1.2- Análise da Conjuntura Brasileira (1956/1964), através das Expressões do Poder Nacional:


1.2.5 - Expressão Militar

A despeito da oposição de alguns setores castrenses, o General Henrique Lott, com corajosa intervenção, reorganizou a cena política, compatibilizando legalidade e legitimidade.

Mágoas e ressentimentos em setores militares marcaram, então, o início do governo Kubitschek.

 Revoltas e rebeliões, inconsistentes e românticas - como Jacareacanga -, ensejaram a oportunidade de anistiar a todos aqueles que haviam participado de ações político-militares desde o episódio de novembro de 1954.

O desentendimento entre a Marinha e a Aeronáutica, em torno das aeronaves que passariam a operar no porta-aviões Minas Gerais, adquirido com a intenção - frustrada - de cortejar os militares, só não resultou em conseqüências mais graves pelo decisivo apoio emprestado pelo Ministro da Guerra, fiel e sereno fator de equilíbrio durante todo o governo de Kubitscheck.

O surpreendente erro de cálculo cometido por Jânio Quadros no episódio da renúncia demonstrou a imprecisão de seu conceito sobre os militares. Perplexos e desconfiados com a dubiedade da política conduzida pelo exótico presidente, preferiram vê-lo afastar-se da Chefia da Nação - a despeito das conseqüências que isso fatalmente acarretaria -, a ter que continuar convivendo com a demagogia populista, as incertezas e oscilações do excêntrico governante, cujo temperamento variava entre profunda depressão e esfuziantes demonstrações de megalomania.


Parlamentarismo foi a artificial solução engendrada para viabilizar, após a renúncia, a posse do Vice João Goulart, na Presidência da República. O populismo sindicalista de Goulart provocava, na grande maioria da oficialidade, repulsa e indignação.


Com efeito, Jango demonstrou não situar-se à altura da complexidade dos antagonismos então existentes. Confuso, impotente, não passava de conveniente fachada legal, manipulada por aqueles que, determinada e afoitamente, queimavam etapas na perseguição de objetivos definidos e preconizados no receituário anárquico-sindicalista, travestidos de Reformas de Base. Ao cabo de pouco mais de dois anos, o País assistiu, atônito, à institucionalização da baderna, traduzida na intencional inversão de valores e preocupante quadro econômico - robusta inflação e despudorada corrupção - acompanhados de acintoso desrespeito ao princípio da autoridade, inclusive no meio militar. Para todos, já era claro que o próprio governo financiava e incentivava a anarquia. Seus mentores de fato controlavam, com audácia, as rédeas do aparelho governamental. Não se aperceberam de que, na verdade, não detinham o poder.


Numa inequívoca demonstração de repúdio a tudo a que assistia, a Nação foi às ruas, numa opção clara contra o caos reinante. Insistente clamor da sociedade arrancou as Forças Armadas do estado letárgico que até então as anestesiava. A resistência praticamente não existiu. Ao contrário, o País respirou aliviado. Estava a salvo do comunismo vinte e cinco anos antes da derrocada da União Soviética.


Segundo setores moderados das Forças Armadas, a intervenção ideal seria limitada, não somente no tempo, mas, também, na profundidade cirúrgica a ser feita nas instituições políticas.


Para outros, mais radicais, era chegada a hora de os antigos Tenentes tomarem totalmente o poder e extirparem de vez os obstáculos ao Brasil potência. Frustrados, os líderes civis do movimento aliaram-se aos opositores da véspera. Não foi sereno o início do novo Regime.


Não mais seguindo a tendência, rigorosamente observada, de entregar as rédeas do governo a líderes políticos aliados após as intervenções, as Forças Armadas, desta vez, exerceriam o poder na sua totalidade. O gérmen do Tenentismo havia renascido. Os Tenentes, quarenta anos após feitos Generais, iriam colocar em prática, sem as amarras das sutilezas político-partidárias, o ideário pelo qual tanto haviam lutado.


O período contemplado neste Volume, representou para a nossa História uma fase de profundas modificações na Expressão Militar do Poder Nacional. Decorrência da bipolaridade, as Forças Armadas Brasileiras experimentaram forte influência de suas congêneres norte-americanas, tanto no aspecto organizacional, quanto nas questões doutrinárias. O material de emprego militar, nas mais diferentes versões e modalidades, era quase totalmente oriundo dos Estados Unidos, caracterizando uma preocupante dependência. Na mesma época, foram criados institutos militares de pesquisas científico-tecnológicas, primeiro passo na tentativa de dotar o País de massa crítica indispensável à fabricação de equipamento militar, compensando, de certa forma, a referida dependência.


Conveniente para a expansão do Poder Nacional além de nossas fronteiras, foi a participação de contingentes brasileiros em forças internacionais.

O Marechal Castelo Branco, líder moral e intelectual do Movimento de 1964, iniciou, na Presidência da República, o ciclo de governos militares. Seu propósito - ficou claro desde logo - era o de realizar a profilaxia política e incentivar o desenvolvimento da boa prática administrativa, e, o mais rapidamente possível, fazer o País retornar à normalidade democrática. Imaginava, certamente, que aquela seria a melhor contribuição dos militares ao aperfeiçoamento das instituições do País. Ainda que alcançada por atalhos não convencionais, a cirúrgica intervenção no processo político permitiria alcançar o patamar a partir do qual o Brasil se projetaria no cenário mundial, ostentando crescimento harmônico de seu Poder Nacional.

Obstáculos variados, com origem na ambição e nas incontornáveis injunções políticas momentâneas, frustraram as intenções iniciais do velho Marechal. Temendo grave rachadura no esquema de sustentação, preferiu abdicar de seus conceitos e convicções e permitir a continuidade do regime de exceção, passando o governo ao General Artur da Costa e Silva.