1.2- Análise da Conjuntura Brasileira (1956/1964), através das Expressões do Poder Nacional:
1.2.3 - Expressão Psicossocial
O golpismo marcou a transição de Getúlio Vargas a Juscelino Kubitschek. Garantida pelo Exército a posse deste, inaugurava-se um novo período na vida social e cultural brasileira. O popular de Vargas, depois nacional-popular, passava agora a ser o
popular-nacional-desenvolvimentismo. A CEPAL, prestigiada pela política externa de Vargas, colaborou decisivamente para a concepção de um plano que permitia um novo equilíbrio entre os diferentes interesses que compunham o pacto político. A abertura da economia ao capital estrangeiro deveria permitir transformações estruturais aceleradas. A vinda do capital alienígena estava legitimada pela necessidade da técnica moderna capaz de tirar o País do atraso. A técnica seria o agente modernizador por excelência, capaz de neutralizar a miséria e as desigualdades. À frente da aplicação dessas idéias apareceu o ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros -, organização do MEC que congregava intelectuais de vários matizes, mas principalmente dos campos comunista e socialista.
Os militares eram vistos por eles com suspeição, exceto, é claro, os também comunistas.
O País era despertado por uma nova marcha. Para Oeste: A construção de Brasília, a bossa-nova, a literatura baseada no concretismo e o cinema do realismo italiano (O Cangaceiro), a nova arquitetura de Niemeyer e Lúcio Costa.
A crítica social e política de fundo ideológico entrava em cena, afetando o teatro, o cinema e, depois, a TV.
O projeto pretendia a superação do principal óbice encontrado pela industrialização restringida ou limitada de Vargas, que era a dependência do setor agro-exportador para a produção de divisas. O capital estrangeiro deveria ajudar na superação dessa limitação, e o modelo foi batizado de "capitalismo independentemente associado". A instrução 113 da SUMOC daria forma à idéia, e o capital estrangeiro poderia entrar sem cobertura cambial.
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O País cresceria de forma admirável (de 2 milhões de barris de petróleo/ano, em 1955, para 30 milhões, em 1960), embora a desnacionalização da indústria fosse evidente. |
Havia no ar uma euforia desenvolvimentista. Um valor novo do urbano, do progresso material, dos novos horizontes do Brasil. A agricultura suportou o peso do esquecimento e da inflação.
A vida cultural, além dos empreendimentos geralmente citados, assumiu um jeito de ser conforme padrões cosmopolitas.
O modelo já entraria em crise a partir de 1960. A inflação fazia vítimas. A desorganização impressionava, e a corrupção também.
Os anos de 1960 a 1963 são, primeiro de esperança (meses da gestão de Jânio Quadros), depois de pesadelo e desorganização acelerada da vida política. Jânio iniciara uma revolução em política externa (abertura à África e aos países socialistas). Fascinado pelo terceiro- mundismo (Tito,
Nehru, etc), pretendia fazer do Brasil o líder da transformação latino-americana, em certa oposição a aspectos da política externa e cultural dos EUA. Novos ares sopravam em Brasília. Mas, com a renúncia, tudo voltou à crise de antes: apreensão e corrupção.
A tentativa dos ministros militares de impedir a posse de João Goulart refletia a profunda divisão da sociedade, apreensiva com os rumos que o País tomaria, uma vez entronizado o ex-ministro do trabalho de Vargas. Jango assumiria posições cada vez mais à esquerda e estava literalmente cercado de comunistas que, desde o início dos anos 50, passaram a ocupar cargos importantes nas universidades e no governo.
A mobilização social pela posse do vice-presidente seria ampliada no governo de Jango, em parte em face da ação de comunistas infiltrados no governo e numerosos simpatizantes da causa vermelha. Dinheiro e apoio não faltaram à UNE, aos teatros populares e pretensos movimentos de alfabetização, a sindicatos a movimentos de ruralistas (eram chamados de "camponeses"; na Baixada Fluminense cuidava-se de armá-los para o confronto com o Exército). No meio militar, com a preparação de sargentos, cabos e soldados para a sublevação militar (levante de sargentos, em Brasília, ocupação de sindicato no Rio de Janeiro por marinheiros, etc). Os partidos revolucionários (PCB, PC do B, Movimento Tiradentes, Polop e outros menores) foram amplamente beneficiados com apoio de recursos, dados a seus integrantes. A intelectualidade da esquerda marxista tomou conta das universidades, dos centros de pesquisa e insinuou-se até nos estabelecimentos militares.
O governo de Goulart demonstrou ser bom para os marxistas, apoiando-os, mas era péssimo para o País, não somente por razões ideológicas, mas, principalmente, por incompetência e corrupção.
A sociedade civil urbana estava assustada com o que via. Escassez de gêneros, desordem, privações de todo tipo, inflação de 100% ao ano, monopólio de empregos para setores de esquerda, violência e corrupção generalizada.
Expressiva mobilização civil conservadora ocorreu, simultaneamente, no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, pedindo a intervenção das Forças Armadas para a preservação das instituições políticas, do regime constitucional e fazer cessar a anarquia e a corrupção. Depois, viria a bandeira anticomunista - porque esse perigo efetivamente existia, como demonstra a história de outros países que pagaram preço muito maior para vencer o antagonismo bolchevista no teatro interno.
Em 31 de março de 1964, as forças do Exército começaram a mover-se para afastar Jango e os comunistas do comando do País. O movimento praticamente não se defrontou com resistência. Pelo contrário, encontrou entusiástico apoio da sociedade urbana. Uma festa que valeu uma edição especial do TIME e uma separata:
"The country that saved itself", saudando o vigor da sociedade civil brasileira que salvara o Brasil da iminência do comunismo.
No período compreendido entre 1964 e 1966, o Brasil vivenciou expressivo desenvolvimento a par de excelentes ações que objetivaram a racionalização política e econômica do País.