GUERRA
FRIA: O EQUILÍBRIO DO TERROR
Durante as quatro décadas em que subsistiu a Guerra Fria, nascida ao final da
Segunda Guerra Mundial, a negativa ao uso de armamento atômico foi considerada
sinônimo de sua própria existência.
A dissuasão nuclear foi vista como uma garantia da não utilização de armas
de destruição em massa, o que poderia levar a uma confrontação direta entre
os principais protagonistas - Estados Unidos e União Soviética - e,
conseqüentemente, à mútua aniquilação. Daí, a profunda ambigüidade da
Guerra Fria, que, enquanto garantia a paz mundial por meio do equilíbrio
nuclear das potências envolvidas, conferia a qualquer conflito regional uma
dimensão planetária.
Diferentemente do que havia ocorrido até então nos conflitos internacionais, a
disputa agora não consistia em conquistar maiores cotas de poder - em nível
mundial - mas sim, conseguir capacitação militar para a obtenção de êxito
num possível enfrentamento entre dois sistemas diemetralmente opostos.
Os Estados Unidos defendiam a democracia e o liberalismo, enquanto que a União
Soviética postulava o comunismo; sistemas de governo, portanto,
irreconciliáveis.
A forma com que o mundo chegou a esse tipo de confrontação não foi
espontânea. Tratou-se do produto de uma série de fatores que deram lugar ao
que os observadores denominaram de mundo bipolar – Este/Oeste - com as
lideranças bem definidas em torno dos quais se organizaram seus respectivos
aliados em blocos políticos, econômicos e militares.
Dentre os fatores que levaram ao surgimento da Guerra Fria encontra-se o vazio
de poder gerado na Europa após o esfacelamento da Alemanha. A isso somou-se um
novo elemento que mais adiante se constituiria em um perigoso agravante, qual
seja, o expansionismo soviético que pretendeu preencher o espaço deixado pelo
colapso germânico.
Nesse contexto, a principal preocupação geopolítica do ex-Premier soviético
Iossif Stálin, foi consolidar a segurança de seu país por meio da criação
de uma esfera de influência direta, que teve seu desenvolvimento na Europa
Oriental e que cumpriu com o objetivo de resguardar a União Soviética frente a
uma potencial ofensiva ocidental.
O analista John Bolton, do American Enterprise Institute, de Washington,
assevera que: - “A Guerra Fria foi forçada nos Estados Unidos pelo
expansionismo soviético”.
A exportação da ideologia marxista, impulsionada por Moscou, foi outro fator
que incendiou a tensão Leste-Oeste. A União Soviética apoiou diretamente
vários esforços revolucionários que tentaram mudar, pela força, a situação
mundial onde prevalecia o capitalismo.“O ponto central da opinião
estadunidense, durante a Guerra Fria, foi a forte crença de que estávamos em
uma guerra de vida ou morte contra o comunismo”, sustenta Bolton.
De todos estes fatores, aquele que realmente promoveu o maior nível de
fricção geopolítica, foi o poder nuclear, inicialmente reservado para os
Estados Unidos, mas que a União Soviética não tardou em equiparar-se quando,
em 1949, testou com êxito a sua primeira arma atômica. Washington e Moscou
empreenderam, a partir daí, uma louca e desenfreada corrida armamentista de
modo a equiparem-se do maior número de armas nucleares, pensando, não tanto em
utilizá-las contra o rival, mas sim em convencê-lo de desistir de qualquer
idéia que implicasse no uso do poder atômico, como tática dissuasória.
O uso dessas armas deixava para trás a guerra convencional já que,
fundamentalmente, assegurava a destruição recíproca entre as duas potências
nucleares.
Nos primeiros anos do pós-Segunda Guerra Mundial, Washington tratou de manter
uma atitude de aproximação com Moscou. Entretanto, em pouco tempo, as nações
ocidentais compreenderam que era necessária uma postura mais rígida frente à
avassaladora “maré vermelha” disseminada por Stálin. Dessa maneira, surgiu
a política de “contenção” diplomática-militar impulsionada pelos Estados
Unidos e que ficou conhecida como “Doutrina Truman”. Esta, baseava-se na
crença de que a única maneira de frear o expansionismo soviético era
consolidar uma férrea defesa ocidental democrática que se opusesse
frontalmente a Moscou.
Tal defesa consistiria, primacialmente, em fortalecer os países aliados e
intervir quando perigasse o alinhamento desses países aos Estados Unidos.
Num outro extremo, a política externa soviética privilegiou a expansão
mundial com métodos militares, muitas vezes utilizando, como fator coercitivo,
pressões de ordem econômica.
Como ficou demonstrado nos últimos conflitos que tiveram como protagonistas
terceiros países e que se desenvolveram durante a época mais tensa da Guerra
Fria, a contenção não demonstrou ser uma ferramenta muito efetiva de
política externa, principalmente porque o lado soviético não parecia
amedrontar-se e pôde expandir sua ideologia a diversas regiões do mundo.
Dessa maneira, um novo esquema de relações internacionais denominado “détente”
ou distensão, terminou por substituir a política de contenção. Este enfoque
pretendia abrir novos canais de comunicação e intercâmbio entre Estados com
distintas orientações e interesses, porém, sempre através da negociação e
não do enfrentamento direto.
Se bem que durante a vigência da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União
Soviética, felizmente, nunca chegaram a uma confrontação direta. A luta por
impor suas distintas ideologias levou a que, em mais de uma oportunidade, as
monopólicas superpotências aumentassem consideravelmente os decibéis
emocionais passíveis, portanto, a estrondos bélicos de conseqüências
imprevisíveis.
Como a situação na Europa parecia condenada a um ameaçante “status quo”,
que mantinha as potências dirigindo a atenção para Berlim, a União
Soviética passou a espraiar os seus interesses a outras regiões do globo
terrestre.
Em 1950 irrompe a Guerra da Coréia. Os Estados Unidos participaram ativamente
nessa contenda, enquanto que Moscou contemplou importante apoio logístico aos
norte-coreanos, sendo que a República Popular da China - o novo e importante
ator nesse intricado cenário – surpreendentemente somou-se ao expansionismo
comunista.
Na década de sessenta, o Vietnã se converteria no cenário da confrontação
com uma guerra devastadora para os EUA, que novamente viu-se envolto em um
conflito, longe de suas fronteiras, na tentativa de frear o avanço comunista.
Os conflitos de Angola, na África; El Salvador e Nicarágua na América
Central; as repressões na Checoslováquia e Hungria, na Europa; a Guerra dos
Seis Dias, no Oriente Médio, bem como os dois bloqueios que sofreu Berlim,
acenderam, por algumas vezes, a chispa detonante da confrontação.
Segundo Henry Nau, professor de Assuntos Internacionais da Universidade George
Washington e autor do livro: “O Mito do Declínio Estadunidense”, o uso do
poder militar durante a Guerra Fria não fracassou: “Os perigos foram altos,
não há dúvida, porém as contingências e os benefícios justificaram esses
perigos”, afirma.
Entretanto, nenhum dos conflitos mencionados levou o mundo tão próximo de uma
guerra mundial como a crise dos mísseis em Cuba, quando Moscou implantou rampas
de foguetes, na ilha comunista, que tinham como objetivo atingir o território
norte-americano. O bloqueio naval imposto pelo então presidente John Kennedy -
para impedir a chegada de novos artefatos bélicos, oriundos da União
Soviética -, foi coroado de êxito; porém, foi uma manobra muito arriscada e
que colocou o mundo à beira da pior tragédia de sua história. Nem Kennedy,
nem seus assessores, tinham plena convicção de que os soviéticos voltariam
atrás e não responderiam com um ataque direto que poderia derivar,
conseqüentemente, em uma conflagração nuclear, de proporções inimagináveis
e inconseqüentes.
Jakub M. Godzimirski, analista do Centro de Estudos Russos do Instituto de
Assuntos Internacionais da Noruega, afirma que “os grandes conflitos da Guerra
Fria foram decisivos para demonstrar a vontade das partes em defender seus
valores e posições no mundo”.
Analistas coincidem que a maior peculiaridade da Guerra Fria foi, precisamente,
a forma com que as partes puderam conter-se sem chegar ao enfrentamento total.
“Ainda que tenhamos lutado em outros países, o grande alívio é que nem os
EUA, nem a URSS, chocaram-se diretamente. Na atualidade, existe quem argumente
que haviam tácitas “regras de ataque” que tornavam inviável uma
confrontação direta, porém sempre existiu a possibilidade de que ambas as
partes se excedessem”, assinala Henry Nau.
O custo dessa contenda foi altíssimo. Além das milhares de pessoas que
morreram durante o período da Guerra Fria, um elemento-chave, para dimensionar
a magnitude desta “guerra sem guerra”, foi o montante de dinheiro destinado,
nos orçamentos das partes em litígio, com o objetivo de atender às imensas
necessidades em armamentos convencionais e nucleares.
Uma estimativa mostra que, durante essa época de equilíbrio do terror, o mundo
chegou a gastar - somente em armamento - aproximadamente, oito trilhões de
dólares.
As partes não pouparam recursos para assegurar sua subsistência, ainda que, ao
final, como é sabido, a União Soviética não pôde continuar subvencionando o
enorme gasto que implicava em competir pari-passu com os Estados Unidos. A
juízo de Godzimirski, os grandes conflitos da Guerra Fria mostraram que os
custos econômicos e políticos foram impossíveis para um dos polos, o polo que
tratou de ideologizar o desenvolvimento econômico.
Por sua parte, Henry Nau afirma que “o fator que ganhou a Guerra Fria foi a
política interna e o progresso econômico do Ocidente”. Contudo, as reformas
empreendidas por Mikhail Gorbachóv, a perestroika (reestruturação) e a
glasnost (transparência) foram decisivas para trazer maior abertura à União
Soviética, e que foi acompanhada de um processo de democratização que o
regime soviético não pôde assumir e que derivou, como corolário, em seu
colapso.
Ao final, verificou-se que a opção defendida pelos Estados Unidos terminou por
ser a mais viável. Ainda que isso não implicasse que importantes mudanças
tomassem forma, depois do colapso soviético, o final da Guerra Fria mostrou,
claramente, que somente um mundo democrático e liberal poderia sobreviver nessa
longa batalha ideológica.
Porém, deve-se reconhecer que o lado oposto, o comunismo, também teve um
notável impacto na forma em que o mundo se desenvolveu, desde então.
Mostrando-se como uma alternativa, forçou aos defensores do sistema capitalista
a exercê-lo de forma mais humana e racional.
Podemos inferir que, durante 45 anos, o equilíbrio do terror funcionou porque
na hora “H” os líderes de ambos os blocos ideológicos conseguiram, em
felizes arroubos de racionalidade, colocar os interesses da Humanidade acima das
vantagens inerentes aos sistemas capitalista e comunista.
No longo transcorrer da Guerra Fria, os povos de todos os rincões do planeta,
muitas vezes, prenderam a respiração e, felizmente, conseguiram sobreviver.
Cronologia de Eventos
1947: Surge a “Doutrina Truman”, ou política de
contenção diplomático- militar dos Estados Unidos, para opor-se à crescente
influência soviética;
1949:
Nasce a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para contrapor-se à
permanência das tropas soviéticas na Europa;
1950:
A paz mundial se vê ameaçada com a invasão da Coréia do Sul, guerra que
finalizou com a assinatura de um armistício, em 1953;
1961:
É invadida a Baía dos Porcos, em Cuba, e levanta-se o Muro de Berlim;
1962:
Crise dos mísseis em Cuba. O mundo vê-se à beira de uma guerra mundial;
1964:
Os EUA decidem intervir diretamente na Guerra do Vietnã para frear a
influência comunista na Ásia;
1967:
A Guerra dos Seis dias, entre árabes e israelenses, transforma-se em uma
derrota estratégica para a União Soviética;
1968:
Países do Pacto de Varsóvia e, especialmente, forças do Exército Vermelho,
invadem a Checos- lováquia para deter o processo liberalizador de Dubcek;
1972:
É assinado o Tratado de Mísseis Antibalísticos (ABM) e o Tratado de
Limitação de Armas Estratégicas (SALT I);
1979:
Tropas soviéticas invadem o Afeganistão;
1983:
O presidente norte-americano Ronald Reagan propõe a Iniciativa de Defesa
Estratégica (Guerra nas Estrelas), sistema de defesa estadunidense
antimísseis. O projeto fracassa devido ao seu elevado custo.
1985:
Mikhail Gorbachóv assume o poder na União Soviética. Dá-se início à
perestroika e à glasnost;
1989:
Cai o Muro de Berlin, barreira simbólica da separação Este-Oeste;
1991:
Reformas democratizadoras de Mikhail Gorbachóv derivaram no colapso da União
Soviética.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003