve generalizar-se e a
educação superior deve assegurar a igualdade para todos em função dos
respectivos méritos. O que se persegue é o desenvolvimento integral da
personalidade, o respeito aos direitos humanos e as liberdades fundamentais, bem
como a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos
os grupos étnicos ou religiosos.
Sem uma educação suficiente e de qualidade, restringe-se acentuadamente o
direito a receber informações e opiniões e difundí-las sem limitação de
fronteiras e por qualquer meio de expressão (Art. 19). Torna-se impossível a
adequada satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais,
indispensáveis para a dignidade e o livre desenvolvimento da personalidade
(Art. 22); limita-se o direito ao trabalho em condições equitativas e
satisfatórias (Art. 23); corta-se o direito a participar na vida cultural, a
gozar das artes e a participar no progresso científico e nos benefícios que
dele resultem (Art. 27) e, em geral, faz-se difícil ou impossível desfrutar
dos direitos humanos e contribuir a que outros também o façam. Uma pessoa não
educada é totalmente incapaz de cumprir cabalmente com seus deveres e de
desfrutar plenamente de seus direitos. Uma limitação muito importante é a de
não saber como reclamar um direito, o qual, freqüentemente, conduz a impedir o
desfrute de outros direitos por parte de outras pessoas ou de toda uma
comunidade. Este é o caso da suspensão de serviços essenciais, como a saúde
ou a educação.
O direito à educação tem se estendido significativamente. Na maioria dos
países o acesso à educação básica é quase universal. O problema,
atualmente, não está no acesso à educação básica, senão na profunda
diferença na qualidade do ensino que recebem as classes privilegiadas social,
cultural e economicamente, da que recebem os setores menos favorecidos, os
quais, na generalidade dos países, constituem a maior parte da população. Em
nossa sociedade do conhecimento e da informação e num mundo globalizado, na
qual o que se busca é a excelência e a competitividade, os que não estejam
bem educados, os que não saibam pensar e educar-se permanentemente, os que não
saibam fazer uso da informação e adaptar-se às profundas e velozes
transformações que se produzem na ciência e na tecnologia, ficarão
marginalizados e irão incrementar a pobreza que constitui a endemia mais abjeta
no final deste século, quando, paradoxalmente, se estenderam os regimes
democráticos e se proclamaram, com mais força, os direitos humanos.
A generalização da educação técnica e profissional e o acesso à educação
superior, convertem-se em uma quimera para aqueles que não tiveram uma
educação pré-escolar e básica de qualidade. A igualdade dos estudos
superiores para todos, em função dos méritos respectivos, se distancia cada
vez mais para as maiorias empobrecidas da população. A gratuidade da
educação superior, que se preconiza em muitos países, é um mito para os
pobres e uma regalia para os ricos.
Todos estes aspectos, bem como os indiscutíveis benefícios que nos traz a
globalização e as novas tecnologias, não devem ser desconhecidos ou
subestimados por nossos dirigentes, nem tampouco pela população em geral. Daí
que o novo currículo de educação básica, em nosso país, tenha como um de
seus pilares fundamentais os valores. Em todas as matérias, em todas as
atividades escolares, a atenção deve estar centrada, fundamentalmente, em
valores. Não nos interessa somente ensinar e pensar logicamente, mas também
pensar e decidir eticamente.
O desafio é imenso. Faz-se necessário examinar detidamente o progressivo
debilitamento do Estado ante os embates do neoliberalismo que aproveita a
globalização para apresentar-se como um novo dogma de salvação. Se bem que o
Estado deve desprender-se de atividades que não lhe correspondem e que podem
ser realizadas, de melhor forma, pelo setor privado, também é necessário que
se fortaleça para assegurar o desfrute dos direitos fundamentais por toda a
população. A educação, a saúde e a segurança devem ser garantidas a todos
sem distinção de qualquer natureza. Ante o fracasso do comunismo e as
injustiças do neoliberalismo, faz-se necessário um novo pacto social que tenha
como objetivo precípuo o ser humano e promova uma nova organização do Estado
e dos organismos internacionais e que tornem realidade o desfrute dos direitos
humanos pondo, desta forma, um freio no apetite desmesurado de interesses
desprovidos de qualquer sentido humanitário.
Da velha à nova Globalização
O fenômeno da globalização econômica não é novo no mundo. De fato,
poder-se-ia dizer que este remonta há cinco séculos. Desde que a Europa
lançou-se à conquista das rotas de aprovisionamento da Ásia e da África, as
quais levaram o grande navegador português Vasco da Gama a dobrar o Cabo da Boa
Esperança e o genovês Cristóvão Colombo a descobrir acidentalmente a
América, já existia uma vocação globalizadora. Os espanhóis e portugueses,
pioneiros deste processo, viram-se prontamente alcançados e ultrapassados pelos
holandeses, ingleses e franceses. As Companhias das Indias, destes três
últimos países, transportavam as matérias-primas que vieram a dar sustento à
maquinaria do capitalismo. Com o objetivo de dinamizar o intercâmbio de
mercadorias e o comércio de capitais, criou-se, em 1694, a Bolsa de Londres,
transformando essa cidade na capital das finanças mundiais. Com a chegada do
Século XIX, a circulação de capitais e mercadorias de um lado a outro do
planeta alcança um desenvolvimento exponencial. Ao amparo da revolução da
produção, dos transportes e das comunicações, se fabricará e se comerciará
tendo em mente uma escala planetária.
Na Europa, a França e a Alemanha disputam a hegemonia com a Grã-Bretanha,
enquanto que os Estados Unidos, o Japão e a Rússia fazem sua aparição como
potências econômicas emergentes. A própria competição econômica foi uma
das razões que acendeu o estopim da I Guerra Mundial, em 1914. A partir desse
momento tudo se modificou. O cenário econômico mundial evidenciou uma
acentuada fragmentação que prolongou-se até o final da II Guerra Mundial, em
1945, projetando os seus efeitos até o final da década de 1960.
A denominada revolução Reagan-Tatcher inicia um processo de
desregulamentações, que irá complementar-se com o desaparecimento da Guerra
Fria e a inusitada aceleração da tecnologia. Desta maneira, o mundo volta a
integrar-se em escala planetária, reencontrando uma velha vocação que entrou
em crise a partir de 1914.
Não obstante, o mundo globalizado de hoje não é o mesmo que conheceu o
renomado economista Adam Smith. Nos dias atuais os países não praticam o
escambo, trocando, por exemplo, lã por vinho, mas imbricam-se em redes
produtoras planetárias, dentro das quais, um mesmo produto final leva
incorporado componentes elaborados nas mais diversas latitudes. Atualmente, é
difícil falar, por exemplo, da nacionalidade de um veículo, quando suas
diversificadas peças são fabricadas em dezenas de países. Hoje, a
informação transmite-se à velocidade da luz. Textos, imagens e sons são
transmitidos de forma instantânea. Autopistas virtuais integram computadores
miniaturizados, em escala mundial. Verifica-se, ainda, que os fretes e
transportes diminuiram, radicalmente, os seus custos. O resultado de tudo isso
é uma economia mundial homogeneizada e unificada em seus mínimos detalhes.
Na economia globalizada dos dias atuais, apresentam-se dois fenômenos bastante
freqüentes que os contemporâneos de Adam Smith jamais poderiam imaginar: a
possibilidade de crises súbitas e devastadoras em algum país ou determinada
região, e a amplificação destas em escala planetária, por via de um
inexorável "efeito dominó". Estes cataclismos de epicentro
localizado soem irradiar suas ondas expansivas, com relativa freqüência, aos
quatro cantos do planeta, em virtude da interpenetração da economia, em nível
mundial. Não é em vão que o megainvestidor George Soros pronunciou uma frase
lapidar capaz de eriçar os pelos do mais frio analista: "Se pessoas como
eu podem fazer cair governos, é porque existe algo dentro do sistema global que
não funciona bem".
Esta tem sido, lamentavelmente, a lógica da globalização, neste momento
histórico que a humanidade atravessa.
Globalização:um mundo em transição
A palavra globalização tem sido utilizada para designar um amplo processo de
transformação tecnológica, institucional e de direção que está ocorrendo,
em nosso entender, não somente na esfera econômica, mas também política,
social e cultural da humanidade.
Este fenômeno é próprio da evolução do sistema capitalista pós-industrial,
devido às incríveis transformações tecnológicas e, também, às mudanças
na tecnologia de transferência de dados e da informação. As comunicações
tem ocorrido de forma instantânea. Surgem novos e atraentes temas na arena
internacional: ambiente, comércio de serviços, propriedade intelectual, etc.
Este processo é tão complexo que conceitos como soberania, nação, Estado,
empresas multinacionais, organizações não governamentais, ecologia, estão
sofrendo crises de conceituação em seus alicerces, porque, na realidade,
estamos assistindo a uma etapa completamente diferente do processo evolutivo da
humanidade.
Faz-se mister ressaltar que esse não é o primeiro sistema global, do ponto de
vista econômico, já que no século XIX, com as inovações tecnológicas e
institucionais, a melhoria dos meios de transporte marítimo e ferroviário
permitiram expandir os espaços globais, naquela época.
Hoje, encontramo-nos diante de uma nova situação e a compreensão deste
fenômeno implica, em primeiro lugar, entender as transformações
científico-tecnológicas; em segundo, as mudanças ocorridas na forma de
transação de bens num mundo altamente informatizado e, por último, o papel
cada vez mais determinante do setor serviços no conjunto da economia mundial.
A globalização não é somente um fenômeno que diz respeito à área
econômica pois tem implicações diretas no segmento político das nações.
Ninguém nega a expansão da democracia após a queda do sistema político
comunista, na qual se aprofundou e aperfeiçoou o sistema democrático como
forma de governo nos países em que este regime já estava estabelecido.
A globalização poderá tender a criar um sistema mais estável e simétrico no
relacionamento entre os países. Isto dependerá, fundamentalmente, do papel que
os diplomatas e políticos desempenharão num desafio histórico e intelectual
de imaginação e construção, neste alvorecer de século e de milênio.
Por isto, finalmente, saber aproveitar as oportunidades e os riscos da
globalização, em nosso país, deve ser nosso objetivo e implica num grande
sentido do realismo. Isto necessitará lucidez intelectual em captar os novos
tempos para poder edificar, em torno deste processo globalizador, um mundo mais
estável e com Justiça Social.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003