A INSTRUÇÃO DE VÔO

 

Os brasileiros aprenderam, mas principalmente ensinaram. O grupo usava os AT-6 para dar aulas a seus alunos dominicanos. Havia pilotos audazes no grupo, mas sem muita técnica para voar, muito menos para combater. Alguns ainda não tinham aprendido a sair de um parafuso simples, apesar de já serem oficiais. Os “t-meia” eram reunidos em um esquadrão de 16 aviões. Cada grupo de quatro era um naipe do baralho e cada avião era uma carta. Os aviões eram identificados com o ás, o 2, o 3 e o 4, de copas, ouros, paus e espadas. Os brasileiros geralmente voavam como líderes, com alunos como. alas. Eles levaram bons sustos com alguns alunos, mas os dominicanos terminaram aprendendo as técnicas da caça moderna. “Tivemos alunos espetaculares”, lembra Martins.

 

José Rafael Martins, o “cabecinha”, mineiro de Belo Horizonte ainda como oficial da FAB, antes da aventura como Trujillo Boy. (Foto Arquivo Pessoal)

 

O paulistano Clark teve menos problemas que seus colegas. O único piloto de bombardeiro no grupo – tinha treinado e voado principalmente o bimotor B-25 Mitchell –, ele ficou encarregado do link trainer na base. Tratava-se de um simulador de vôo da era pré-computador. Parecia um aviãozinho de brinquedo de parque de diversões, capaz de girar como um de verdade. Os dados dessa movimentação eram passados para a mesa do instrutor e gravados no papel com uma agulha.

Clark também teve sua cota de vôos, porém. Era comum usar os brasileiros em vôos de aviões de carga, como segundos-pilotos. Havia pilotos dominicanos de calibres variados. Clark lembra de um que não entendia nada de navegação e sempre perguntava ao comissário de bordo quando era o momento de fazer a curva para chegar ao aeroporto, freqüentemente passando de raspão por um obelisco no caminho.

Os caprichos do ditador e de alguns de seus generais influíam no trabalho dos instrutores. Havia um general que, toda vez que via algo diferente em um filme de aviação, pedia para os brasileiros ensinarem isso aos seus alunos. Certa vez os T-6 tiveram que formar as iniciais do nome de Trujillo no ar. Mas o que o ditador realmente gostava era a prontidão das esquadrilhas. Os brasileiros conseguiram fazer com que os aviões decolassem em um minuto e meio, em dois minutos depois de dado um alarme. Trujillo gostava de chegar à base de repente para simular uma emergência – mesmo de noite. E a prontidão não era apenas “pra ditador ver”.  Era real. “Mas havia um grande risco de acidente, porque muitos dos alunos ainda eram novatos”, lembra Martins.

Integrados à FAD, os brasileiros chegaram a interceptar um bombardeiro americano que os dominicanos achavam que não tinha permissão de passar pelo país. Forçaram-no a pousar em Ciudad Tujillo.

Os exercícios também envolviam a Marinha. Os brasileiros não facilitavam as coisas para os pequenos vasos de guerra dominicanos. Faziam ataques inesperados no pôr-do-sol, caprichavam nos vôos rasantes sobre os navios. “Tinha nego que pulava no mar achando que era ataque de verdade”, lembra, rindo, Martins.

 

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  (Texto retirado das páginas da Revista Força Aérea. Copyright © 1996 -
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