O
ESTADO: APRECIAÇÃO SOB QUATRO ENFOQUES
O artigo reúne quatro comentários do autor sobre o Estado, cujo conceito
parece atravessar uma fase de ajustamento no mundo que emergiu do fim da Guerra
Fria.
O ESTADO, UMA ENTIDADE IMPRESCINDÍVEL
O Estado moderno como conceito e como ordenamento político institucional
começa a desenvolver-se na Europa, a partir do Século XIII. A sua
característica principal é a busca da centralização do poder em uma
instância que abarque as relações políticas fundamentais. Entre os Séculos
XVI e XVIII a noção do Estado assentou-se em uma concepção mercantilista de
economia, que buscava aumentar o poder dos Estados às expensas dos demais
Estados rivais. Não foi sem razão que essa doutrina econômica resultou
paralela ao surgimento e auge do absolutismo.
Ao final do Século XVIII, tanto o mercantilismo como o absolutismo entraram em
crise. A convergência da economia de mercado na área econômica e do estado de
direito no campo político, gerou as bases de uma nova ordem. A chamada ordem
liberal a qual buscava traçar limites precisos ao Estado, locando barreiras ao
exercício de seu poder. Não obstante, longe de iniciar-se nesse momento o
declínio do Estado, o mesmo vai adquirir novos ares com a aparição do
fenômeno nacionalista. De acordo com ele, a lealdade fundamental do cidadão
deveria ser dirigida ao Estado-Nação.
O período compreendido entre o final do Século XVIII e início do Século XIX
é conhecido com a Era das Revoluções. Durante esse espaço de tempo,
ocorreram a Revolução Americana, a Revolução Francesa e a Guerra da
Independência hispano-americana. Todas elas se assentaram sobre a idéia do
Estado-Nação como conceito superior. A tese da soberania popular, originária
de Rousseau, provê as bases para a consolidação deste novo conceito de
Estado. Ao longo do Século XIX o poder deste se fortaleceu na Europa,
cavalgando sobre a idéia do nacionalismo. Surgiram nesse momento novos Estados
centralizados, como Alemanha e Itália.
O Século XX levou o Estado a limites nunca vistos anteriormente. Nele se
produziu a estadolatria dos totalitarismos fascistas e comunistas. Terminada a
Segunda Guerra Mundial, por sua parte, o Estado-Nação identificou-se com o
processo de descolonização na Ásia e na África, expandindo o seu âmbito a
nível planetário. O período compreendido a partir da Segunda Guerra
caracterizou-se pela contraposição de dois superestados e de seus respectivos
aparatos e sistemas de alianças.
Entretanto, ao iniciar a década final do Século XX, um autêntico cataclisma
fez sacudir em seus alicerces a noção de Estado, conduzindo-o a uma intensa
crise histórica. As ameaças que hoje recaem sobre este antigo e familiar
conceito são tão grandes quanto variados. Nos aspectos jurídico, político e
econômico, a sobrevivência do Estado como instituição fundamental está
seriamente comprometida. Isto foi o resultado inevitável do colapso do
comunismo, que trouxe consigo a implantação de todo um conjunto de paradigmas
emergentes.
A nova linguagem do Direito Internacional se assenta em noções como soberanias
limitadas, tutelas internacionais, direito de ingerência e administrações
supranacionais, todas as quais têm como denominador comum o desconhecimento do
Estado como ator essencial da vida internacional. No campo político, o poder
que tradicionalmente deteve o Estado está tendendo a fluir em distintas
direções. Para cima, em direção aos organismos supranacionais e coletivos,
tais como o Conselho de Segurança da ONU, a União Européia e a Organização
Mundial de Comércio. Para os lados, para Organizações não Governamentais
enraizadas com a sociedade civil que emergem ao interior dos próprios Estados.
Para baixo, em direção a regiões cada vez mais autônomas, as quais se
consideram representativas de identidades étnicas e culturais. Entre os dois
últimos segmentos e o primeiro tendem a estabelecer-se relações cada vez mais
diretas que obstam o Estado central. O Estado, dessa maneira, vai perdendo o seu
caráter de articulador fundamental da vida nacional e de interlocutor natural
em matéria internacional.
Entretanto, é no campo econômico onde as ameaças contra o Estado
apresentam-se maiores. A queda do Muro de Berlim trouxe consigo a preeminência
do econômico sobre o político e, também, do âmbito do privado sobre o
público. Por sua vez, o processo de desregulação, que tem evidenciado a
economia nestes últimos anos, acompanhado de um gigantesco salto tecnológico,
tem proporcionado uma extraordinária vitalidade ao fenômeno econômico,
permitindo acumulações de capital nunca antes imaginadas. Acuado frente aos
mercados financeiros, aos megaconglomerados da comunicação social e a fusão
das grandes corporações transnacionais, o Estado apresenta-se cada vez mais
impotente.
Destruir o Estado significa, entretanto, sufocar as reivindicações dos povos,
deixar sem intérprete o sofrimento dos excluídos, perder o sentido do coletivo
e renunciar a mobilizar as forças espirituais dos cidadãos em função de um
ideal superior. Destruir o Estado é retirar do jogo a única instituição que
foi capaz, na década de 1930 e no pós-guerra, de sustentar a economia e de
reverter suas grandes crises. Hoje, quando o frenesi dos mercados ameaça
condenar à pobreza centenas de milhões de seres humanos, torna-se mais
necessário do que nunca contar com essa instituição ancestral, indispensável
e insubstituível: o Estado.
ESTADO E MODERNIDADE
Em 1802, o filósofo alemão, Hegel, escreveu um dos livros mais importantes do
século XIX: a Constituição Alemã. Nele, fazia um chamado à formação de um
Estado unitário alemão como requisito indispensável para que os germânicos
adentrassem nos tempos modernos. Naquela época, entretanto, a Alemanha se
achava dividida em reinos, principados, ducados, territórios eclesiásticos e
entidades autônomas dos mais variados matizes. Dentro dela, Áustria e Prússia
não somente haviam se convertido em duas forças dominantes assim como eram os
únicos territórios que encarnavam verdadeiros Estados no sentido moderno.
Em sua obra, Hegel fazia referência ao princípio de organização feudal que
prevalecia na Alemanha e que reconhecia e garantia, a cada um de seus
integrantes, o direito de livre-arbítrio. Tratava-se, efetivamente, de um
direito definido por todos e assentado na chamada liberdade alemã.
Para Hegel esta liberdade que servia de base à desunião, não passava de um
anacronismo que mantinha a Alemanha de costas para a História. Isto submetia os
alemães a uma manifesta condição de atraso frente aos grandes Estados
nacionais da Europa, como França e Inglaterra.
Hegel formulava um vigoroso chamado à conformação de um verdadeiro Estado
alemão. Tiveram que passar várias décadas, entretanto, para que isso se
transformasse em realidade. Foi em 1871 que essa aspiração unitária se
consolidou, com a criação do moderno Estado germânico.
Também na Itália começou, a partir de 1815, um movimento a favor da
unificação do país, ao qual, semelhante à Alemanha, se encontrava dividida
em múltiplos reinos, principados e ducados, bem como em um Estado papal. Este
movimento que ficou conhecido como o Ressurgimento, teve como seu maior expoente
intelectual o célebre Mazzini. Este, diferentemente de Hegel, que escrevia suas
obras em um alemão comum a todos os alemães, utilizou o idioma francês para
escrever o seu trabalho literário. A razão disso é que havia tantos dialetos
e variações do idioma italiano, que não existia uma linguagem que fosse comum
a todos.
Após longos anos de conspirações e combates, o novo Estado italiano pode
tornar-se realidade, em 1861. Dessa maneira, os italianos conseguiram emergir da
Idade Média para adentrarem-se nas filas da modernidade. Foi a partir da
conformação desse Estado unitário que pôde surgir, também, uma outra nova
criação: uma linguagem comum a todos os italianos.
Quando homens talentosos como Hegel, Bismarck, Mazzini ou Garibaldi lutaram pela
conformação de Estados unitários, estavam convencidos de que a força da
História os acompanhava. Estavam convictos de que ao banir as divisões
territoriais e autônomas, herdadas da Idade Média, ingressariam nos novos
tempos e se adaptariam às exigências do futuro. Poderiam eles imaginar que, ao
finalizar o Século XX, a modernidade se identificaria com os fracionamentos, as
divisões territoriais, as autonomias desatadas e a proliferação de diversas
linguagens no interior de vários Estados?
Faz-se mister ressaltar que esse processo não é novo. Como exemplo pode-se
citar a Espanha que, na década de 1930 enveredou por estes caminhos, sob o
rótulo de modernidade. Em 1931, uma das inteligências mais brilhantes desse
país, em todos os tempos, José Ortega y Gasset, propugnava, nas cortes
constitucionais, a necessidade de dar rédeas soltas às autonomias regionais.
Não obstante, foi com o colapso do comunismo que esse processo recuperou toda
sua força. De fato, bem poderia afirmar-se que o Muro de Berlim não somente
representava a última muralha de contenção do pensamento político frente ao
avanço do setor econômico, bem como do ideológico face ao avanço do
cultural.
Com a queda do Muro de Berlim, a economia passou a ocupar espaços de
preeminência que antes eram reservados ao setor político. Porém, ao mesmo
tempo, com o desaparecimento das barreiras ideológicas, o fenômeno cultural
pôde atingir plena força e vigor.
Durante muito tempo as identidades, sinônimo do cultural, estiveram reprimidas
em função das imposições ideológicas. Com a fratura das ideologias, o
surgimento do cultural ocorreu de forma inevitável. Dele nos fala Samuel P.
Huntington em sua famosa obra : The Clash of Civilizations and the Remaking of
World Order.
Segundo suas palavras, no mundo do pós-Guerra Fria as distinções mais
importantes entre os povos não são ideológicas, políticas ou econômicas.
São culturais. Os povos e as nações estão tentando responder à pergunta
mais elementar que os seres humanos podem formular: quem somos ? Os povos estão
definindo-se a si próprios em termos de religião, linguagem, história,
valores, costumes e instituições. Eles se identificam com grupos culturais:
tribos, grupos étnicos, comunidades religiosas, nações... Os povos estão
utilizando a política , não somente para promover seus interesses, como
também para definir suas identidades.
Diante desse novo cenário, a marcha dos tempos aponta em direção aos
particularismos culturais. Cada município, cada cidade, cada região, busca
encontrar sinais definitórios de seu próprio ser. Reivindicar tradições
locais ou regionais, dialetos, costumes específicos, está em moda no mundo
atual. Inevitavelmente isto somente é possível às custas do poder e do
sentido unitário dos Estados centrais. O poder que, até pouco tempo, eles
detinham flui agora em duas direções distintas: para cima em direção aos
organismos supranacionais e coletivos; para baixo, em direção a regiões cada
vez mais autônomas as quais se consideram mais representativas de uma
identidade étnica ou grupal. Sob essa ótica, o governo inglês decidiu tomar a
iniciativa, recentemente, de reformar as bases constitucionais da Nação,
devolvendo, à Escócia e ao País de Gales, autonomias perdidas há séculos. O
curioso deste processo é que o próprio Estado central se transformou em
artífice de seu debilitamento, assumindo, frente a tais regiões, a venda da
idéia autonomista. Se bem que no caso da Escócia o estado de ânimo
prevalecente favorecia a esse processo, em Gales foi necessário que o governo
central pusesse todo o seu poder de convicção frente aos reticentes eleitores
locais.
Diante desta curiosa realidade, que diriam Hegel ou Mazzini dessa volta aos
ideais da Idade Média?
ESTADOS E ETNIAS
Na nova realidade internacional que emergiu após o colapso do comunismo, o
fenômeno étnico ocupa um lugar relevante. De fato, a ele corresponde uma cota
de responsabilidade muito importante na crise que hoje vive o Estado. Muito
antes que começassem a aparecer os sintomas da enfermidade que consumia o
Império Soviético, diversos Estados encontravam-se desgarrados por conflitos
étnicos. Entretanto, o desmembramento comunista iniciado a partir de 1989,
desatou uma efervescência do sentido étnico que conduziu ao questionamento de
inumeráveis fronteiras estatais em vários locais do mundo. Numerosos grupos
étnicos reclamam, na atualidade, seu direito a uma existência independente dos
Estados aos quais formaram parte durante longo tempo. Contudo, observa-se que os
massacres proliferam entre etnias obrigadas a conviver sob um mesmo teto
estatal.
O exemplo dado pela reunificação alemã, seguida pelo esfacelamento da União
Soviética, colocou em marcha um furacão político de grandes proporções.
Ademais, o fato de que, após o final da Guerra Fria, proclamou-se a
preeminência dos organismos supranacionais e coletivos como fundamento da nova
ordem mundial, muito colaborou para o florescimento dos sentimentos de origem
étnica. Isso estimulou a muitos grupos étnicos a propugnar por uma existência
independente, sem contar com o poder aglutinador e protetor de um Estado
consolidado. Prevaleceu a impressão de que qualquer mini-Estado, que emergisse
no cenário internacional, poderia encontrar viabilidade econômica
integrando-se a um mercado comum e viabilidade política graças ao
guarda-chuvas protetor dos mecanismos de segurança coletivos.
Os Estados assentados em uma identidade nacional sólida, ficaram imunes à
força dos ventos originados pela queda do Muro de Berlim. Não obstante, para
aqueles que possuíam uma pluralidade de identidades étnicas, compartindo um
mesmo espaço estatal, os problemas não pararam de crescer.
A Iugoslávia foi a primeira a sofrer o impacto dos novos tempos. Isto porque se
tratava de um estado integrado pelos despojos de dois grandes impérios
(Austro-Húngaro e Turco) cuja diversidade étnica a convertia em um
laboratório ideal para sofrer os rigores da nova realidade. Somente na Bósnia
morreram duzentas e cinqüenta mil pessoas. A Rússia sofreu na própria carne
os custos de desmembramento que a URSS lhe proporcionou. Na Chechênia, trinta
mil mortos são o balanço dos intentos de Moscou para evitar a secessão. Na
antiga União Soviética, os enfretamentos da origem étnica fizeram-se sentir
na Moldávia, Geórgia, Azerbaijão, Armênia e Tadjiquistão. No Afeganistão,
a retirada dos soviéticos deixou quatro grupos étnicos enfrentando-se entre si
e sustentados por países vizinhos. Um pouco mais a Oeste, na Turquia, o embate
armado da população de origem curda prossegue de forma sangrenta.
Os Estados criados pela mão do colonialismo, que traçava fronteiras com total
desconhecimento dos grupos étnicos subjacentes, tornaram-se particularmente
vulneráveis à força desestabilizadora deste fenômeno. A África e o mundo
árabe são testemunhas altamente ilustrativas neste sentido. Curiosamente, com
exceção do problema curdo no Iraque, o cenário árabe encontra-se à margem
da crise dos etnicismos desatados. A razão disso, seguramente, pode
encontrar-se na resposta internacional contra o Iraque após o desconhecimento
das fronteiras kuwaitianas, por parte de Saddan Hussein. O problema ali é
outro: o fundamentalismo, o qual tem em comum com o fenômeno étnico a busca de
uma parcela própria do universo, que permita viver de acordo com as raízes
islâmicas. Na África, ao contrário, os problemas étnicos tem proliferado
livremente.
Ruanda e Borundi constituem casos extremos do potencial de violência que leva
consigo o tema étnico. Entre 1993 e final de 1995, mais de 100 mil pessoas
morreram no Borundi como resultado dos massacres gerados pelo ódio étnico. Em
Ruanda, oitocentas mil pessoas feneceram depois do assassinato do presidente da
República, em abril de 1994. Em ambos os casos, os enfrentamentos entre os
grupos Tutsi e Hutu, comuns a ambos os países, têm sido a causa das matanças.
Já se fala do desaparecimento das fronteiras artificiais de ambos Estados, para
criar uma Tutsilândia e uma Hutulândia que permitam a integração destas
etnias em dois Estados homogêneos. Na Libéria, uma sangrenta guerra civil
enfrenta diversas facções que assentam-se em grupamentos étnicos definidos.
Verifica-se que no continente africano a identidade étnica transformou-se em
fonte de constante ameaça para a subsistência dos Estados herdados da era
colonial.
Poderíamos continuar enumerando exemplos de guerras civis e massacres no
Hemisfério Sul, porém ocorre que também no Hemisfério Norte a sobrevivência
de vários Estados encontra-se comprometida, como resultado desse mesmo
fenômeno. Canadá e Bélgica são dois exemplos particularmente
representativos. No primeiro deles, a secessão de Quebec constitui-se em fonte
de permanente preocupação para os canadenses. Na Bélgica, coração da Europa
unitária, a ancestral rivalidade entre walones e flamengos projeta-se como uma
espada de Dâmocles à subsistência deste rico Estado.
A esse curioso cenário poderemos acrescentar a problemática do fenômeno
autonomista que envolve gauleses, escoceses, bretões, corsos, catalães,
bascos, etc.
A CRISE DO ESTADO
O Século XIX viu o surgimento dos últimos grandes Estados. Nesse Século não
somente Alemanha e Itália fizeram seus aparecimentos no cenário mundial, mas,
também, os Estados Unidos puderam realizar seu destino manifesto,
transformando-se em um grande Estado continental. O Século XX, entretanto,
conseguiu evidenciar as máximas expressões de estadolatria - com o
aparecimento do fascismo e do comunismo - e, também, de importantes Estados
surgidos do desmembramento dos impérios coloniais. Acrescente-se que, durante
os cinqüenta anos que durou a Guerra Fria, o mundo girou em torno de um sistema
de relações interestatais centrado em dois grandes Estados. A última década
desse século, entretanto, transformou-se na era do ocaso dos Estados.
Em nenhum momento da evolução histórica da humanidade os Estados
encontraram-se em tal condição de desprestígio. O novo Direito Internacional
aponta para concepções tais como: o direito de ingerência, tutelas
supranacionais, direitos humanitários e soberanias limitadas; todos os quais
coincidem no desconhecimento da primazia estatal dentro da ordem internacional.
Por outro lado, o fenômeno da globalização vai carcomendo implacavelmente as
funções dos Estados e as identidades sobre as quais estes se assentam, ao
mesmo tempo em que o fenômeno étnico e os fundamentalismos vão escavando suas
bases de sustentação.
Observa-se que o poder que anteriormente os Estados detinham, atualmente tende a
fluir em três direções distintas: para cima, orientado aos organismos
supranacionais e coletivos; para os lados, em direção às organizações não
governamentais e, finalmente, para baixo, dirigido a regiões cada vez mais
autônomas.
Particularmente chamativo é o duplo processo de desmontagem que se opera sobre
o Estado, desde as instâncias da globalização e do fundamentalismo. Sob o
influxo da globalização os Estados vão se desfazendo de boa parte das
funções que os caracterizavam, adentrando em processos de privatização e
abandono de serviços públicos. Cada vez menos os Estados se distinguem das
corporações privadas e cada vez mais vão se regendo pelas mesmas normas de
competitividade. Os cidadãos, crescentemente desassistidos e ansiosos, observam
como, ao seu redor, tudo passa a reger-se pelas exigências e pela ética do
capital privado. A inevitável erosão da lealdade do cidadão para com o Estado
vê-se reforçada com o desgaste da identidade nacional que a globalização
traz em seu bojo. É o resultado inevitável da homogeneização planetária. De
alguma maneira, o fenômeno globalizador vai pressionando, de cima para baixo, o
Estado, através de uma intensa ação asfixiante. A única resistência capaz
de interpor-se a essa ação devastadora e implacável é representada pelos
núcleos de identidades subsistentes; ou seja, os fundamentalismos e os
etnicismos desatados, que conspiram sistematicamente contra os Estados,
destruindo seus alicerces
Paradoxalmente, a crise do Estado tem vindo acompanhada do surgimento
indiscriminado de novos Estados. Somente do desmembramento da União Soviética,
da Iugoslávia e da Tchecoslováquia, surgiram vinte e dois Estados
independentes. Porém, não foi somente no velho bloco socialista que se
produziu esse fenômeno. Países centrais dentro do mundo ocidental, como
Canadá e Bélgica, confrontam a mesma ameaça. O porquê desse fenômeno está
intimamente ligado à própria crise do Estado. Quatro elementos centrais
explicariam o processo em marcha. Em primeiro lugar, os núcleos radicais de
identidade que buscam conformar Estados que atenda às suas particulares
características. Em segundo lugar, a possibilidade de encontrar, a nível
planetário, os elementos de complementariedade e integração que davam sentido
ao Estado. Em outras palavras, na medida em que os Estados se integraram, a
nível global, e deixaram de ser unidades de auto-sustentação, torna-se
possível que suas regiões componentes possam aspirar a uma existência
independente. Em terceiro lugar, o próprio fato de que o êxito na economia
global não é determinado pela quantidade de recursos naturais mas, pela
qualidade de seus recursos humanos. Os segmentos e regiões mais avançados do
interior dos Estados começam a ver, como uma carga desnecessária os
territórios e porções sociais mais atrasados, buscando desvencilhar-se deles.
Em quarto lugar, sob a proteção dos organismos de segurança coletiva e do
novo Direito Internacional, já é possível a subsistência de Estados débeis,
tornando-se desnecessário o escudo protetor dos Estados mais fortes.
Em síntese, hodiernamente, a crise que o Estado enfrenta é a própria fonte de
sua proliferação. Ou seja, na atualidade, os Estados ampliam-se em quantidade,
porém significam cada vez menos em termos de soberania e autodeterminação.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003