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O Poder Aéreo e
seus teoristas |
• Lauro Ney Menezes
TEORISTA: Pessoa que, embora conheça os princípios de uma ciência, não a prática
ou não sabe praticá-la
Passaram-se dezenas anos, desde que o advento das aeronaves tripuladas resultou
na extensão das formas tradicionais de guerra para os céus sobrejacentes à
superfície em que operam os Exércitos e Marinhas. Na realidade, para muito além.
O Poder Aéreo, termo genérico mais utilizado para identificar esse fenômeno,
ainda precisa encontrar um lugar mais claramente definido (ou indiscutível) nas
teorias ou estratégias militares. Não têm faltado estrategistas neste domínio,
mas suas influências tem-se limitado a um campo em que, desde o início, os
efeitos da tecnologia e das realizações dos profissionais, desempenharam papéis
mais importantes do que os das idéias. Para os historiadores, surgem
dificuldades adicionais devido a confusão e as controvérsias resultantes dos
diversos pontos de vista referentes aos múltiplos meios de empregar as Forças
Aéreas: se deveriam ser usadas para cooperar com as Forças de Superfície ou para
conduzir operações independentemente do Exército ou Marinha. Por estas e outras
razões, a abordagem adotada neste ensaio o divide em cinco partes, de extensões
variáveis.
A primeira parte apresenta algumas reflexões a respeito do termo Poder Aéreo, de
uma forma mais abrangente, e dos problemas por ele impostos como as questões
relativas ao vocabulário, à mística e à falta de familiaridade com o cotidiano
desse tema, por parte da maioria dos estudiosos. Na segunda parte discute-se o
capítulo anterior cuja aceitação, entre os escritores e professores, lhe outorga
especial destaque. A terceira parte trata, principalmente, do papel desempenhado
pelo Poder Aéreo durante a Segunda Guerra Mundial – um tópico que suscita
intermináveis controvérsias. Por último, e de maneira mais exploratória,
discute-se o período mais difícil de todos: as décadas, desde a Segunda Grande
Guerra até os dias de hoje, durante as quais os conceitos básicos, finalmente
concebidos e testados, precisam ser adaptados à realidade das armas atômicas, ao
voo transatmosférico e à revolução na aero eletrônica.
Clausewitz iniciou seu capítulo inovativo “Os Povos em Armas” com a observação
que ”qualquer nação que utilize o Poder Militar inteligentemente ganhará, via de
regra, alguma superioridade sobre aqueles que desdenham sua utilização”. Se isso
for verdade, a única dúvida restante é se a humanidade, como um todo, se
beneficiará em conseqüência dessa expansão do elemento “guerra”: uma questão à
qual se poderia responder, de forma semelhante, à indagação a respeito da guerra
propriamente dita. Deixemos ambos os questionamentos aos ideólogos... (1)
Se considerarmos quão precariamente as nações ocidentais – principalmente os
Estados Unidos – compreendem as “guerras” , apesar dos duzentos anos de
repetidas tentativas de lidar com elas, não nos surpreenderemos com o fato de
que o “Poder Aéreo (peculiar contribuição do século XX à guerra) continue a
desafiar nossas tentativas de análise. Mesmo o primeiro passo para tal – a
aceitação de um vocabulário adequado – continua a ser um empecilho aos nossos
esforços. Termos usuais como “bombardeio estratégico, interdição e superioridade
aérea” têm significados diferentes para escritores diferentes e, ocasionalmente,
significados diferentes para os mesmos escritores, em momentos diferentes.
Dentre outros termos, que em geral suscitam dúvidas, destacam-se: supremacia
aérea, domínio do ar e um amplo espectro de neologismos de trato difícil (mas
aparentemente necessários), como “contra-contramedidas eletrônicas” etc...
Tratar-se-á de toda essa terminologia à medida que for surgindo. Mas é preciso
entender desde o início, que o elemento aéreo da moderna estratégia militar,
ainda é um tópico sem vocabulário definido, “a partir do qual, com base no seu
emprego observado cotidianamente, se poderia compilar a gramática do Poder
Aéreo”. (2) Há muitas razões que explicam o problema.
A idéia de voar, cuja manifestação pode ser identificada já na mitologia grega,
desde o início precisou enfrentar o sentimento de que era presunção humana
brincar com prerrogativas dos deuses – e, mais tarde, dos anjos. Até o século
XIX, porém, tinham surgido dois pontos de vista diferentes, relativos ao
provável efeito da conquista dos céus pelo homem. O primeiro – que ressaltava
imagens de morte e destruição proveniente dos céus – defendia a tese de que a
natureza da guerra seria, direta e completamente alterada, o que implicaria na
impotência, e na conseqüente obsolescência, do Exército e da Marinha. O outro
ponto de vista, que refletia o primeiro de modo mais impositivo, acreditava que
“o efeito final será o da expressiva redução da freqüência das guerras e da
escolha de métodos mais racionais para chegar a acordos nos desentendimentos
internacionais”. Isso pode vir a acontecer, não apenas devido ao horrores
adicionais ocorridos nas batalhas, mas porque nenhum território do mundo estará
em segurança, independentemente da distância entre ele e o cenário real do
conflito.(3) Assim, mesmo antes dos primeiros vôos do homem, já estavam presente
nas discussões, elementos de controvérsia que envolvem sentimentos e paixões...
Após Santos Dumont, os irmãos Wright e outros terem desvendado os mistérios do
vôo motopropulsado, a aviação tornou-se, predominantemente, uma disputa de
jovens, em que a própria natureza desse jogo atraía espíritos aventureiros que
precisavam estar fisicamente aptos e mentalmente alertas. E serem mais
inclinados ao pragmatismo do que à filosofia. Quando essas pessoas falavam ou
escreviam acerca de suas experiências, o faziam em relação ao ar com um “novo
ambiente para empreendimentos”, sem quaisquer entraves ou impedimentos
provenientes dos hábitos e dos costumes do passado. Apaixonados pela arte de
voar e pelo progresso da aviação, os escritores que surgiram dentre os pioneiros
da aviação raramente tinham espírito analítico e (nunca) ponderado. Sua visão do
papel a ser desempenhado numa guerra pelo Poder Aéreo, invariavelmente excedia à
realidade do momento, o que provocava desapontamento entre os adeptos e escárnio
entre os descrentes. Acrescente-se ainda, o fato que os aviadores se
consideravam, em geral, uma “raça à parte”, possuidores do que Tom Wolfe
denominou “a substância certa”. Tal atitude desencorajou muitos dos que não
pertenciam àquele limitado círculo, a tentar desvendar os segredos ocultos no
sacerdócio dos aviadores.
Há ainda um outro fator que afastou da aviação militar aqueles com veia mais
filosófica ou contemplativa – quer como partícipes, quer como historiadores,
quer como analistas. Trata-se de um certo desconforto em relação ao que
pareceria ser um pressuposto desumano entre os aviadores: que o tipo de guerra
futura, a respeito da qual discorriam, poderia prover soluções rápidas, limpas,
mecânicas e impessoais para problemas com que outros tinham se defrontado
durante séculos. (4) Uma conseqüência dessa sensação foi a relutância dos
estranhos, principalmente dos historiadores acadêmicos, em se especializar no
campo da aviação militar, deixando, terreno livre, durante muito anos, a uma
mistura de historiadores oficiais das diversas Forças Aéreas e daqueles que se
autodenominam “escritores de obras de aviação”. Um grupo que varia de calouros
entusiasmados, mas inexperientes, até veteranos desejosos de reviver, no papel,
seus dias de glória no ar. Tais reflexões acerca da natureza do Poder Aéreo como
objetivo de um estudo analítico sério, embora possam parecer incompletas ou
desnecessárias, precisam ser colocadas no início da nossa discussão. Suas
implicações nem sempre são aparentes aos novatos neste campo os quais, em geral,
ficam precocemente desencorajados com seus próprios esforços. (5)
O próprio termo Poder Aéreo (6) remonta, pelo menos a H.G. Wells em War in the
Air (1908): outros termos deste vocabulário, ainda incipiente, são mais antigos.
Por exemplo, a noção de que o avião obrigaria os governos a se prepararem para
uma guerra relâmpago, na qual os combates marítimos ou terrestres só seriam
possíveis após a nação ter adquirido o “domínio do ar”, foi inicialmente
expressa em conferência de peritos militares, na World Columbian Exposition” de
1893, em Chicago, pelo Major J.D. Fullerton, British Royal Engineers. Dez anos
antes do vôo de Santos Dumont e dos irmãos Wright, Fullerton falava de uma
“revolução na arte da guerra”, que exigiria mudanças nos projetos dos navios de
guerra, dispersão dos exércitos nos campos de batalha e novos padrões de
construção para as fortalezas. Em todo caso, dizia, “o trabalho principal será
feito no ar, e a chegada da frota aérea sobre a capital inimiga provavelmente
significará o fim da campanha”. (7) A maioria dessas predições de longo alcance,
contudo, recebeu pouca atenção além do pequeno círculo dos visionários da
aeronáutica.
Duas décadas mais tarde, às vésperas da Primeira Grande Guerra, as recentes,
pequenas e frágeis aeronaves – construídas principalmente de madeira, tela e
cabos de aço – ainda não eram levadas a sério pela maioria dos militares, que já
tinham suficientes dificuldades em decidir o que fazer em relação às
metralhadoras, à possibilidade de transporte motorizado e às revoluções
simultâneas em blindagem e armamentos navais. No máximo – racionavam – as novas
aeronaves poderão vir a ser um modesto acréscimo aos meios tradicionais de
combate. Entretanto, as limitações apontadas em termos de autonomia, velocidade,
teto e segurança seriam superadas muito mais rapidamente do que se imaginava.
Nos alvores da Primeira Guerra Mundial, o único uso considerado provável para as
aeronaves era como “extensão dos olhos dos Comandantes de Superfície”, do mesmo
modo que os balões tinham sido utilizados, ocasionalmente, durante a Revolução
Francesa.
As grandes mobilidade e alcance das aeronaves motorizadas, quando comparadas a
balões estáticos (lastreados), possibilitou seu emprego em atividades de
reconhecimento – então denominadas de observação – desde o começo da guerra. Ao
mesmo tempo, as aeronaves utilizadas para o balizamento dos tiros de artilharia
transformaram-se numa grave ameaça às tropas de terra. Uma vez que ainda não
tinha sido desenvolvida a artilharia para uso especificamente antiaéreo, o único
modo de repelir intrusos decididos a fazer o reconhecimento das posições de
superfície era tentar abatê-los com armas disponíveis – inicialmente revólveres
e rifles - e, mais tarde, metralhadoras montadas nas próprias aeronaves. Assim,
os papéis de reconhecimento e caça foram os primeiros a surgir de modo definido
para, logo em seguida, aparecerem outros empregos dos meios aéreos.
Uma inovação foi o apoio tático às Forças Terrestres, no qual o armamento das
aeronaves e suas bombas seriam utilizadas contra as tropas terrestres inimigas,
visando apoiar o avanço das tropas amigas, e impedir o deslocamento do
adversário. Utilizadas desta maneira (geralmente consideradas como missão de
ataque ao solo), as aeronaves operavam próximo às tropas ou a pequenas
distâncias, na retaguarda do inimigo, contra pontos de reagrupamento, depósitos
de suprimentos, entrocamentos rodo-ferroviários, quartéis-generais, terminais
ferroviários e outros (missões hoje conhecidas como de apoio aéreo aproximado e
interdição). No fim de guerra, inspirada principalmente pelas incursões alemãs
sobre a Inglaterra, surge uma nova visão – a da aeronave (ou frotas aéreas)
operando independentemente do Exército e da Marinha. A nova missão seria atacar
alvos distantes das linhas de frente, com o objetivo de destruir elementos
essenciais da capacidade bélica do inimigo, bombardeando suas fábricas, pólos de
transporte e órgãos de governo. O Memorando de Smuts de agosto de 1917,
documento que motivou a criação da Real Força Aérea, discutia a guerra aérea nos
seguintes termos:
“No futuro próximo, não haverá limites ao seu uso bélico independente. E pode
não estar longe o dia em que as operações aéreas, com sua devastação do
território inimigo e destruição dos centros industriais e populacionais numa
vasta escala, se tornem as principais operações bélicas, em relação às quais as
formas mais antigas de operações militares e navais venham a se tornar
secundárias e até subordinadas”. (8)
Quando a guerra terminou em novembro de 1918, o Poder Aéreo ainda não tinha
atingido tal primazia. Como instrumento de guerra estava ainda em sua infância,
após ter desempenhado papel muitas vezes espetacular, gradativamente importante,
mas em grande parte dispensável para o resultado do esforço bélico final.
Superior ao impacto do Poder Aéreo na guerra, foi a influência da própria guerra
no desenvolvimento subseqüente do Poder Aéreo. Isso é particularmente verdadeiro
se considerado que, durante o curso dos combates, a quase totalidade das
teorias, das atitudes, dos ideais, das esperanças, dos sonhos e dos debates que
marcariam o progresso da guerra aérea, já haviam sido prenunciados.
“Apenas num sentido muito limitado é possível falar com precisão literal das
teorias relativas ao Poder Aéreo”. Assim, começa o ensaio de Edward Warner, de
1943, “Douhet, Mitchell, Seversky: Theories of Air Warfare”, cujo amplo uso nas
escolas militares tem-lhe outorgado significado especial (9). Warner, em seu
argumento inicial, afirmava que os primeiros teóricos, trocando
desembaraçadamente os tempos verbais do futuro para o presente (após 1918),
nunca reconheceram adequadamente que os debates ocorridos durante o período
entre as guerra se relacionavam, menos à escolha entre diversas teorias
referentes ao uso da aviação, do que a aceitação ou rejeição de uma doutrina
fundamental: “as aeronaves têm tal ubiqüidade e tais vantagens de velocidade e
altitude, que podem destruir qualquer instalação ou elemento na superfície da
terra ou do mar, enquanto permanecem relativamente a salvo de represálias
efetivas de terra”(10). A partir deste ponto de vista, argumentava Warner, o que
estava sendo descrito era uma teoria de guerra que postulava o poderio
fundamental de uma arma em particular – a aeronave – como instrumento bélico
predominante.
A partir daí, Warner passou a uma análise dos trabalhos publicados de Giulio
Douhet (1869-1930), William Mitchell (1879-1936) e Alexander de Seversky
(1894-1930), tendo dedicado nove páginas ao primeiro, cinco ao segundo e somente
duas ao terceiro. Nesta tarefa, Warner empregou todo seu talento como engenheiro
aeronáutico e toda sua experiência em altos postos governamentais e como
professor do Massachusetts Institute of Technology (onde um dos seus alunos de
doutorado , entre 1923 e 1925, foi um jovem tenente da Força Aérea – James H.
Doolittle). Sua vivência o qualificava singularmente para análise das limitações
teóricas e práticas aplicáveis às existentes ferramentas de guerra no ar (11).
Talvez com uma exceção, as páginas de Warner a respeito de Douhet são válidas e
úteis até hoje. Conforme Warner esboçou, a teoria de guerra de Douhet se
desmembrava em alguns pontos-chaves que assim podem ser resumidos: (1) a guerra
moderna não permite qualquer distinção entre combatentes e não-combatentes: (2)
as ofensivas bem-sucedidas por forças de superfície não são mais exequíveis: se
feitas isoladamente; (3) as vantagens de velocidade e altura, na arena
tridimensional da guerra via aérea, inviabilizariam as medidas defensivas contra
uma estratégia aérea ofensiva: (4) a nação deverá estar sempre preparada para
desencadear bombardeios maciços contra centros populacionais, governamentais e
industriais inimigos. Atacar primeiro e atacar durante para aniquilar o moral
civil do inimigo, deixando o governo adversário sem outra opção a não ser propor
a paz: (5) para isso é requisito primordial construir uma Força Aérea
independente, dotada de aeronaves de bombardeio de longo alcance, mantidas em
permanente estado de prontidão (12).
Warner, acertadamente, reconhece que a teoria de Douhet reflete a posição
geográfica da Itália, muito mais do que já se tinha percebido: e, também, o fato
de Douhet não ter podido prever a invenção do radar, o que o levou a subestimar
as possibilidades de defesa contra ataques aéreos. Contudo, discorrendo acerca
dos eventos de 1949-1943, Warner pode ter criticado Douhet injustamente, num
determinado caso. Trata-se do que se denominou “a superestimativa de Douhet”
quanto aos efeitos destrutivos e desmoralizantes dos bombardeios, na moral da
população civil. Neste particular, Warner e alguns dos seus sucessores (13),
parecem não ter considerado devidamente o pressuposto de Douhet de que, nos
ataques contra a população e os centros industriais, seriam empregados três
tipos de bombas: explosivas, incendiárias e de gás venenoso. Cada qual “na sua
correta proporção”, como ele mesmo disse, sem maiores explicações. A rigor, a
recusa dos antagonistas na Segunda Guerra Mundial de utilizar bombas químicas –
por medo de retaliações – não deveria ser ignorada, quando se criticam as
predições de um autor que, explicitamente, presumia a utilização de tais armas.
As páginas de Warner a respeito de “Billy” Mitchell não resistiram tão bem ao
tempo quanto a sua análise de Douhet. Em parte, isso se deve à tendência de
Warner de ressaltar – com Mitchell e Seversky, assim como com Douhet – a ênfase
dada por cada escritor à estrutura da base industrial e econômica do inimigo,
como “alvo preferencial” para as operações de bombardeio. Este aspecto da obra
de Mitchell, só se tornou importante bem mais tarde: ressaltá-lo afastou a
atenção dos leitores das muitas outras contribuições de Mitchell, como líder,
inovador, defensor e símbolo de toda forma pela considerava as outras aeronaves,
além dos bombardeiros, como meros complementares – “bons de se ter, mas
perfeitamente dispensáveis” – Mitchell expunha as vantagens de todos os tipos de
aeronaves. Para ele, o importante não eram os bombardeios estratégicos, mas a
coordenação centralizada de todos os meios sob o controle de um Comando de
Aviação autônomo, sem qualquer dependência do Exército. Se essa meta pudesse ser
alcançada, acreditava, tudo estaria no seu devido lugar.
Um outro ponto: quando Warner se refere a Mitchell como “um criador”, isso não
deve ser interpretado como significando um pensador original, fato que não ficou
amplamente conhecido até a publicação de Billy Mitchell: Crusader for Air Power,
de Alfred F. Hurley (14). Embora o subtítulo do livro de Hurley frise a grande
importância de Mitchell como cruzado, tende a esconder o verdadeiro tema do
livro, que é o ideário aeronáutico do principal aviador militar americano.
Hurley conclui que as realizações de Mitchell não residem no âmbito do
pensamento original, mas no fato de que “ele tomou suas idéias emprestadas,
principalmente da comunidade internacional dos aviadores, à qual ele tinha
aderido durante a Primeira Grande Guerra” (15). Esta conclusão é igualmente
aplicável a Douhet, cuja importância, como a de Alfred Thayer Mahan, con- siste
menos na sua originalidade do que em ser o primeiro a reunir em um documento de
maneira estruturada, idéias amplamente disseminadas àquela época (16).
A inclusão, por Warner, de alguns comentários de Alexander de Seversky em
Victory Through Air Power (1942) foi de fato elusiva. Mas isso, ao longo do
tempo, fez com que os estudantes iniciantes do Poder Aéreo concedessem um lugar
mais importante a Seversky, como teorista, do que é merecido. Entretanto, como
defensor de uma tese generalizada que privilegia o Poder Aéreo acima de qualquer
outro elemento bélico, sua influência junto à opinião pública foi superior ao
que qualquer pessoa nascida após 1935 poderia imaginar – visto que essa tese se
originava de um filme de propaganda de guerra produzido por Walt Disney (17).
Observando, em retrospecto, o período entre as guerras, e ampliando o foco de
Warner sobre o Poder Aéreo às teorias específicas de utilização das aeronaves na
guerra e das contribuições individuais às corporativas, é possível identificar
vários importantes trabalhos que merecem, pelo menos, uma breve referência (18).
Aparecendo com alto grau de qualidade nesta listagem estão as idéias de J.F.C.
Fuller e Basil H. Liddell Hart, estabelecendo a estrutura teórica da equipe
ar-terra em conflitos blindados. A Blitzkrieq, conforme empregada pela Alemanha,
deve muito a essas idéias e, ao contrário do que se pensa, envolvia aeronaves
num nível de importância idêntica à dos tanques e da infantaria motorizada. Seu
uso na França e na Rússia, em 1940 e 1941, dependia substancialmente de ataques
aéreos coordenados – na realidade liderando a batalha - utilizando, portanto, as
aeronaves de um modo que Mitchell teria entendido muito bem, mas que Douhet e
Seversky teriam considerado ineficiente (19).
Simultaneamente, nos Estados Unidos e no Japão, foram importantes os avanços
teóricos e tecnológicos relativos à aviação naval a partir de porta-aviões, nos
quais Mitchell, com o afundamento do Ostfriedland em 1921 e a precoce profecia –
em 1912 e, novamente, em 1914 – de guerra iminente com o Japão, desempenhou
papel de catalizador involuntário. Inicialmente, a Marinha dos EUA considerava
que as aeronaves embarcadas seriam úteis, principalmente, na proteção para a
frota (principal) de combate. Alguns apóstatas tinham idéias mais abrangentes a
respeito do que poderia denominar papel de projeção do poderio contra alvos em
terra, mas ninguém teve grande êxito ao prever e propor aeronaves embarcadas
afundando navios principais, num combate entre frotas. O Japão, menos
comprometido com as tradicionais belonaves e mais preocupado com projetar seu
poderio do que com defesa pura, provou sua prontidão tática em Pearl Harbor, em
dezembro de 1941.
Na Grã-Bretanha, após a Primeira Guerra Mundial, a Real Força Aérea, criada em
1918 a partir dos serviços aéreos das Forças mais antigas, iniciou a luta de
vinte anos para manter seu status de entidade independente. Em dezembro de 1919,
Winston Churchill, então Ministro de Guerra e Ar, declarou que “o primeiro dever
da RAF é proteger o Império Britânico”. O Marechal-do-Ar, Sir Hugh Trenchard
(Chefe de Estado-Maior do Ar de 1919 a 1929) tinha inicialmente sugerido, a
idéia de a RAF adaptar-se para as funções de policiamento do ar. Em 1920,
Churchill pediu que também fosse elaborado um esquema prático para o “controle
do ar” da Mesopotâmia (Iraque). As Forças Aéreas foram usadas pela primeira vez
em 1922 e enfatizavam presença, coerção e mínima aplicação de Força: empregá-las
em substituição às Forças Terrestres no Oriente Médio. Isso implicou em um corte
dos custos anuais da ordem de 750.000 libras esterlinas. Em meados da década de
30 tinha-se desenvolvido uma doutrina para o emprego da Força Aérea, a qual era
ensinada na Escola de Comando e Estado-Maior da RAF e na Imperial Escola
Superior de Defesa (20).
O outro principal tema do desenvolvimento da RAF entre as guerras, focalizava o
futuro e enfatizava operações aéreas independentes contra os recursos materiais
e morais do inimigo. A repetição da “carnificina da Primeira Grande Guerra”
deveria ser evitada a qualquer custo, ponto de vista amplamente compartilhado em
toda a Grã-Bretanha e, nitidamente, aceito pelos componentes do Estado-Maior da
RAF. Os ataques aéreos dirigidos “ao coração do inimigo”, ao invés de permitir
as manifestações e a tomada de iniciativa do inimigo – dizia-se – tanto
restabeleceriam a decisão do combate quanto levariam a um desfecho mais rápido
e, por isso, mais humano. Aqui, Trenchard também tomou a liderança, enfatizando
cada vez mais a natureza decisiva de um ataque ao moral do adversário. O inimigo
presumido durante a década de 20 – para Trenchard, não para o Governo – era a
França, substituída pela Alemanha, somente após a ascensão de Hitler. O
etnocentrismo de Trenchard o impediu de se preocupar com uma guerra aérea de
“mão dupla”: os franceses – acreditava-se – “estrilariam” primeiro. Só após
1936-37, “cabeças mais frias” no Governo, principalmente no Tesouro, derrotariam
a posição da RAF que insistia em comprometer a maior parte dos seus recursos no
Comando de Bombardeio. A decisão de mudar a ênfase para a Defesa Aérea e para o
Comando de Caça, surgiu no momento oportuno, mas não refletia a opinião da
maioria do Estado-Maior
Nos Estados Unidos, a tradução dos conceitos mais abrangentes de Douhet e
Mitchell numa detalhada doutrina de emprego das Forças Aéreas em operações
contra o parque industrial do inimigo, resultou do trabalho da Air Corps
Tactical School, do Exército Americano. Desde sua criação em 1920, o currículo
de Tactical School incluía todos os diferentes aspectos da tática e estratégia
aéreas. Entretanto, começando por volta de 1926, o papel estratégico dos
bombardeios operando independentemente das Forças de Superfície surgiu como tema
importante e, após 1932, se tornaria dominante. Talvez porque fosse impossível
imaginar frotas de bombardeios, das dimensões evocadas por Douhet. Alguns
instrutores começaram a ponderar se, após um estudo cuidadoso e científico do
parque industrial de uma nação, seria possível selecionar alvos específicos cuja
destruição, de per si, poria em cheque toda uma indústria ou uma série de
indústrias. Mas, se um determinado número desses “gargalos” fosse identificado e
destruído, seria possível, com uma força relativamente pequena, interromper a
produção bélica do inimigo com precisão quase cirúrgica tornando, deste modo,
incapaz de continuar a resistir. Por conseguinte, foram desenvolvidos estudos
utilizando os Estados Unidos como caso-teste, a fim de determinar o grau de
concentração industrial, as partes componentes das várias indústrias, a
importância relativa das partes e a vulnerabilidade a ataques aéreos daqueles
que pareciam ser os alvos mais críticos.
Identificar um alvo é uma coisa: acertá-lo do ar, outra. Entretanto, a
tecnologia, pelo menos para os mais otimistas, parecia estar emparelhada com a
estratégia. O novo B-17 tinha a autonomia de vôo, a velocidade, a altitude e a
capacidade de carga de bombas consideradas necessárias. E quando foram
encomendados modelos aprimorados do visor de bombardeio Sperry e novo visor de
bombardeio Norden Mark alçaria vôo de uma Base amiga (por exemplo, na
Inglaterra), voaria a grandes altitudes (talvez a 25.000 pés, acima do alcance
efetivo da artilharia antiaérea e dos Caças de Defesa Aérea do inimigo) por
vários milhares de milhas . Depois, agrupadas numa grande formação, de modo a
multiplicar a quantidade de elementos destrutivos lançados.
Dessa forma, as aeronaves visariam cuidadosamente o alvo com os novos visores,
lançariam as bombas e voltariam, voando de volta muitas centenas de milhas. Na
sua esteira deixariam uma indústria (até mesmo apenas uma fábrica que fosse,
porém escolhida porque sua destruição inevitavelmente aleijaria toda uma
indústria) gravemente incapacitada, senão devastada. Decidiu-se que tais ataques
seriam realizados de dia, para se obter maior precisão. A idéia de o grupo de
bombardeiros ser escoltado por aeronaves de Caça foi rejeitada, principalmente
porque estas últimas ainda não possuíam o suficiente raio de ação (21).
De modo geral, esta era a teoria do “bombardeio diurno de precisão, de alvos
selecionados, a grande altitudes” que as US Army Forces levaram a cabo na
Segunda Guerra Mundial. Eventos subseqüentes revelariam as muitas falhas na
teoria, dentre as quais é necessário incluir: (1) o presuposto (não declarado)
de que haveriam informações precisas a respeito dos alvos inimigos; (2) uma
tendência prevalecente de superestimar a futura capacidade das aeronaves,
resultantes de projetos ainda na prancheta; (3) minimização dos prováveis
efeitos dos fatores limitantes, dentre os quais, o impacto das condições
meteorológicas nas operações; (4) tendência a examinar as partes do problema em
detrimento do todo (uma forma de reducionismo que certamente não se limita aos
teoristas do ar, mas que leva a visar os meios e não os fins, e que é paralela
àquela de confundir destruição com controle e, ao mesmo tempo, reduzir a
estratégia a um problema de escolha de alvo) e (5) uma crua superestima da
capacidade de autodefesa dos bombardeiros contra uma Força Aérea de Defesa,
especialmente treinada. Do ponto de vista teórico, porém, deve ficar claro que o
conceito inicial americano, com exagerada ênfase na “economia de meios” aplicada
com arte, não pode ser desprezado como “fantasia douhetana’.
Nos anos entre as duas Grandes Guerras, as diferentes abordagens acerca da
guerra aérea, por parte dos diversos teóricos e das principais potências
mundiais, não resultaram de princípios aceitos por todos, a respeito do Poder
Aéreo. Apesar dos esforços de Douhet e de Mitchell, nenhum dos dois provou ser
um Mahan ou um Jomini, dos quais os entusiastas do Poder Aéreo pudessem extrair
os segredos da “terceira dimensão” da guerra. Pelo contrário, o emprego das
aeronaves resultou de seleções isoladas em cada nação, as quais refletiam um
esforço de integração das características únicas das aeronaves no apoio às
Forças Terrestres e Navais, ou em operações independentes, de forma a se tornar
economicamente possível e ajustada à consecução dos objetivos nacionais. Uma
meta secundária, adotada principalmente nos Estados Unidos, foi o esforço para
se criar uma Força Aérea independente, que devesse sua constituição à sua
capacidade de desempenhar uma missão singular, que não pudesse ser executada por
qualquer outra Força.
Dois anos após a publicação do ensaio de Edward Warner em Makers of Modern
Strategy, as potências aliadas conduziram a guerra a seu término.
O Poder Aéreo”, como escreveu mais tarde Bernard Brodie, “viu-se justificado na
Segunda Guerra Mundial”. Mas foi o conceito de Mitchell – de “qualquer coisa que
voe” – e não o de Douhet é que foi comprovado. O sucesso mais espetacular foi o
uso tático, e com isso as Forças Aéreas ganharam o total respeito e admiração
das Forças mais antigas. Em contrapartida, os êxitos apenas estratégicos,
independentemente da importância das circunstâncias específicas, nunca
convenceram completamente os observadores descompromissados(22).
A massa de dados postas à disposição de ambos, teóricos e críticos, não tinha
precedentes na história da guerra. As atividades aéreas dos principais
partícipes, com exceção da Rússia, ficaram manifestas: para a Alemanha e o
Japão, pois não tiveram escolha; para a Itália e a França, porque não havia
grande coisa a relatar; e para os Estados Unidos, porque seu governo, os grandes
aviadores e o público sentiam-se seguros e amparados pelo seu recém encontrado
“escudo”. No Reino Unido – como é tradição – o governo foi discreto, mas não a
ponto de impedir a objetiva avaliação do seu Comandante-em-Chefe do Ar, Marechal
Sir Arthur Harris (23).
A interpretação de Brodie, com relação ao que tinha acontecido às teorias de
Douhet e Mitchell, foi a de um crítico das campanhas aéreas de natureza
estratégica contra a Alemanha e o Japão. Aliás, a de um crítico que, em meados
da década de 50, já considerava tais campanhas inexoravelmente derivadas da
tendência prevalecente entre as nações industrializadas dos séculos XIX e XX, de
utilizar a força além da razão. Outrossim, Brodie acreditava que as campanhas
apontavam para um futuro ainda mais devastador. Entretanto, embora influenciado
pelos seus receios quanto ao futuro de armas atômicas e termonucleares, Brodie
conteve suas críticas, que se limitaram às evidências como ele as vislumbrava.
Muitos outros também assim agiram. Para eles, o inesquecível comentário de Noble
Frankland – “as pessoas preferem mais imaginar do que conhecer a fundo os
bombardeios estratégicos”- é mais apropriado... Embora não seja este o veículo
adequado para resumir o debate infindável acerca da eficácia dos bombardeios
estratégicos na Segunda Guerra Mundial, alguns temas principais precisam ser
mencionados(24).
Em relação à guerra na Europa Ocidental, a controvérsia está centrada(1) na
ineficácia e inumanidade da política adotada pelo Comando de Bombardeio da RAF
em utilizar bombardeios de área dirigidos contra o moral da população civil
alemã.(2) no retardo na obtenção da eficácia nos “bombardeios de precisão”
americanos(3) na mudança dos ataques aéreos americanos, no início de 1945,
quando a ação dos bombardeios ficou mais semelhante “à de um porrete do que à de
uma espada” e (4) na possibilidade de os imensos recursos materiais e humanos
empregados nas campanhas de bombardeio, serem mais bem utilizados em outras
missões, dada a inexequibilidade de a vitória resultar exclusivamente do Poder
Aéreo, nas circunstâncias então dominantes. Quanto ao Japão, a controvérsia
centra-se na decisão de usar a bomba atômica. A eficácia de seu uso tornou-se
controvertida, uma vez que a rendição foi obtida sem ser necessário recorrer à
temida invasão. A adoção pelos Estados Unidos, em Março de 1945, de novas
táticas resultantes da queima de cidades japonesas tem recebido, ao longo dos
anos, menos críticas do que seria de se esperar. Pearl Harbor e as subseqüentes
atrocidades japonesas contra prisioneiros de guerra pareceram justificar maior
reação e, de todo modo, a questão da bomba atômica foi rapidamente “devorada”
pelos outros assuntos. Sucesso de mídia ?
Embora as campanhas de bombardeio estratégico, dos EUA e da Grã-Bretanha durante
a Segunda Guerra Mundial, tenha recebido muita atenção e, na realidade, tenham
sido a base da maioria do planejamento no pós-guerra em ambos os países, alguns
dos aspectos não-douhetanos do combate aéreo são igualmente importantes -
principalmente quando mensurado em termos do esforço despendido e do êxito
tático alcançado, em todos os Teatros de Operações.
Apesar do seu status técnico como força autônoma, a Luftwaffe, do início ao fim,
permaneceu sob o controle do Alto Comando no que diz respeito a equipamento e
desenvolvimento doutrinário. Os papéis desempenhados pelas suas aeronaves de
caça, pelos seus paraquedistas e pelas suas forças aerotransportadas foram
concebidos para prover apoio ás operações da Wehrmacht. A capacidade alemã de
conduzir operações de longo alcance do tipo que poderia originar decisões
independentes das forças terrestres, inexistiu durante toda a guerra. Não se
sugere, aqui, que foi fácil para a RAF ganhar a Batalha da Inglaterra: ela
esteve mais “por um fio” do que outra coisa. Mas o equipamento, a doutrina para
seu emprego e a má liderança da Alemanha impediram que a Luftwaffe tivesse
qualquer possibilidade real de êxito, igualmente como ocorreu, mais tarde, nas
operações da ponte aérea em Stalingrado. Surgiram, aliás, alguns alemães “douhetistas”,
vez por outra, durante a década de 30 – o mais proeminente deles foi o General
Walter Wever, até a sua morte em 1936. Mas não houve espaço para eles.
Ressalta-se que o próprio Hitler, pelo menos até 1943, tinha visões de conquista
que não seriam apenas escombros inúteis, mas que contribuíram para o aumento do
poderio econômico e militar alemão.
O Exército e a Marinha japonesa possuíam contingentes aéreos, mas somente o
serviço aéreo da Marinha desenvolveu uma força de ataque de longo alcance, de
significativas proporções. Quatro meses após seu sucesso em Pearl Harbor, em
abril de 1942, a incursão de Halsey/Doolittle contra Tóquio, a partir do
porta-aviões Hornet (de Shangri La, disse o Presidente Roosevelt), apontou uma
nova vulnerabilidade que não tinha sido considerada pelos planejadores
japoneses. Em maio, a batalha do Mar de Coral tornou-se a primeira ação naval em
que as frotas antagonistas nunca estiveram á vista, uma da outra. E em Midway,
em junho de 1942, o afundamento de quatro porta-aviões japoneses, como resultado
de uma combinação de sorte e coragem, deixou claro que a guerra naval havia
adentrado numa nova era.
As contribuições da Força Aérea da União Soviética á vitória final permanecem
encobertas por um véu impenetrável. Melhor refletido na desenfatização, no
pós-guerra, da adoção do tipo de Força Aérea desenvolvida pelos Estados Unidos
nos anos imediatamente após 1945: as Forças de Superfície que, durante a Segunda
Grande Guerra, eram, primordialmente, Forças Terrestres, agora também incluem
unidades navais. 0 hiato proveniente da inexistência dos bombardeiros russos na
década de 50, como o também inexistente do início dos anos 60, foi mais um
produto da falta de imaginação dos seus planejadores do que das Forças em
questão.
Um aspecto da teoria do Poder Aéreo, de grande importância para a Força Aérea do
EUA após 1945, e que tem sido negligenciado pelos historiadores, está
relacionado com o que atualmente se denomina Poder Aeronáutico – principalmente,
seu comando e controle quando empregados para apoiar Forças Terrestres. Na Air
Corps Tactical School, na década de 30, foram atribuídas três funções á aviação
de ataque (como então era e devia ser denominada). Primeiramente, com o apoio de
Aviação de Caça quando necessário, alcançar a superioridade Aérea no Teatro de
Operações
se, a maior contribuição que uma Força Aérea poderia emprestar ás Forças de
Superfície amigas. A seguir, em ordem decrescente da prioridade, vinham os
esforços para isolar o campo de batalha mediante um ataque às Forças e ao
aprovisionamento inimigos que estivessem além do alcance efetivo da artilharia
(o que se denomina de interdição do campo de batalha). Em terceiro e último
lugar, seriam deflagrados ataques diretos ás tropas adversárias no campo de
batalha(apoio aéreo aproximado).
As experiências no Norte da África, no fim de 1942 e no inIcio de 1943,
pareceram confirmar este arranjo de prioridades, pelo menos para os aviadores.
Os comandos terrestres continuaram céticos quanto a isso, até o fim da campanha
da Tunísia, em maio de 1943, em parte porque se ressentiam dos esforços dos
comandantes do ar para estabelecer controle centralizado de todos os meios
aéreos. E, conseqüentemente, aumentar a flexibilidade do seu emprego contra
objetivos primordiais, de acordo com o Comandante-Geral do Teatro de Operações.
Os aviadores conseguiram uma espécie de vitória com a publicação, pelo
Departamento de Guerra, em julho de 1943, do Manual 100-20, Command and
Employment of Air Power, documento preparado pelas Army Air Forces sem auxílio
das Army Ground Forces. O Manual iniciava-se com a seguinte afirmativa, escrita
em letras maiúsculas. ”O Poder Terrestre e o Poder Aéreo são forças co-iguais e
independentes: nenhuma delas é auxiliar da outra.“
O manual explicava, em detalhe, que a “flexibilidade inerente” devia ser
considerada como característica capital de uma Força Aérea. Que essa
flexibilidade só podia ser eficaz quando o comando estivesse nas mãos de um
Comandante Aéreo responsável pelo Poder Aéreo, resultante da partilha dos meios
aéreos entre Comandantes de Divisão e de Corpo. O Manual também detalhava uma
hierarquia explícita de propriedade para as Forças Aéreas: (1) superioridade
aérea; (2) interdição; (3) apoio aéreo aproximado. Na Europa , após os
desembarques na Normandia, em junho de 1944, a abundância de aeronaves e
tripulações disponíveis (contra uma Luftwaffe já cambaleante ), tornou
desnecessário aos aviadores “esfregar” os FW 109 abatidos no rosto dos seus
parceiros das Forças Terrestres: as oportunidades e as circunstâncias proveram
suficientes recursos, em termos de Força Aérea, para realizar qualquer tarefa
desejada. E os debates, quando ocorriam, se relacionavam a operações específicas
e não a diferenças doutrinárias, embora estas últimas ainda fossem muito
relevantes para os teoristas de ambos os lados.
Para nossos propósitos, há dois importantes aspectos da maturação da teoria do
Poder Aéreo, conforme aplicada ás Forças Aerotáticas: no período imediatamente
após a guerra, em virtude da ênfase dada ao desenvolvimento de Forças
Aeroestratégicas visando a “nova Era Aérea Atômica”, as Forças Aerotáticas e a
doutrina foram negligenciadas e, em meados da década de 60, na Indochina, a
antiga batalha de 1943 a respeito do controle centralizado precisou ser travada
novamente. Agora não apenas com as Forças Terrestres mas com as três outras
Forças Aéreas – as do Exército, da Marinha e a dos Fuzilheiros [25].
Passaram-se décadas após o lançamento das duas bombas atômicas sobre o Japão, em
agosto de 1945. Nesse período, as teorias relacionadas ao combate aéreo – e,
agora o combate espacial – transformaram-se numa verdadeira indústria, onde
pululavam os teóricos, os cientistas do comportamento com orientação estatística
e outros cientistas sociais – muitos dos quais utilizam um jargão que pode ser
subconscientemente dirigido a fazer o “impensável parecer racional”. Embora o
tópico da estratégia, na sua relação com as armas nucleares, não esteja no
âmbito desta discussão, incide tão intimamente no Poder Aéreo após 1945, que é
inevitável tecer algumas observações acerca deste assunto.
É longa a relação dos participantes no campo da estratégia nuclear, cujas idéias
têm apresentado um impacto substancial, embora, algumas vezes, apenas momentâneo
[26]. De maneiras distintas, a maioria destes autores tem discutido a questão da
guerra na era nuclear, ao invés do combate aéreo especifica ou exclusivamente –
imitando, neste ponto, os entusiastas da aviação do inicio do século XX. A maior
parte das obras importantes provém de meados da década de 50 até o final da
década de 60 e, coletivamente, o grupo constituiu o âmago dos chamados
“intelectuais estrategistas”. Não é possível esperar dos aviadores, exame
paciente desses esforços coletivos. Provavelmente não faz diferença alguma, uma
vez que seu ceticismo inato em relação ao teórico, com certeza os faria indagar
o porquê de tanta agitação. Aqueles que se esforçam, adotam um teste com dois
resultados previsíveis: enredam-se nas complexidades conceptuais que separam as
diversas “escolas” ou chegam à dura conclusão – capaz de abalar qualquer senso
de confiança – de que o número de idéias realmente originais, surgidas após o
outono de 1945, é desconcertantemente pequeno.
O trabalho de Bernard Brodie “The Atomic Bomb and American Security”,de novembro
de 1945, incluido mais tarde, como uma apresentação mais extensa – como dois
capitulos de The Absolute Weapon – apontava para a dissuasão como o conceito
dominante na estratégia nuclear: “até agora, o principal objetivo das Forças
Armadas tem sido o de ganhar as guerras. De agora em diante, sua principal
finalidade deverá ser a de evitá-las. Não podem ter nenhum outro propósito”[27].
Durante as duas décadas subseqüentes, Brodie liderou o pensamento neste campo.
Seu Strategy in the Missile Age continua a ser o único verdadeiro clássico a
respeito das questões essenciais da estrutura de força (quanto é o suficiente?)
e das posturas de força ( ofensiva, defensiva, retaliatória, antecipatória, ?
etc.). Ao contrário de alguns dos primeiros trabalhos da questão atômica, Brodie
aceitou o fato de que , provavelmente, era possível voltar atrás, e que a
questão imperativa seria como controlar as novas armas de modo a minimizar a
probabilidade do seu uso e os níveis de devastação que resultariam do seu
emprego. Seu imponente realismo o separou de determinados teóricos – entre os
quais desponta Eduard Mead Earle – que lançaram uma linha de argumentação mais
desesperançosa e que não vislumbrava qualquer resposta a não ser proibir a
guerra, ( atualmente um tema inevitável, embora lamentavemente desacreditado) e
cujos proponentes ativos podem ser encontrados entre os que integram a escola
contemporânea de pensamento estratégico, de controle armamentista e desarmamento
[28].
Entre 1945 e 1953, teorizar a respeito do combate aéreo era secundário em
relação aos problemas mais prementes da recuperação do pós-guerra e do
acirramento da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética . A desmobilização,
a ponto de desintegrar as Forças Armadas Americanas rapidamente, levou o Governo
a implementar a política de dissuação através da ameaça de retaliação atômica,
mais tarde nuclear. Postura que, ao longo dos anos, passou por incontáveis
convoluções de forma e de detalhe, mas nenhuma de substância conceptual [29]. No
começo, o “monopólio atômico” americano consistia de um punhado de armas que só
podiam ser lançadas por grandes bombardeios e que exigiam processos de montagem
complexos e demorados, para os quais, numa oportunidade no final da década de
40, só haviam seis equipes qualificadas disponíveis. Até meados dos anos 50,
entretanto, uma combinação de saltos tecnológicos e disponibilidade de grande
volume de recursos – resultantes da guerra na Coréia – inaugurou a nova era da
“abundância nuclear”, que se refletiu na “doutrina da retaliação maciça.”
Ás origens conceptuais da “retaliação maciça” via armas nucleares
evidenciaram-se no depoimento dos Generais Henry G. Arnold e Carl A. Spaatz
perante o Congresso dos EUA, no outono de 1945 [30]. A capacidade militar de
executá-la resultou de decisões orçamentárias e de estruturação de forças,
tomada no verão de 1951. Sua proclamação, no inicio de 1954, após a revisão da
Política de Defesa realizada pelo novo governo de Eisenhower ao longo de um ano,
foi provocada pela frustação decorrente da experiência na Coréia e dos receios
de Eisenhower em relação á futura vulnerabilidade da economia americana.
Essencialmente, foi uma decisão econômica e não estratégica, que procurava obter
“mais potência (bang) por dólar (buck), a longo prazo”.
Os teoristas imediatamente questionaram a credibilidade da retaliação maciça,
exceto num confronto final entre os Estados Unidos e a União Soviética. Outros
questionaram a sanidade de iniciar uma “era do overkill”* [31], argumentando que
a capacidade de lançar com precisão, um número relativamente pequeno de armas
nucleares seria suficiente para a finalidade de dissuação. A escola da
“dissuasão finita”, apesar do grande esforço da Marinha Americana em 1957, nunca
alçou vôo nos Estados Unidos: na Europa, principalmente na França (mas também de
certa forma no Reino Unido), precisou ser adotada. Sob Eisenhower, a ameça de
retaliação maciça foi silenciada ao longo do tempo e foram tomadas medidas para
aprimorar as forças militares convencionais (sem armamentos nucleares) para uso
em confrontos menos mortais. Esta tendência foi acelerada durante o governo
Kennedy (“resposta flexível “), embora também tenha sido decidido fortalecer as
forças nucleares estratégicas a nível nunca antes sonhado. Principalmente pela
troca de ênfase dos bombardeiros para os mísseis balísticos de alcance
intercontinental (IBCMs), lançados a partir do mar ou terra, constituídos por
1.000 IBCMs do tipo Polaris, cada um dotado de 16 mísseis balísticos lançados de
submarino (SLBM).
Os futuros historiadores poderão considerar as decisões de Kennedy e McNamara,
em 1961, como verdadeiro divisor de águas, uma vez que o aprimoramento da
capacidade de resposta flexível contribui para: (1) uma disposição, ou até uma
compulsão, de experimentar seu uso no Vietnã, (2) e para o aumento da Força
Estratégica, friamente exibida durante a crise dos mísseis em Cuba, em outubro
de 1962, o que levou á decisão soviética de nunca mais enfrentar as Forças
Estratégicas substancialmente superiores dos EUA. Essa tese – que não é
amplamente aceita pelos sovietólogos – precisara sobreviver ás acusações de que
representava apenas um argumento. Precisara, então , demonstrar que o aumento
armamentista soviético da década de 70 resultou da síndrome do “nunca mais”, e
não de um desejo de criar forças capazes de desferir um golpe inicial
paralisante, ou de fazer “chantagem nuclear” com base na percepção americana da
vulnerabilidade das suas próprias forças e dos mecanismos Aliados de comando e
controle [32].
O combate no ar e no espaço (com armas nucleares), assim como as teorias a esse
respeito, então agora no “limbo”, apesar do excessivo “barulho” no inicio dos
anos 80. Nenhuma das superpotências parece ter conseguido se sobrepor ás
pressões internas que buscavam melhorar a capacidade de dissuasão, e que fazem
com que o custo do fracasso seja o “suicídio mutuo”. Idênticas a todas as
iniciativas desde a época de Eisenhower, as propostas do SALT II, de 1978-79,
afundaram-se nos problemas paralelos de política presidencial e crise
internacional. Os futuros analistas e historiadores precisarão lembrar de, pelo
menos, um fato indesejável: que é virtualmente impossível separar os avanços nas
teorias de combate aéreo com armas nucleares, das posições defensivas
resultantes da Guerra Fria.
A guerra aérea convencional após 1945, não atraiu tanto atenção dos teóricos,
embora tenha ocorrido com freqüência, principalmente na Coréia (1950-53), nas
Guerras Árabe-Israelita (1967 e 1973) e na Indochina (1960-1975). Os aumentos
nas autonomias de vôo, velocidade, carga útil e precisão dos armamentos foram
fenomenais , mas só ocasionalmente tiveram impacto sobre o curso da guerra
terrestre, como sobre o Egito em 1967 e, possivelmente, em Hanói em 1972.
As circunstâncias prevalecentes, nos primeiros meses de guerra da Coréia,
exigiam o uso imediato das poucas aeronaves disponíveis para o apoio direto às
Forças Terrestres. A baixa prioridade outorgada à aviação tática , entre 1945 e
1950, repetiu-se no campo da doutrina , o que General O.P. Weyland, Comandante
das Forças Aéreas dos EUA no Extremo Oriente, chegou a comentar, em anos
subseqüentes, que os eventos da Segunda Guerra Mundial não haviam sido
registrados, disseminados ou mesmo entendidos. Salvo nas regiões mais
setentrionais da Coréia do Norte, e após a intervenção chinesa, a superioridade
aérea não foi problema, e o maior esforço das Forças Aéreas relacionou-se à
interdição do suprimento e esforço do inimigo. Foi preciso reaprender as lições
do norte da Itália, em 1944 e 1945: para que a interdição (via aérea) do campo
de batalha seja eficaz, as Forças de Superfície precisam “contratar” a
iniciativa tática. Quando operarem sozinhas, sem que as Forças Terrestres
aliadas pressionem o adversário, as aeronaves podem hostilizar o inimigo e
atrasar o movimento dos suprimentos, mas não conseguem ganhar o combate por si
sós [33].
Após a Coréia, as Forças Aerotáticas americanas novamente entraram em declínio.
Deu-se enorme ênfase ao reforço do Comando Aeroestratégico. Em 1955, a
experiência coreana era considerada uma aberração, que provavelmente não se
repetiria no futuro. Thomas K.Finletter, que tinha sido secretario da Força
Aérea* durante a Guerra da Coréia, escreveu que a guerra tinha sido “um caso
especial e que o Poder Aéreo tinha pouco a aprender (da guerra da Coréia) a
respeito do futuro papel que desempenhará na política externa americana na
Leste”. O relatório final das Forças Aéreas no Extremo Oriente concordava,
dizendo que “certamente qualquer tentativa de fortalecer uma Força Aérea a
partir do modelo das necessidades na Coréia, seria fatal para os Estados Unidos”
[34]. Embora esses pontos de vista tenham prevalecido ulteriormente, outros
pensadores militares tentaram sustar a esmagadora ênfase conferida ao Comando
Aeroestratégico.
Em 1954, ao voltar do Extremo Oriente para assumir o Comando Aerotático, o
General Weyland iniciou cinco anos de luta infrutífera para conseguir lugar
equivalente para as Forças Aerotáticas. A maior parte do seu esforço, porem,
direcionou-se à criação de uma capacidade nuclear para os aviões de caça e
bombardeio. (durante os últimos anos da década de 50, era aceito, com
naturalidade, que “na próxima guerra” seriam usadas armas nucleares “táticas”).
Em conseqüência, as aeronaves projetadas rigorosamente para o combate ar-ar (ou
a superioridade aérea) foram negligenciadas e foi sustado o aperfeiçoamento de
munições convencionais. Isso ocorreu apesar da opinião de Weyland, expressa em
1656, de que “no futuro imediato, o conflito mais provável será do tipo
periférico. Nesse caso será, primordialmente, uma guerra aérea” [35]. Na
Grã-Bretanha, o Marechal-em-Chefe do Ar Sir John Slessor foi além: “devemos
esperar outras Coréias”... A idéia de que um Poder Aéreo superior pode, de
alguma maneira, substituir o ‘bater forte’ no inimigo e sua habilidade
profissional em terra, pode ser sedutora, mas é ilusória ... “Nada disto traz
conforto àqueles que esperam que o Poder Aéreo seja o atalho ate a vitória
"[36].
Nas guerras ocorridas nas colônias, após a Segunda Guerra Mundial (como a
Indochina, em 1945-1954; na Malásia, em 1948-1960; e na Argélia, 1954-1962), o
Poder Aéreo funcionou quase totalmente como modulo de apoio. De um modo geral,
os poucos analistas que estudaram esses eventos concluíram que o uso de mais
eficaz do Poder Aéreo era em “funções que não implicassem em apoio de fogo,
reconhecimento, transporte, ligação e, em geral, aumento de mobilidade para as
demais Forças”. Tais conclusões não atraíram atenção nos Estados Unidos. O grito
de “não mais Coréias” abafou qualquer outra consideração e, virtualmente, todas
as idéias relativas a preparativos para combate em grande escala, provavelmente
com a União Soviética e sobre a Europa. Quando a Força Aérea israelense fez um
verdadeiro “Pearl Harbour” com a Força Aérea egípcia em 1967, durante a Guerra
dos Seis Dias, os aviadores americanos, que já se sentiam totalmente frustrados
com as restrições impostas na Indochina, identificaram no planejamento e na
execução israelense o tipo de guerra aérea que realmente aspiravam.
Do ponto de vista da teoria e da doutrina do Poder Aéreo, os esforços dos
Estados Unidos na Indochina, de 1965 a 1972, enfrentaram diversos problemas. Os
arranjos de comando e controle ao longo do tempo, resultantes de uma combinação
de preocupações diplomáticas externas e imperativas institucionais internas dos
serviços militares americanos, criaram uma situação na qual haviam,
simultaneamente, cinco guerras aéreas distintas: uma no sul do Vietnã,
envolvendo o maior nível de esforço e o maior sucesso militar; outra no Vietnã
do norte; duas outras, secretas na época, no norte de Laos e de Camboja; e uma
quinta no sul de Laos, ao longo da trilha de Ho Chi Minh. A atenção publica
concentrava-se nas guerras aéreas sobre o Vietnã do Norte.
As metas iniciais da campanha foram as seguintes; (1) pressionar o governo de
Hanói para que retirasse seu apoio aos insurgentes no Sul; (2) interromper o
fluxo de ressuprimento e homens para o Sul; (3) fortalecer o moral das forças
pró-governamentais no Vietnã do Sul, reafirmando o compromisso dos Estados
Unidos com a luta. As decisões relativas ao modo como as metas seriam
alcançadas, eram rigorosamente controladas pelo governo, em Washington, que
determinava o cronograma, o ritmo, os alvos prioritários (mesmo ao nível de
alvos individuais) e ainda, o esforço de combate. Desde o inicio, rigorosas
“regras de engajamento” limitavam as opções dos comandos no cenário de combate,
e até proibiram a adoção de medidas necessárias à obtenção da superioridade
aérea. Impediam, por exemplo, ataques contra bases em construção para mísseis
superfície-ar (SAM) ou os aeródromos inimigos (receando matar assessores russos
e chineses nesses locais, o que poderia levar ao aumento das tensões entre as
superpotências). Se isso justificava a preocupação do governo quanto à
possibilidade de aumento não-intencional das tensões, não se pode dizer o mesmo
de sua decisão de, ainda assim, empregar suas Forças Aéreas (incluindo as navais
e as dos fuzileiros). Não há precedentes no uso do Poder Aéreo visando atingir
metas limitadas, de natureza essencialmente psicológica e, muito menos, numa
campanha na selva, dirigida a partir de um Quartel General, localizado a dez
milhas de distancia...
Os aviadores impacientavam-se com estas limitações, embora não se rebelassem.
Pelo contrário, apresentavam o melhor desempenho possível nas circunstancias
prevalecentes, até que lideres no governo chegasse à verdade como veio a ocorrer
no Vietnã do Sul, assim como no cerco Khe Sanh em 1968 e, ocasionalmente, no
Vietnã do Norte. Nas operações Linebacker (de 1972), o Poder Aéreo demonstrou
ser decisivo individualmente. De uma maneira geral, contudo, o experiência na
Indochina, apesar das experiências com novas táticas e armas (como as técnicas
de busca e salvamento, helicópteros e aeronaves de ataque, desfolhantes,
armamento guiado), revelou-se desapontadora, tanto para os teoristas como para
os profissionais. Exceto, é claro, quando se ressaltam, os registros dos atos
heróicos na Indochina, e que podem ser empanados.
O sucesso de Israel, em 1967, não pôde ser repetido em 1973, devido à surpresa
conseguida pelos egípcios quanto ao considerável aprimoramento das defesas
antiaéreas de superfície (os mísseis superfície-ar e a artilharia de superfície
dirigida por radar). Na Indochina, os americanos tinham enfrentado uma geração
anterior dos SAMs e, tendo em vista a situação do contexto do ar sobre a maioria
(embora não todos) dos alvos terrestres, eles provaram sua capacidade. Mas o
progresso tecnológico da ultima década, em especial aquele resultante dos
avanços quase diários na microeletrônica, trouxe dúvidas a respeito da questão
das operações ofensivas versus as defensivas.
Isso foi particularmente evidente na Europa, onde os americanos, tendo a
Indochina como um fato passado, promoveram um grande incremento do Poder Aéreo
da OTAN. Isso para se contrapor à superioridade do Pacto de Varsóvia em
blindados para combate terrestre, assim como um alarmante aumento da Aviação
Frontal e de Longo Alcance da União Soviética. Com capacidades tanto
convencionais quanto nucleares, as aeronaves de caça e de caça-bombardeio da
OTAN têm como função precípua a dissuasão. Entretanto, colocados em operação,
nenhum dos dois lados sabia o que ocorreria, considerando que, provavelmente,
ali é o espaço aéreo mais congestionado do mundo e ainda, as incertezas das
técnicas de guerra eletrônica e da tecnologia dos mísseis, sempre em evolução.
A única coisa a respeito da qual se tem certeza, neste confuso progresso da
tecnologia na área da guerra aérea convencional, é o aumento exponencial dos
custos, que estão levando o preço de cada aeronave para centena de milhões de
dólares. Uma vez que o aumento dos custos tem, inevitavelmente, o efeito de
reduzir o futuro número de aeronaves disponíveis, e até a disposição de
engajá-las em combate,, alguns aviadores – geralmente apóstatas solitários –
começaram a propor uma reviravolta: passar de um pequeno número de aeronaves de
grande sofisticação tecnológica para um número maior de aeronaves menos
avançadas. Se isso ocorrer, será um verdadeiro divisor de águas visto que, nunca
antes na historia da guerra aérea, os pilotos que voam e combatem estiveram
dispostos a abrir mão, antecipadamente, das vantagens tecnológicas. No entanto,
a maior vulnerabilidade das aeronaves às defesas antiaéreas combinados com os
altos custos unitários das aeronaves podem levar a uma reavaliação das
prioridades tradicionais.
Uma possível mudança de ênfase seria para a plataforma destinada aos armamentos
guiados. É apenas natural que os aviadores dêem maior atenção à plataforma,
particularmente visando aprimoramentos em velocidade, autonomia de vôo,
agilidade e outras características de desempenho. É, também, natural que haja
uma certa relutância dos aviadores em incentivar rápidos avanços no campo de
veículos de pilotagem remota, ou VANT. Contudo, os VANT não são considerados um
tema de discussão apropriados pela maioria dos pilotos, entre os quais o ponto
pacífico de que uma aeronave tripulada sempre pode desempenhar sua missão melhor
do que uma não-tripulada.
Dois experientes aviadores britânicos, recentemente, especularam a respeito das
implicações futuras de alguns dos problemas com que as Forças Aéreas se
defrontam, os quais variam desde restrições políticas a questões de
vulnerabilidade e de custos. Concluíram que a resposta aos atuais dilemas só
pode ser encontrada com o aumento da precisão no emprego da arma tática. Se
fosse possível desenvolver tecnologia para atingir essa meta – argumentam – os
líderes políticos relutariam menos em considerar o Poder Aéreo como um braço
onipresente da primeira hora, e não como último recurso. Quanto à
vulnerabilidade e aos fatores de custo, dizem, isso significaria dizer “que é
preciso diminuir o número de aeronaves de ataque postas em risco, enquanto são
engajados um maior número de alvos terrestres”. A solução do problema está nas
táticas que mantém as aeronaves fora de alcance das defesas mais eficazes,
enquanto permitem o uso de múltiplos armamentos flexíveis e de alta precisão.
Uma mudança de “ênfase anterior nos desempenhos da plataforma e dos armamentos,
portanto, parece não apenas inevitável como também imperativa”(37)
Desconhece-se se quanto estamos próximos a mudanças significativas nessa ênfase.
Um fator inibidor importante é a falta relativa de experiência em combates
aéreos, nos últimos dez anos. As amostras não apenas foram pequenas – nenhuma
bastante grande para ser considerada definitiva – como também, transitórias.
Igualmente, qualquer resposta ao que essas limitadas experiências “provaram”,
foi obscurecida pela natureza limitada dos objetivos visados. Outro problema é
até que ponto as burocracias, os interesses criados e os feudos existentes
poderiam se adaptar às mudanças. Nos Estados Unidos, por exemplo, embora o
Exército e a Força Aérea estejam desenvolvendo veículos de pilotagem remota,
cada Força tem problemas com seus próprios componentes, quanto às implicações
organizacionais da incorporação dos VANT em seus acervos.
Atualmente, não há nada mais incerto na guerra aérea do que o futuro. Como foi
assinalado no início, os efeitos da tecnologia e as ações dos profissionais
sempre desempenharam papéis mais importantes do que os das idéias. É até
possível que se tenha chegado ao limiar de um progresso tecnológico que
transforme substancialmente a identidade do Poder Aéreo. A guerra eletrônica, os
novos satélites, o armamento guiado e aeronaves não-tripuladas sugerem uma nova
era para a aviação. Da mesma maneira que motivaram a criação de um novo
vocabulário. Aliás, os avanços nas viagens espaciais, o ônibus espacial e a
tecnologia de “guerra nas estrelas”, utilizando raios laser e armas de energia
dirigida, pressagiam novos e vastos horizontes para o aviador. Poder-se-ia
concluir, com certa apreensão, que a tecnologia, de per si, poderá ser o
principal teorista do Poder Aéreo, mas que as invenções são, por enquanto, as
mães da aplicação.
Entenda-se TEORISTA como aquele que, embora conheça os princípios de uma
ciência, não a pratica ou não sabe praticá-la... (novo vocabulário AURÉLIO-
Língua Portuguesa).
Reflexões finais
O crescente desenvolvimento das Aviações dos Exércitos e das Marinhas em todo o
mundo, tem trazido à baila algumas questões de capital importância para a
fixação da Doutrina de Emprego do Poder Aéreo, como um todo. Não é pequeno o
número de vezes que surgem tentativas de simplificação do emprego do Poder Aéreo
e, em particular, na minimização da importância de sua participação nas
Operações Aerotáticas. Essa simplificação procura deixar transparecer que, na
conduta da manobra aérea no Teatro de Operações, o Poder Aéreo somente é
indispensável na neutralização das posições de resistência que impedem ou
limitam o movimento da Força de Superfície. Ou seja, o Poder Aéreo apenas
contribui nas tarefas de Apoio Aéreo Aproximado. Dessa forma, não fica muito
difícil negar ao Poder Aéreo o direito de existir como Poder UNO e,
principalmente, DECISÓRIO.
Porém, o mais curioso (não percebido, ou convenientemente esquecido) é que, ao
serem simplificadas as ações no Teatro de Operações, reduzir-se-iam, da mesma
forma, as operações terrestres e navais a uma série de batalhas, desvinculadas
do cenário geral e vivendo apenas o momento desse combate, em particular. Seria
admitir que, á época das proezas lunares, uma guerra mundial ou local, possa ser
decidida em uma única batalha, à semelhança do Waterloo ou Moscou...
O que talvez venha onerando o perfeito entendimento do emprego ao Poder Aéreo
(quer em suas ações Aerotáticas, Aeroestratégicas ou de Defesa Aérea) é a
facilidade de marginalizar o aspecto da conflagração global, em que os conceitos
de tempo, profundidade e espaço vinculados a Ações Continuadas, que é o caso em
um estado de guerra (ou conflito).
Mas não será esse o maior ônus, se estivéssemos em “colisões” apenas no campo
doutrinário. O que há, na realidade, é uma “redução simplificativa” por força do
desconhecimento do que se passa no panorama de guerra global, e aerotático em
particular. No Brasil, tal desconhecimento está vinculado ao fato de que na
experiência passada a FAB viveu em combate durante as fases de Interdição e
Apoio Aéreo Aproximado, não tendo sido empenhada na conquista do Domínio do Ar,
embora tivesse sido preparada para tanto, também!
Se além de tudo isso somarmos à equação, como novo membro, a “ação aérea de
contra-insurgência ou antiterrorismo” (e sua inevitável e inaceitável
transformação do Poder Aéreo em “utilidade”), adentrar-se-á um terreno
confusional, pois o que é a ação de contra-insurgência ou antiterrorismo senão
uma operação de ataque, planejada, controlada e executada da “mesmíssima”
maneira que em qualquer das fases das Operações Aerotáticas já mencionadas?
A utilização do avião como instrumento tático ou, mais simplesmente (como pensam
alguns), o “uso do avião para aumentar o alcance da Artilharia”... é – sem
sombra de dúvida – conseqüência ou resultado, e não causa que venha por si só
justificar a aplicação do Poder Aéreo na solução das operações de guerra: o uso
do Poder Aéreo transcende tal estágio...
Uma viagem nas páginas da História da Aviação Militar como fizemos comprova que,
muito antes de estarem os aviadores engajados nos problemas da neutralização e
destruição das forças inimigas envolvidas na manobra de superfície, já estavam
os “ases” da luta aérea exercendo ações de patrulha aérea de combate e, como
conseqüência, a caça do inimigo no ar.
Somente a flexibilidade de emprego do avião de combate – dádiva excelsa posta
nas mãos do soldado-do-ar – é que permitiu sua incursão no domínio do apoio de
fogo à manobra de superfície: o que multiplicou geometricamente o horizonte de
emprego da arma aérea. E foi, debaixo dessa nova visualização, que vimos
finalizar a 2a Guerra Mundial, transcorrer o conflito Coreano, a conflagração do
sudeste asiático, sem mencionar outros atritos armados em diversas partes do
mundo.
Essa atuação em proveito do “apoio de fogo” de tal forma foi enfatizada e
solicitada (e chegou adquirir tal monta), que compeliu à adição de novos
parâmetros à sua sistematização. E daí datam as primeiras iniciativas tomadas
pelas Forças Aéreas do mundo moderno, no sentido de analisar da economicidade de
emprego das aeronaves de combate de primeira linha, versus os resultados a
atingir nas ações de “apoio”. Como conseqüência lógica, surgiram respostas (já
esperadas) no seio da “comunidade de combatentes do ar”: para as ações de
natureza tática, o micro-caça, o avião de ataque, a aeronave de
contra-insurgência ou o helicóptero-armado representam a melhor solução de
compromisso entre a massa de emprego associada ao rendimento operacional, face
aos resultados desejados... Melhor, pois, do que empregar as “grandes bestas
armadas”...
Nessa fase da história da aviação, cujas páginas recém-acabamos de folhear, o
arsenal de material aéreo mundial colocou em serviço um sem-número de pequenos
combatentes (até treinadores) cuja tônica promocional era a variedade de
armamento transportado, o baixo custo operacional, a bivalência e simplificação
operativas (treinamento + combate), a redução da infra-estrutura de apoio, o seu
tamanho físico, o custo unitário e (aspecto importante para o 3o Mundo, Brasil
incluso) a possibilidade de construí-los “nos fundos de sua garagem”.
Evidentemente, essa é uma receita que tem “enfermo e moléstia” pré-definidos.
Não pode ser vista como regra universal. Mas, sem perceber, alguns analistas
menos (ou mal) avisados aceitaram – antes de mais nada – a tese da simplificação
do emprego do Poder Aeroespacial no campo tático. E estreitaram ainda mais o
campo de ação e de interveniência desse Poder, eliminando sua capacidade
potencial, reduzindo seus horizontes etc. Com isso conduziram a
aviação-de-guerra ao retorno às origens, já antes por eles negadas: a volta ao
“status de arma” ou ao “serviço”, que remonta ao passado longínquo...
Isso não significa que somos contrários à regra da simplificação, em termos do
investimento, da economicidade e do rendimento nas ações aerotáticas. Significa,
sim, uma repulsa à simplificação, pura e simples, estribada em doutrina
importada (ou pré-fabricada por alguns) que, se mal interpretada ou mal
aplicada, conduzirá fatalmente `a redução da importância da parcela de valor
somatório que é o poder Aéreo, na grande equação do Poder Nacional.
Adotemos, Senhores Membros da Força Aérea, antes de mais nada, um comportamento
intelectual compatível: a vivência e o valor combatente do Poder Aéreo não estão
justificadas pelo exercício tão-somente das ações de “conseqüência ou
resultados”, como é o caso das tarefas cumpridas no cenário tático. Mas sim,
pelo somatório das suas inúmeras características ímpares que, por não estarem
sempre à vista são olvidadas... por muitos. Mas não por nós!
Muito antes do que abater os inimigos no solo, nossa tarefa é o domínio do ar –
a Superioridade Aérea. A ação tática é consequência ou resultado de nossa
múltipla capacidade. Nosso verdadeiro destino é a conquista do espaço, o ataque
ao coração do inimigo e a destruição de sua vontade de combater...
O resto é decorrência... é acessório!
• O autor é Major-Brigadeiro-do-Ar Refm
Referências
(1) On War, edição e transcrição de Michael Howard de Peter Paret,
edição revisada (Princeton, 1984), pp. 429-483.
(2) Noble Frankland. “The Bombing Offensive against Germany Outlines and
Prospectives” (Londres, 1985), pp. 16-17.
(3) As palavras são de Octave Chanute, em 1894, citadas por Charles H. Gibbs –
Smith, “Aviation An Historical Survey form its Origins to the end of World War
II” (Londres, 1970), p. 221. Em 1864, Victor Hugo tinha escrito em termos
eufóricos ao balonista francês Nadar que a invenção da aeronave significaria o
fim das guerras. Da ciência viria a paz, uma vez que a aeronave traria consigo a
abolição imediata, absoluta, instantânea, universal e perpétua das fronteiras. O
restante da profecia era menos confiante.
(4) Parafraseado de Robin Higham. “Air Power - A Concise History” (Nova Iorque,
1972). Como aqueles familiarizados com a obra do saudoso Bernard Brodie poderão
perceber, este problema seria exacerbado na era das armas atômicas e, mais
tarde, nucleares.
(5) Mesmo hoje, a quase totalidade das obras importantes neste campo é realizada
por historiadores oficiais, a maioria dos quais funcionários públicos
governamentais, embora incluindo, principalmente nos Estados Unidos e na
República Federal da Alemanha, notáveis contribuições de militares. Quando o
Comitê Internacional em prol da História da Segunda Guerra Mundial anunciou (no
seu News Bulleting # 19 de Dezembro de 1983) um plano francês de uma conferência
no final de 1984 a respeito da aviação nos anos entre as guerras, acrescentou
sucintamente: “O problema é achar historiadores civis”. Para uma discussão
informativa acerca dos aeronautas e das suas relações com os historiadores, veja
Dennis E. Showalter, “Two Different Worlds: the Military Historian and de U.S.
Air Force”, Air University Review 31, nr. 4 (maio-junho de 1980), pp. 30-37.
(6) O termo Poder Aéreo é usado de diversas maneiras. Logicamente, deveria ser
reservado para discussões relacionadas ao potencial total da capacidade aérea de
uma nação, na paz e na guerra, em empreendimentos civis ou militares. Esse uso,
contudo, é raro, cuja honrosa exceção é “Air Power: A Concise History”, de
Higham. Neste ensaio, o termo será utilizado com o significado específico de
aplicação militar. A palavra “Airpower” (também significa Poder Aéreo em
inglês), uma forma que parece ter uma conotação quase de magia, pode ter sido
inventada pelo Major Alford Joseph Williams no seu “Airpower (Nova Iorque,
1940). Mais tarde, foi novamente utilizada pelo Major Brigadeiro Orvil A.
Anderson, da USAF, que a adotou no seu relatório do Pacífico # 71A do U.S
Strategic Bombing Survey (1947) e a utilizou, mais tarde, em Julho de 1959,
quando mudou o título de “The Air Power Historian” para “The Airpower Historian”
(atualmente Aerospace Historian, esta última mudança se remontando a Outubro de
1965). Poder Aéreo é usado editorialmente pelo Air Force Magazine e foi
“santificado” pelo Airpower Research Institute (ARI) do Centro para a Doutrina,
Pesquisa e Educação Aeroespacial (CADRE) da Air University, na Base Aérea de
Maxwell, no Alabama.
(7) A respeito de Fullerton, veja Alfred F. Hurley, Billy Mitchell, “Crusader
for Air Power”, nova edição (Bloomington, 1975), pp. 141-142, 175 n.2.
(8) Para o Memorando de Smuts, veja Walter Raleigh e H. A Jones, “The War in the
Air, 7 volumes (Londres, 1932-37)”, 7:8-14, e Frankland, “Bombing Offensive
against Germany, pp. 21-46”.
(9) O ensaio de Warner foi publicado em “Markers of Modern Strategy”, editado
por Edward Mead Earie (Princeton, 1943), pp. 485-503, e tem sido reproduzido
inúmeras vezes na bibliografia das Academias Militares, Escolas de Estado Maior
e Escola de Guerra.
(10) Ibid., p. 485
(11) Warner estava servindo como Vice-Presidente do Civil Aeronautics Board
quando o ensaio foi publicado. Anteriormente, tinha sido Secretário Adjunto da
Marinha para assuntos de aeronáutica e editor de Aviation. Para mais detalhes a
respeito da sua carreira, veja Current Biography, 1949, pp. 620-622, e seu
obituário no New York Times, de 13 de Julho de 1958.
(12) Para a obra de Douhet, veja as notas bibliográficas no texto deste ensaio.
(13) Para um exemplo surpreendente, veja Bernard Brodie, “Strategy in the
Missile Age” (Princeton, 1959), pp. 88-90. O capítulo de Brodie “The heritage of
Douhet”, pp. 71-106, pode ser útil, embora não esteja à altura dos seus padrões
usuais.
(14) A biografia de Hurley foi tomada da sua dissertação de doutorado em
Priceton, “The Aeronautical ideas of General William Mitchell”, 1961. Foi
publicada inicialmente em 1964 (Nova Iorque). Estas referências foram retiradas
de nova edição (Bloomington, 1975).
(15) Ibid., p. 139
(16) Veja Brodie, “Strategy in the Missile Age, pp. 71-72”.
(17) O filme animado de longa metragem (65 minutos) de Disney, lançado em Julho
de 1943, (enquanto “Makers of Modern Strategy” estava em impressão), combina um
desenho animado de “Victory Through Air Power” (da qual toda a produção tomou o
título). O filme teve um impacto considerável – e incomensurável – no público,
sugerindo uma vitória rápida, limpa e eficiente sobre os poderes do Eixo,
mediante frotas aéreas enormes que liquidariam com a produção no Japão, na
Itália e na Alemanha. “Life” não o criticou (“boa história e uma boa diversão”),
mas alguns críticos ficaram desconcertados pelas suas implicações, e alguns
apontaram que, embora o filme ilustrasse a destruição iminente de três nações,
conseguia fazê-lo sem mostrar a morte ou a mutilação de qualquer pessoa, em
quaisquer das partes. O trabalho promocional de Seversky continuou, após a
Segunda Guerra Mundial (como no seu “Air Power: key to survival (Nova Iorque,
1950)” e ele continuou a ser confidente de autoridades aeronáuticas americanas
até seu falecimento em 1974.
(18) Após Douhet, Mitchel e Trenchard, durante a década de 20 e no início dos
anos 30, o desenvolvimento da teoria e da doutrina do Poder Aéreo transformou-se
num produto empresarial mais do que num esforço individual.
(19) A respeito de Liddell Hart e Fuller, reportar-se ao nr. 20.
(20) Veja Tenente Coronel David J. Dean, USAF, “Air Power in Small Wars: The
British Air Control Experience”. Air University Review 34, nr. 5 ( julho-agosto
1983), “pp. 24 – e as fontes nele citadas.
(21) Para o relato de um participante acerca do trabalho da Tactical School e da
sua influência na estratégia aérea dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra
Mundial, veja Major Brigadeiro Haywood S. Hansell, Jr., “The Air Plan That
Defeated Hitler (Atlanta, 1972)”: este assunto é tratado mais concisamente em
“Strategic Bombing in Word War II” e “The Story of the U.S Strategic Bombing
Survey (Nova Iorque, 1976)”, pp. 4-12, no qual este parágrafo e o anterior foram
calcados.
(22) Brodie, “Strategy in the Missile Age, 107”. Não se pretendia que este ponto
de vista obtivesse aprovação universal. Um observador dedicado, o
Tenente-Brigadeiro do Ar Ira C. Eaker, Comandante da Oitava Força Aérea dos
Estados Unidos durante a guerra, descreveu este parágrafo em 1977 como um “ponto
de vista tendencioso, preconceituoso, sem qualquer relação com os fatos”.
(23) Arthur Harris, “Bomber Offensive (Londres e Nova Iorque, 1947)”.
(24) Nos Estados Unidos, uma Comissão Presidencial (estudos sobre Bombardeio
Estratégico dos Estados Unidos, ou USSBS) publicou 321 relatórios entre 1945 e
1947: 212 eram sobre a guerra na Europa e 109 sobre a guerra no Pacífico. A
história da USSBS é contada em Macisaac, “Strategic Bombing in World War II”,
que também inclui um relato resumido acerca da comissão britânica equivalente, a
Unidade Britânica de Estudos sobre Bombardeio estratégico, (BBSU). Veja também a
introdução geral em “The U.S Strategic Bombing Survey: Selected Reports in Ten
Volumes”, da “Garland Publishing (Nova Iorque e Londres, 1976)”, que resume, até
1975, as permanentes controvérsias acerca da eficácia dos bombardeios
estratégicos na Segunda Guerra Mundial.
(25) Veja William W. Momyer, “Air Power in Thre Wars (Washington, DC., 1978)” e
Thomas A Gardwell III, “Command Structure for Theater Warfare: the Quest for
Unity Command (Maxwell Air Force Base, 1984)”.
(26) Minha “pequena lista” incluiria: Bernard Brodie, Herman Kahn, Henry A
Kissinger, Albert J. Wohistetter, Thomas C. Schelling, Oskar Morgenstern, P.M.S.
Blackers, André Beaufre, Alistair Buchan, Pierre Gallers, Robert F. Osgood,
William W. Kaufman, Maxwell Taylor, V.D Sodolowskil, Basil H. Liddell Hart,
James M. Gavin, Michael Howard, Sir John Soessor e Raymond Aron.
(27) Bernard Brodie, “The Absolute Weapon (Nova Iorque, 1946)”. Em Março de
1946, Arthur C. Clarke, então um jovem tenente-aviador da RAF, sem qualquer
conhecimento da obra de Brodie, chegou essencialmente a mesma conclusão” “A
única defesa contra as armas do futuro é evitar que sejam empregadas. Em outras
palavras, o problema é político e não militar. As forças armadas nacionais não
podem mais defender seu país; o máximo que podem prometer é a destruição do
atacante”. (Ênfase do original). Veja o artigo “The Rocket and the Future of
Warfare”, do mesmo autor, em Royal Air Force Quarterly 17, nr. 2, (Março, 1946),
pp. 61-69.
(28) O artigo de Earle em Yale Review, de Junho de 1946, “The influence of Air
Power upon History”, conclui ponderando que “não é mais retórico afirmar que, a
não ser que destruamos a guerra, a guerra acabará por nos destruir”. (Uma vez
que a maioria dos leitores que travam contato com o ensaio de Earle o fazem pela
versão citada por Eugene Emme em “Impact of Air Power (Nova Iorque, 1959)”, devo
frisar que as elipses de Emme mascaram totalmente o espírito sombrio das
conclusões de Earle e omitem, por exemplo, a conclusão aqui citada).
(29) Para a melhor e mais breve colocação de um ponto de vista que defendo neste
texto, veja o comentário final de Bernard Brodie acerca destas questões em “The
Development of Nuclear Strategy”, International Security 2, nr. 4 (Primavera,
1978), pp. 65-83.
(30) Veja deste autor, “The Air Force and Strategic Thought, 1945-54”, em
“International Security Studies Program Working Paper # 8”, “The Wilson Center,
Washington, DC., Junho de 1979”; Samuel F. Wells, Jr., “The Origins of Massive
Retaliation“, Political Science Quarterly 96, nr. 1 (Primavera, 1981), pp.
31-52, e D. Macisaac e S.F. Wells, Jr. “A Minuteman Tradition tradition”, em The
Wilson Quarterly 3, nr. 2 (Primavera, 1979), pp. 109-124.
(31) O título é de Max Lerner (Nova Iorque, 1962 (mas, o tema é de Ralpf F. Kapp
(e, G., Kill and Overkill (Nova Iorque, 1962), e aqueles que contribuiram,
durante estes anos, para “The Bulletin of Atomic Scientists”.
(32) Para uma resenha da literatura do período (1979-1983) a respeito da “Janela
de vulnerabilidade” e de outros mitos, ver, deste autor, “The Nuclear Weapons
Debate and Ameriacam Society”, em University Review 35, nr. 4 (Maio-Junho 1984),
pp. 81-96.
(33) Ver M.J. Armitage e R.A Mason, “Air Power in the Nuclear Age (Champaign,
illinois, 1983) capítulo 2”. A história oficial é de Robert F. Futrell, “The
United States Air Force in Korea 1950-1953 (Nova Iorque, 1961”, edição revisada
Washington, D.C., 1983). Há uma retrospectiva valiosa, escrita por quatro
comandantes do ar, “seniors”., em “Air Superiority in World War II and Korea,
editado por Richard H. Kohn e Joseph P. Harahan (Washington, D.C., 1983)”.
(34) Citado por Armitage e Mason, em “Air Power in the nuclear Age. p. 44”.
(35) Ibid., pp. 44-45
(36) Ibid., p. 45. Esta colocação foi tirada de seu artigo “Foreign Affairs”, de
Outubro de 1954, em “Air Power and World Strategy”.Alguns anos mais tarde em
“The Great Deterrent (Nova Iorque, 1958)”, argumentava que mesmo os aviadores
deveriam procurar rebater “as táticas do cupim – subversão, infiltração e
exploração de fatores como nacionalismo imaturo”. Poucos deram seu apoio.
(37) A citação e o parágrafo anterior constam de Armitage e Mason, “Air Power in
the Nuclear Age, pp. 256-57, capítulo 9”. “Challenges and Opportunities” é um
excelente resumo deste tópico.
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