A SAGA DO MUNDO ÁRABE


As cenas de caos, miséria e desespero transmitidas pela televisão, nesta última edição da Guerra do Golfo, nos proporcionam uma nítida idéia da realidade do Iraque, após a vitória da coalizão anglo-americana. O quadro de dor, angústia e pobreza que o mundo presencia, diariamente, após o término do conflito, constitui um rotundo veredito contra o sátrapa Saddam Hussein e, também, contra as forças invasoras. Isto porque a tragédia dos iraquianos – e dos árabes de um modo geral -, tem raízes muito profundas e que vão muito além do que vem ocorrendo nestes dias do pós-guerra.

Por um paradoxo quase inverossímil, sobre aquela região do planeta recaem a glória de ser o berço da civilização e a maldição de constituir, talvez, o maior desejo de conquista da história da humanidade. Por sua posição geoestratégica e suas riquezas minerais, muitos dos que desejaram dominar o mundo tentaram ali se instalar. Assim fizeram os tártaros, mongóis, persas, romanos e turcos, em épocas remotas e, em período mais recente da História, desde Napoleão Bonaparte até os britânicos, como agora o fazem os estadunidenses. E dessas conquistas, bem como dos governos despóticos e autoritários que deixaram, os povos árabes receberam como herança, apenas despojos.

A presente catástrofe iraquiana teve sua origem no “mandato” que o Império Britânico adjudicou a si sobre o Iraque, Palestina e Transjordânia, ao findar a Primeira Guerra Mundial. Esse foi o triste epílogo das revoltas nacionalistas árabes estimuladas pelos ingleses para liquidar com o Império Turco, com a promessa de uma futura independência que, efetivamente, nunca chegou a ocorrer. Concluido o “mandato”, em 1930, a Coroa Britânica prosseguiu impondo governantes como o Rei Faissal, que somente foi destronado quando o império de Londres tornou-se um capítulo concluido da História.

Evidentemente que o espaço deixado pela “pérfida Albion” não ficou vazio por muito tempo. Em 1953, John Foster Dulles, o célebre secretário de Estado do presidente Dwight Eisenhower, advertia que o Oriente Médio deveria ser protegido da “ameaça soviética” e alinhado com o Ocidente. Mais tarde, em 1957, o próprio Eisenhower proclamava que esta tarefa, a seu ver, correspondia aos Estados Unidos, porque “a ONU não era totalmente confiável como defensora da liberdade”.

O admirável é que nos séculos de dominação estrangeira, desde a antigüidade até nossos dias, os árabes nunca perderam a sua identidade, sua religião e sua cultura. Nem sequer agora, nestes tempos de globalização, em que acentuou-se a cobiça por seu petróleo - motivo principal das disputas e guerras mais recentes – e o intenção de impor-lhes um modo de vida de cunho ocidental.

O consagrado escritor paquistanês Akbar Ahmed enfatizou, há algum tempo, que nada na História ameaçou tanto o mundo árabe como a penetração da cultura ocidental, através dos meios de comunicação e, sobretudo, da televisão. Nem as remotas invasões, nem a pólvora inventada na Idade Média, nem o telefone, o trem ou o avião. Para ele, a grande ofensiva ocidental que começou no final do Século XX, foi exatamente como a desatada pelos mongóis, em 1258, quando arrasaram Bagdá e acabaram com o seu primeiro império.

O que dizer então, nos dias atuais, quando não são mais os meios de comunicação ocidentais e sim os blindados e as tropas de ultramar os que tomaram, avassaladoramente, o coração do mundo árabe?


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MANUEL CAMBESES JR. © Copyright 2003

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