Europa em declínio

* Paulo Nogueira Batista Júnior

        Em fevereiro passado, uma notí­cia chocou os europeus: Barack Obama não com­pareceria à cúpula anual Estados Unidos-União Européia, programada para maio do corrente ano, na Espa­nha.

        Ao que parece, o presidente dos EUA não está disposto a atravessar o Atlântico para participar de cúpulas EUA-UE com pouca substância, como a que ocorreu em Praga no ano pas­sado.

        A decisão de Obama é um sinto­ma de algo mais amplo: o persisten­te declínio relativo da Europa. O brasileiro nem sempre percebe es­se fenômeno e deposita, às vezes, esperanças provavelmente infun­dadas no papel que a Europa pode­ria desempenhar como contrapeso aos EUA em um mundo crescente­mente multipolar. Os europeus têm bom "marketing" e fazem belos dis­cursos progressistas.

        Eu mesmo sofria dessas ilusões quando morava no Brasil. Estou agora há quase três anos no exte­rior, em contato quase diário com representantes europeus no FMI. Participei, também, de muitos en­contros do G20, nos quais a presen­ça européia é expressiva. Depois disso, a minha avaliação da Europa — ou, pelo menos, da sua atuação internacional — se modificou total­mente.

        Com algumas exceções, que se devem em geral a qualidades indi­viduais de alguns representantes europeus, a Europa atua de manei­ra medíocre e conservadora.

        A maioria das idéias infelizes, no FMI e no G20, tem origem na Euro­pa. Os britânicos têm se destacado nesse particular. Posso dizer sem medo de errar: a Europa é hoje a principal força retrógrada nas ins­tituições financeiras internacio­nais.

        Os sinais do declínio relativo da Europa estão em toda parte. Por exemplo: embora os EUA (especifi­camente o mercado financeiro americano) tenham sido o epicen­tro da crise internacional de 2007-2009, a Europa parece ter sofrido um impacto maior. A recessão foi mais profunda na Europa do que nos EUA em 2009. Segundo dados preliminares, o PIB americano caiu 2,5%. O da área do euro diminuiu 3,9%. Alemanha, Itália e Reino Uni­do registraram quedas de quase 5%. Só a França teve desempenho ligeiramente melhor, com queda estimada em 2.3%.

       A recuperação europeia também está sendo mais lenta. Para 2010, as projeções do FMI indicam que a área do euro deve crescer apenas 1% e o Reino Unido, 1,3% — menos do que os EUA (crescimento esperado de 2,7%) e até abaixo do Japão (1,7%).

        Na periferia européia, o quadro e ainda pior. Muitos países entraram ou estão prestes a entrar em colap­so financeiro. Vários tiveram que recorrer ao FMI no passado recen­te. Foi o caso da Ucrânia, da Sérvia e da Islândia, por exemplo. Mas também de membros da União Eu­ropéia: Hungria, Letônia e Romê­nia.

        Nas últimas semanas — suprema humilhação — especula-se que, pe­la primeira vez, um país integrante da área do euro teria que recorrer ao FMI: a Grécia. As autoridades eu­ropéias, temendo a perda de pres­tígio, procuram evitar esse desfe­cho.

        0 pior é que a crise grega já con­tamina outros países do Sul da Eu­ropa, que também fazem parte da área do euro, notadamente Portu­gal e Espanha. Os mercados finan­ceiros já se referem com desprezo aos "PIGS" (Portugal, Italy, Greece and Spain)...

        A grande realidade é que a Euro­pa é um continente envelhecido, que vive das glórias do passado e procura se agarrar a privilégios e posições que já não refletem o seu peso atual no mundo. É o que ocor­re aqui no FMI, onde a super-representação européia é simplesmente escandalosa.

        Tudo isso me fez pensar em Charles de Gaulle que, em 1969, pouco antes de morrer, comentou, com tristeza: "Eu tentei fortalecer a França em face do fim de um mun­do. Fracassei? Outros o saberão, mais tarde. Sem dúvida, o fim da Europa está diante de nós."

* O autor é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional.