O EFEITO DOMINÓ


A queda do sistema de segurança internacional vigente desde a primeira Conferência de São Francisco, em 1945, quando ficou estabelecida a Carta da ONU, é um dos efeitos da decisão dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido de invadir o Iraque, rompendo o sistema multilateral representado pela ONU. Ao que tudo indica, esta derrubada já ameaça, pelo efeito dominó, outras nações.

O conceito de ''guerra preventiva'', cunhado por George Bush, deixa expostos à agressão todos os países do mundo e nenhum deles está isento de ser intimidado ou mesmo atropelado, já que se justifica o ataque pela simples presunção de periculosidade de um determinado Estado.

Aqueles países que não condenaram a agressão ao Iraque, imaginando que isto não lhes incumbia, podem encontrar-se na mira dos desígnios imperiais, estimulados pelo portentoso arsenal que possuem e pela fácil vitória que obtiveram ante a nação iraquiana.

Tendo em vista que, até o presente momento, não foram detectadas armas de destruição em massa no Iraque, os EUA, agora, optaram pelo subterfúgio de culpar a Síria, pelo atrevimento de ter protestado pelos aspectos brutais da guerra. Isto, certamente, contribuiu para açular a ira dos falcões americanos, que resolveram voltar as baterias para os sírios.

Lamentavelmente, a política internacional está descambando para o não cumprimento dos acordos e leis consensuadas entre os países e por viscerais reações dos governantes, a exemplo do que ocorria na Idade Média. Logicamente, as ameaças dirigem-se a países militarmente débeis, incapazes de resistir a um ataque do Exército mais poderoso do mundo.

A Síria, sistematicamente, tem sido acusada de possuir armas químicas. Como elas não foram encontradas no Iraque, os americanos presumem que devem estar estocadas naquele país árabe, também governado pelo partido Baath. E, seguramente, se tais armas não forem encontradas em território sírio, seria aceitável supor que estivessem escondidas em outro país, cujo governo não fosse do agrado dos EUA.

A Casa Branca não conseguiu comprovar que a invasão ao território iraquiano era justificada, e no lugar de reconhecer o erro, se lança contra os que apontam o erro de sua malfadada decisão. O rancor contra a França não foi amainado. O governo francês não deve fingir que as ofensas de que foi alvo foi esquecida. Pelo contrário, este país poderia encabeçar uma mobilização da comunidade internacional, para deter os ímpetos bélicos dos americanos. Desta forma, a França poderá converter-se em um farol de esperança para uma humanidade afetada pelas ambições e falta de visão prospectiva dos mandatários estadunidenses.

A ONU deve ser reativada em toda a sua plenitude. As chamadas para convocar uma Assembléia Geral têm de ser atendidas por Kofi Annan, e a calamitosa situação internacional deve ser enfrentada com decisão e destemor.

Estes são momentos que demandam valor e empenho da comunidade internacional. Deve-se recordar que no isolamento repousa a vulnerabilidade. Cada país agindo isoladamente poderá ser desconsiderado; porém, com uma mesma voz produzida, em uníssono, em todos os rincões do planeta, exigindo respeito ao direito internacional, se produzirá um mutirão que estará em condições de ser ouvido atentamente pela superpotência.




*****************************

MANUEL CAMBESES JR. © Copyright 2003

<< índice - próxima página >>