O
FUTURO DO CONSENSO DE WASHINGTON
Quando o colapso do comunismo tornou-se evidente, o renomado escritor Francis
Fukuyama publicou o seu consagrado livro intitulado: O Fim da História. Segundo
sua análise, o esfacelamento de um dos sistemas políticos e de valores que
dividiu o mundo conduziu a um ponto de chegada no processo histórico. A
superação das contradições gerava as bases para a homogeneização das
crenças. O Ocidente podia finalmente impor suas crenças e valores a nível
internacional. Pouco tempo depois, esta visão de um mundo reunificado em torno
dos valores ocidentais – e mais completamente anglo-saxões – se via
plasmada no chamado Consenso de Washington.
Este termo foi batizado pelo economista John Williamson para descrever a visão
coincidente do rumo a seguir que, após o fim da Guerra Fria, tiveram o governo
de Washington, os centros de investigação dessa cidade e os organismos
econômicos internacionais com sede nela, tais como o Banco Mundial e o Fundo
Monetário Internacional. De acordo com os termos deste consenso, Washington
deveria dirigir a nova arquitetura econômica global sob a égide do livre
mercado.
Em colaboração com a Europa e o Japão e utilizando como ferramenta o Fundo
Monetário Internacional, buscava-se acoplar a Rússia, África, América Latina
e Sul da Ásia, a um processo de abertura de mercados e liberalização
econômica. De modo mais amplo, se tratava de impor o “ethos” econômico
anglo-saxão dominante e universal.
Estes últimos tempos testemunharam um enfático descalabro no que parecia ser a
fortaleza inexpugnável do Consenso de Washington. A partir da crise sofrida
pela Tailândia, em julho de 1997, uma série concatenada de eventos afetou, de
maneira acentuada, a isso que chegou a chamar-se de “pensamento único”.
No Este da Ásia boa parte das economias da região buscam isolar seus mercados
do influxo das finanças globais, ao mesmo tempo em que a Rússia procura
escapar das filas da “economia consensual”. A própria Europa Ocidental tem
relaxado, de modo contumaz, suas convicções com respeito à ordem econômica
que sucedeu à Guerra Fria. Ainda que os governos de centro-esquerda, que
majoritariamente ali dominam, sigam sustentando a economia de mercado, buscam
balancear este fato com doses crescentes de solidariedade social. Nas palavras
de Leonel Yospin, primeiro-ministro francês, aceita-se uma economia de mercado
mas não uma “sociedade de mercado”.
O Fundo Monetário Internacional, instrumento executor do Consenso de
Washington, vê-se atacado pelos mais diversos flancos. Alguns o acusam por
falta de perícia técnica no manejo da crise asiática. Outros recriminam sua
falta de sensibilidade frente aos problemas sociais, ou sua miopia ante os
aspectos políticos ou culturais envolvidos. Alguns consideram que com suas
receitas de austeridade não fazem mais do que colocar lenha no fogo da
recessão mundial emergente. Até mesmo nos Estados Unidos, o pouco respaldo
político que gera a instituição, tem dificultado enormemente a dotação de
fundos solicitada pela Casa Branca.
No próprio mundo anglo-saxão, berço dos valores representados pelo Consenso
de Washington, uma impressionante onda de críticas começa a fazer-se sentir a
nível de meios de comunicação e centros acadêmicos. A crise asiática, a
tormenta dos mercados financeiros, a corrida dos capitais das economias
emergentes e o possível início de uma recessão econômica global, assentaram
as bases deste processo. Desde as páginas do The Economist, The Wall Street
Journal, Business Week, Time ou Newsweek, reportagem após reportagem coincidem
em um profundo questionamento da ordem econômica globalizada. Também nos meios
acadêmicos dos Estados Unidos e Inglaterra são muitos os cultores da economia
de mercado, que começam a transformar-se em iconoclastas.
John Gray, consagrado mestre do London School of Economics, publicou um livro
chamado Falso Amanhecer. Nele, encontramos a seguinte afirmativa: “O bloco de
gelo (da tese econômica dominante) está se rompendo no mesmo lugar em que o
projeto foi iniciado”. Segundo ele, é cada vez maior o número de vozes que
desde o “establishment” acadêmico anglo-saxão começam a denunciar as
falhas da globalização econômica. Entre estas teríamos que destacar, sem
dúvida, a de Jeffrey Sachs, grande guru de Harvard, que nestes últimos tempos
lançou devastadoras críticas contra a arquitetura econômica prevalescente.
O futuro do Consenso de Washington parece depender do que venha a ocorrer na
América Latina, e mais particularmente no Brasil. O mundo inteiro encontra-se
na expectativa. O Brasil considera-se uma barreira crucial contra o incêndio
financeiro que arrasou a Rússia, a Ásia, o México e, mais recentemente, a
Argentina. Entretanto, se o Brasil e com ele a América Latina conseguirem
conter o incêndio, é possível que o pior da crise tenha ficado para trás.
Se, ao contrário, ceder esta barreira de contenção, a queda da fileira de
dominó poderia arrastar tudo em sua avassaladora passagem. Não é sem razão
que os artífices do Consenso de Washington sempre apressaram-se em providenciar
fundos-de-resgate de bilhões de dólares para ajudar o gigante da América do
Sul, todas as vezes que as circunstâncias assim o exigiram. Se a crise global
conseguir conter-se dessa maneira, é possível que a arquitetura econômica
desenhada em Washington, após o fim da Guerra Fria, recupere paulatinamente seu
prestígio. Do contrário, seus dias estarão inexoravelmente contados.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003