IRAQUE:
EQUILÍBRIO INSTÁVEL
Em 1998, o presidente iraquiano Saddam Hussein expulsou os inspetores da
Organização das Nações Unidas (ONU) encarregados de investigar seus arsenais
bélicos, atendendo a uma medida ordenada pela Organização, após a Guerra do
Golfo.
Vários países árabes solicitaram, recentemente, ao Iraque, que aceitasse a
retomada dessas inspeções, por parte da ONU e, surpreendentemente, a Turquia
também aderiu, prontamente, a essa petição, advertindo que a nação
iraquiana enfrenta “um novo e grande perigo”.
Esta manifestação, ao que parece, leva a crer na possibilidade de que os
Estados Unidos desencadeie um ataque massivo contra o Iraque com o objetivo de
derrocar Saddam Hussein. O presidente norte-americano George W. Bush tem,
freqüentemente, manifestado que a guerra contra o terrorismo poderia
estender-se ao Iraque e, recentemente, ante ao Senado estadunidense, o diretor
da CIA acusou os iraquianos de apoiarem grupos terroristas, muito embora
funcionários dessa Agência informassem que não dispunham de concretas
evidências sobre essas ações.
O jornal “Times”, de Londres e a televisão britânica, informaram de um
suposto plano norte-americano para destruir o aparelho defensivo iraquiano e
instigar um levante de forças reacionárias, com o intuito de remover do poder
o presidente Hussein. Um porta-voz de Jack Straw, Ministro das Relações
Exteriores da Grã-Bretanha, afirma, entretanto, que o governo de Tony Blair
não apoiaria uma guerra contra o Iraque. Trata-se de uma importante
declaração, pois os ingleses colaboram; ativamente, com os Estados Unidos, na
vigilância de alguns segmentos do espaço aéreo iraquiano, para evitar que
Saddam Hussein ataque os curdos, no norte, e, os xiitas, no sul do país. É
sabido, também, que aviões britânicos, sistematicamente, têm atuado contra
instalações militares, no Iraque.
Washington não descura do tema e o tem debatido, com maior ênfase, depois dos
atentados terroristas perpetrados por fanáticos talibãs, do grupo Al-Qaeda, em
11 de setembro de 2001, às cidades de Washington e Nova York. O governo de
Londres sustenta que o Iraque não teve implicação nesses atos. Uma investida
militar contra os iraquianos, neste momento, implicaria em assumir uma série de
riscos. O presidente Saddam Hussein possui em seu arsenal militar, armas
químicas e biológicas e as utilizou contra a população curda, na guerra
contra o Irã. Ademais, existem graves obstáculos políticos, internos e
externos, a serem contornados. O país carece de unidade étnica e religiosa.
Atualmente, existem curdos no nordeste e xiitas no sul, ao passo que o governo
é, essencialmente, sunita. Os curdos estão digladiando-se entre si a ponto de,
em 1995, enfrentarem-se, em duas facções, de maneira sangrenta, devido a uma
abortada operação da CIA que tinha por objetivo iniciar um levante contra
Bagdá.
Existe uma organização de iraquianos xiitas em Teherã, denominada “Conselho
Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque”. Em Londres, opera outra, que
tem como objetivo unir os curdos e o Congresso Nacional iraquiano. O presidente
George Bush informou, recentemente, que havia suspendido o financiamento
outorgado até agora por Washington, devido ao manejo supostamente corrupto
desses fundos.
Estas divisões que vem ocorrendo revelam, claramente, o mosaico de culturas,
idéias e crenças que estão a permear o seio da sociedade iraquiana. Daí a
imperiosa necessidade de instalar-se, em Bagdá, um governo coerente e estável,
com capacidade de auscultar os anseios da coletividade de modo a costurar um
processo harmônico e sinérgico, objetivando o bem comum do povo iraquiano.
Entretanto, alguns norte-americanos e ingleses, peritos em Oriente Médio,
pensam que o país se desintegraria caso Saddam Hussein fosse derrocado do
poder. A Turquia teme que um levante dos curdos iraquianos, com aspirações de
independência, possa provocar algo similar contra Ankara. A Arábia Saudita,
por seu turno, não deseja que se instale um governo democrático em Bagdá.
Neste verdadeiro imbróglio geopolítico, a figura carismática de Saddam
Hussein desponta como elemento fundamental e imprescindível para a manutenção
do “equilíbrio instável” na região. Oxalá prevaleça o bom senso e a paz
possa ser atingida, de forma perene, nesta conturbada, preocupante e explosiva
região do planeta.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003