Com o esfacelamento do império soviético e o fim da Guerra Fria no cenário
internacional, abriu-se um período de transição entre o fenecido sistema
bipolar e a nova ordem que estava por surgir. Toda transição, geralmente,
caracteriza-se pela incerteza, instabilidade e contradição entre forças e
tendências na luta por prevalecer. Entretanto, neste final de milênio é
evidente que existe uma só superpotência, sustentada em absoluta superioridade
tecnológica na expressão militar, apenas compensada pelo crescente peso
geopolítico da China e geoeconômico da União Européia. Porém, o iminente
surgimento do Euro iniciará o gradual rebaixamento do domínio do Dólar
norte-americano no sistema financeiro internacional.
Recordemos que ao final da II Guerra Mundial, a elite dirigente norte-americana,
acompanhada pela totalidade de sua opinião pública, decidiu reviver e
fortalecer uma economia liberal a nível mundial. Os Estados Unidos assumiram a
responsabilidade fundamental da defesa do mundo ocidental, permitindo aos seus
aliados europeus e japoneses concentrarem seus recursos, e os provenientes do
Plano Marshall, em suas reconstruções econômicas.
A iniciativa estadunidense foi decisiva na fundação da Organização das
Nações Unidas, do GATT e na criação da Banco Mundial e do Fundo Monetário
Internacional. Constatamos, porém, que decorrido meio século, já não existe
nos Estados Unidos o consenso que permitiu esse ativismo internacionalista de
cunho liberal. Tanto a elite dirigente quanto a opinião pública estão
divididas em relação ao papel do país no sistema mundial. No Partido
Republicano, baluarte tradicional do livre comércio, surgiu uma forte corrente
protecionista e nacionalista com claras vertentes xenófobas. Também no Partido
Democratra, o partido do internacionalismo de Wilson, Roosevelt e Kennedy,
tem-se fortalecido a tradicional corrente protecionista e a aversão com
relação à ajuda internacional bem como às organizações multilaterais. Para
reforçar este argumento basta mencionar que a mais pujante e poderosa economia
do mundo possui o mais baixo orçamento de ajuda internacional entre os países
industrializados, em relação ao seu Produto Interno Bruto (apenas 0,08%,
comparado com 0,97% da Dinamarca e 0,76% da Suécia). Até em cifras absolutas,
os Estados Unidos coopera menos do que o Japão e a França.
Alguns analistas entendem que esta atitude deve-se ao ressurgimento do velho
isolacionismo norte-americano, reforçado pelo desaparecimento da ameaça
comunista, catalizador do consenso internacionalista da Guerra Fria. No entanto,
considero que em certos setores da sociedade estadunidense está se produzindo
uma corrente de pensamento profundamente preocupante. Trata-se de uma peculiar
mescla de xenofobia, protecionismo e ativismo internacional unilateral. Este
unilateralismo concretizou-se "inter alia" nas conhecidas leis
Helms-Burton e D’Amato, na inaudita sem precedente negação ao Presidente
Bill Clinton de negociar um tratado internacional de comércio via "fast
track", na oposição do Congresso em pagar as dívidas e contribuições
norte-americanas às instituições multilaterais, bem como em certas ações
judiciais e policiais unilaterais, na luta contra o narcotráfico.
Um ilustre professor da Universidade de Harvard contou certa vez uma estória
muito significativa. Em uma conferência, em uma pequena cidade próxima a
Boston, perguntaram ao citado mestre sua opinião sobre uma possível invasão
dos Estados Unidos, por tropas das Nações Unidas. O aterrador neste caso é
que, na audiência, ninguém sorriu. Se isto pode acontecer na Nova Inglaterra,
a poucos quilômetros de Harvard, berço do internacionalismo "wasp"
da costa este do país, o que poderá suceder no sul ou no meio-oeste dos
Estados Unidos, caldos de cultura da Ku Klux Klan e do extremismo terrorista de
milícias como aquele responsável pelo atentado de Oklahoma? Afortunadamente,
para o resto do mundo, a potência hegemônica de finais do século XX é uma
sociedade democrática e portanto aberta, corrigível e perfectível. Imaginemos
em que tipo de mundo viveríamos se a potência dominante fosse totalitária
como a Alemanha nazista ou a União Soviética. Ademais, na sociedade
estadunidense, existem poderosos anticorpos de origem liberal que deveriam
contrapor-se ao crescimento deste unilateralismo xenófobo.
A América Latina tem uma óbvia e estreita relação com os Estados Unidos, e
creio ser necessário e urgente que os latino-americanos reacionem frente a esta
nova e potencial ameaça, em duas vertentes. A primeira consistiria em melhorar
e fortalecer a escassa capacidade de influência de nossos países, na
relativamente maleável opinião pública norte-americana e, em particular, em
seu aberto sistema político. Obviamente, cada Estado latino-americano tem seus
próprios interesses específicos em sua relação bilateral com os Estados
Unidos; entretanto, poderíamos e deveríamos atuar em conjunto, entre outras
coisas, para reforçar e aproveitar a reduzida, porém crescente, influência
dos cidadãos estadunidenses de origem latina, e para modificar a tradicional
imagem negativa do latino-americano, junto à opinião pública norte-americana.
Finalmente é imprescindível que transformemos a integração latino-americana
em um urgente imperativo geopolítico, se desejamos deixar de ser considerados
exóticos e marginais espectadores no cenário internacional.
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MANUEL
CAMBESES JR. © Copyright 2003