O
DILEMA NIPÔNICO
Se algo caracterizou o Japão, ao longo de sua história, foi a incrível
capacidade para alterar, radicalmente, seu projeto nacional toda vez que as
circunstâncias assim o exigiram. No início do Século XVII, ante uma
penetração ocidental que ameaçava alterar as bases de sua sociedade, o país
decidiu cerrar-se a qualquer contato com o exterior. Assim, por mais de duzentos
anos, o Japão manteve-se dentro de uma absoluta autarquia, dentro de uma
estrutura feudal estratificada. Foi o denominado período Tokugawa.
Durante a segunda metade do Século XIX, as pressões por transformações
dentro da estrutura social do país apresentavam-se demasiadamente poderosas. Os
burocratas da baixa aristocracia e os mercadores, cada qual em função de suas
próprias razões, uniram-se na idéia de modernizar aceleradamente o país.
Esta era a única forma de evitar que o Japão passasse pelos mesmos problemas
que a China enfrentava. Somente faltava o elemento detonador que permitisse
materializar as pretendidas mudanças. A presença de uma esquadra
norte-americana, sob o comando do Comodoro Perry, em 1858, exigindo a abertura
dos portos japoneses ao comércio com o Ocidente, foi a chispa que desencadeou a
revolução. Cinco anos mais tarde iniciava-se a era Meiji.
No transcorrer do período Meiji o país adentrou na mais rápida e notável
transformação de suas instituições e valores culturais que a História tenha
presenciado. Sob o aforismo "Abandonar a Ásia e adentrar no
Ocidente", o Japão embrenhou-se com determinação na tarefa de construir,
partindo do nada, uma economia moderna: bancos, fábricas, estaleiros,
siderúrgicas, indústrias têxteis, ferrovias, telégrafos, estradas, escolas,
etc. A obsessão pelo progresso, sob os parâmetros ocidentais, permitiu que no
início do Século XX, o Japão ingressasse no seleto clube das grandes
potências mundiais. Isto, inevitavelmente, teria que conduzir a uma
confrontação com o Ocidente pelo controle das esferas de influência no este
asiático. Em 1939, iniciou-se a cruenta medição de forças.
Após a traumática derrota de 1945, o Japão reformulou novamente seu projeto
nacional, de maneira dramática, mantendo sua orientação pró-Ocidente, porém
assumindo um papel subsidiário frente aos Estados Unidos. Ali definiu-se o
paradigma de emprego de uma economia de caráter civil. Ao ver-se isento da
necessidade de assumir encargos militares, o Japão pôde acumular importantes
excedentes que, ao final de algumas décadas, lhe permitiram acessar, novamente,
ao clube dos grandes países. Desta vez, entretanto, sua ação limitava-se ao
seleto grupo das potências econômicas mundiais.
A partir da metade dos anos noventa, o Japão ingressou em outra dessas grandes
e decisivas etapas de reformulação de seu projeto nacional. A orientação
desta nova tranformação parecia ver-se simbolizada pelo aforismo:
"Abandonar o Ocidente e voltar à Ásia". O que se pretendia era o
abandono de seu papel subsidiário frente aos Estados Unidos e de potência com
vocação ocidental. A ênfase em sua condição asiática e a assunção de uma
clara hegemonia econômica dentro da região buscavam frear a penetração dos
Estados Unidos e da Europa, nos mercados emergentes do este asiático. Os
benefícios que a terra do Sol Nascente pôde extrair do Ocidente , durante
várias décadas, já tinham sido obtidos de modo espetacular. Os Estados Unidos
e a Europa não estavam , nesse momento, com capacidade de oferecer ao Japão
aquilo de que ele mais necessitava: o prospecto de um crescimento econômico a
longo prazo. A nova mina de ouro encontrava-se representada pelas economias da
região, os denominados "tigres asiáticos".
A queda livre das economias asiáticas, em 1997, e a impossibilidade de o Japão
reverter a sua própria recessão econômica abortaram, ainda na fase inicial, o
surgimento do projeto nacional ambicionado pelos nipônicos. Em março de 1999,
o primeiro-ministro Obuchi convocou um grupo de reflexão, integrado pelos
principais intelectuais e líderes políticos do país, com o objetivo de
estruturar um conjunto de grandes metas nacionais para o Século XXI. Este
grupo-de-trabalho apresentou, recentemente, suas conclusões: abandonar os
parâmetros de conformidade social, de sujeição do indivíduo ao coletivo e ao
sistema de tomada de decisões por consenso, promovendo, ativamente, o
surgimento de um espírito individualista, questionador e aberto à diversidade.
Em síntese, absorver a idiossincrasia estadunidense como essência da nova
mentalidade reinante.
Em qualquer outro lugar do mundo metas tão ambiciosas como estas poderiam ser
interpretadas como uma simples expressão retórica. No Japão, pelo contrário,
isso pode traduzir-se em fatos concretos. Ao implantar o seu próprio modelo
econômico, como alternativa ao capitalismo norte-americano e de haver
ambicionado a hegemonia econômica regional, a terra do Sol Nascente claudica
ante uma globalização de claros matizes estadunidenses.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003