IRAQUE:
O IMPÉRIO DA ANARQUIA
Ao final desta malfadada Guerra do Golfo, os Estados Unidos puderam uma vez mais
demonstrar ao mundo a sua extraordinária capacidade de mobilização e seu
portentoso e imbatível poder militar. Por outro lado, o cenário onde se
desenrolaram as ações militares, demonstrou que inexistiam as tão decantadas
armas de destruição em massa que estariam prontas para para serem usadas, pelo
exército iraquiano, contra as forças de ocupação. Com isto, os analistas e
estrategistas militares comprovaram a tese de que o Iraque não passava de uma
potência militar de terceiro nível, incapaz de resistir às forças da
coalizão anglo-estadunidense, a não ser empregando táticas terroristas e de
guerra de guerrilhas, que no jargão militar convencionou-se denominar de
"estratégia da resistência ou da lassidão".
Uma vez mais, presenciamos um país dominado pelo caos, a exemplo do que ocorreu
recentemente no Afeganistão. Enquanto os norte-americanos decidem se irão
liderar o processo de reconstrução do Iraque, somente com os seus aliados da
empreitada bélica, a ONU debate interminavelmente sobre o delicado tema. Para
complicar ainda mais a situação, as forças de ocupação anglo-americanas
começam a retirar algumas frações de suas tropas - que poderiam exercer um
efetivo controle da população civil iraquiana -, por julgar não ser uma
tarefa diretamente ligada às suas responsabilidades.
Enquanto o Iraque vive as agruras de um pós-guerra, sem água, eletricidade,
segurança, alimentos, remédios; vândalos saqueiam bancos, edifícios,
escolas, hospitais, prédios públicos e museus. Diante deste catastrófico
cenário, o Pentágono permanece indeciso. Petições como a do General Eric
Shinseki, no sentido de destinar batalhões exclusivamente para o controle
público, ainda permanece em compasso de espera. Parece que a embriaguez da
vitória está durando demasiadamente, e o governador transitório, designado
por Washington, Jay Garner, ainda não assumiu verdadeiramente as rédeas da
situação.
Fica patente que existe uma tendência na administração republicana de
empenhar todo o esforço, com garra e denodo, no sentido de obter vitórias
rápidas em todos os conflitos que engajam-se. Por outro lado, despendem poucas
energias e parcos recursos no sentido de bem administrar o território ocupado,
demonstrando falta de sensibilidade com as conseqüências que normalmente
advém após a derrubada de um ditador, devido ao hiato de poder que,
inexoravelmente, passa a existir.
Anteriormente, o Afeganistão já tinha sido abandonado à própria sorte e,
agora, ao que tudo indica, a população civil iraquiana terá de sofrer semanas
de fome, insalubridade e insegurança, enquanto que a ONU, Estados Unidos e
Grã-Bretanha, simplesmente decidem o que fazer.
É importante destacar que o Iraque está sob controle dos estadunidenses, e a
estes cabe instaurar, urgentemente, a ordem pública. Se não agirem com
presteza e eficiência, Basra, Tirkit, Bagdá e demais cidades ocupadas, se
converterão no "império da anarquia", a exemplo do que ocorreu,
recentemente, em Kosovo e Saravejo.
A perdurar esta situação caótica, pode-se vaticinar que o povo iraquiano,
independentemente de suas simpatias - contra ou a favor do caudilho deposto,
Saddam Hussein -, acabará culpando os norte-americanos por suas mazelas e
infortúnios. Agora, mais do que nunca, é a superpotência quem deve responder,
em última instância, pelo bem-estar do povo iraquiano, antes que o apocalipse
se instale no seio deste sofrido povo.
Instaurar a paz, certamente, é a mais difícil das batalhas...
*****************************
MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003