A
CONTINUAÇÃO DA GUERRA DO GOLFO
Analisando a essência do poder dos Estados Unidos, uma visão superficial
levaria qualquer analista a concluir que a brecha de poder existente, nos dias
atuais, entre os Estados Unidos e o resto do mundo, resulta pura e simplesmente
avassaladora. Militarmente, é a única nação de alcance global em nível de
armamento nuclear e forças convencionais, e seus gastos, nessa matéria, são
maiores que os dos próximos oito grandes países do planeta somados.
Economicamente, exibe o maior PIB mundial, ao mesmo tempo em que sua presença
cultural faz-se sentir em todos os quadrantes da Terra.
Por detrás desta primeira aproximação, entretanto, a realidade é muito mais
complexa. O poder nesta era da informação global, se assemelha a um jogo de
xadrez tridimensional. Na parte superior do tabuleiro, encontra-se o poder
militar. Ali, a superioridade estadunidense é indisputável e o poder unipolar.
No tabuleiro médio aparece o poder econômico, que apresenta-se claramente
multipolar pois os Estados Unidos competem com outros atores significativos no
cenário mundial.
Finalmente, no tabuleiro inferior, encontramos uma complexa rede transnacional
não governamental. Esta última, incluiria os mais diversos atores: desde
banqueiros que mobilizam vultosas quantias - maiores do que a soma dos
orçamentos destinados a diversos países -, até terroristas e traficantes de
armamentos, passando pelos “hackers” que dedicam-se a difundir o caos nos
computadores de todo o mundo.
Nesse nível, obviamente, não se pode falar de unipolaridade, multipolaridade
ou hegemonia, pois o poder se encontra atomizado. Dentro de um jogo
tridimensional é impossível centrar unicamente a atenção no tabuleiro
superior, pois isto levaria a perder de vista os jogos que se desenvolvem nos
outros dois patamares, bem como as conexões verticais e a capilaridade que se
estabelecem nos três níveis.
Embasados nesta linha de raciocínio atingimos, então, o cerne da dinâmica
gerada a partir dos atentados perpetrados, por terroristas do grupo Al-Qaeda,
às cidades de Nova York e Washington, em 11 de setembro de 2001. Num primeiro
momento, o governo norte-americano esteve convencido de que a resposta frente ao
terrorismo islâmico deveria passar pela construção de um entretecido de
alianças internacionais com o objetivo de vingar os atos insanos praticados em
seu território. Isto açulou a ira dos “falcões” e, a partir daí, a
superpotência passou a adotar a “Doutrina da Ação Preventiva”, com o
intuito de obliterar possíveis atos terroristas, em seu território e em todos
os rincões do planeta.
O magnífico e avassalador triunfo militar no Iraque, certamente reforçará o
pensamento que tem norteado os governantes estadunidenses, ou seja, de que eles
não necessitam de coalizões, bastando utilizar o seu portentoso poder militar
para atingir os objetivos colimados. Ao final de contas, a sua pujante e
imbativel superioridade bélica parecem tornar supérfluas as regras
consensuadas e ditadas pela Organização das Nações Unidas e as normas de
conduta que ela obviamente entranha para a resolução de conflitos, em nivel
mundial. Em poucas palavras, diríamos que a atenção dos norte-americanos,
neste momento, estará concentrada no tabuleiro superior.
Entretanto, a permanente ameaça aos Estados Unidos, por parte de
fundamentalistas islâmicos espraiados pelo mundo islâmico, com o objetivo de
perpetrar uma retaliação à sua investida contra o Iraque, poderá ocorrer por
diversas vias, tais como: uma bomba nuclear colocada, no coração de Washington
ou Nova York ou de patogênicos químicos ou biológicos dispersados no metrô
de uma grande cidade ou em algum reservatório de água urbano. Frente a esse
tipo de ameaça, de pouco ou nada serve a condição unipolar da superpotência.
A única maneira de enfrentar tais perigos é através da cooperação
intergovernamental, das alianças e da diplomacia.
Controlar, efetivamente, a subtração e o movimento de material nuclear,
biológico ou químico dos arsenais russos, mediante acordos e adequada
cooperação; enfatizar e promover a cooperação entre os serviços de
Inteligência do mundo e, efetivamente, propiciar a resolução dos problemas
que alimentam o ódio dentro do mundo islâmico. São iniciativas como essas as
únicas susceptíveis de dar uma resposta positiva a este imbróglio
geopolítico, que está se formando no Oriente Médio, e que tantos prejuízos
têm causado à humanidade. Entretanto, dificilmente se conseguirá êxito nessa
empreitada, enquanto perdurar um ambiente marcado, primacialmente, pelo
unilateralismo, pela prepotência e pela sensação de auto-suficiência da
nação hegemônica.
A Guerra do Golfo está definitivamente encerrada ou apenas começando? O tempo
dirá!
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003