O Brasil é visto como potência emergente
no campo econômico e adquiriu peso político para ser ouvido globalmente.
Essa ascensão implica assumir responsabilidades e gera novas necessidades
para o País que o colocarão em rota de colisão com atores poderosos,
particularmente EUA, China, Rússia, União Europeia e Japão - eixo do poder
que conduz os destinos do mundo -, todos eles potências nos campos político,
econômico, militar e científico-tecnológico. O crescente poder econômico nos
faz ser ouvidos, mas não basta para sermos acatados.
Potências são países com capacidade para defender a soberania, o patrimônio
e a integridade territorial contra ameaças estrangeiras, projetar-se
externamente para garantir interesses importantes e participar com
autoridade de decisões em fóruns internacionais. Existem condições que
contribuem decisivamente para lograr tal status. Vasto território rico em
recursos naturais e uma grande população. Poder econômico, militar e
científico-tecnológico. Permanência de políticas e estratégias durante
sucessivos governos para a consecução dos objetivos fundamentais, condição
difícil em países divididos por ideologias, etnias e religiões
inconciliáveis. Educação integral - conhecimento, cultura, ética e civismo
-, raiz da coesão nacional e de uma liderança com visão estratégica e
autoridade moral dentro e fora do país.
A liderança brasileira manifesta o propósito de ombrear o País ao eixo do
poder, mas não garante a constância dos recursos orçamentários para
fortalecer as Forças Armadas, de modo a reduzir oportunamente o hiato com as
potências do eixo nos campos militar e científico-tecnológico. O Brasil
poderá viver em curto e médio prazos conflitos em que, por não dispor de
poder militar para respaldar intenções do Estado, terá de limitar ou abdicar
de interesses importantes ou, então, buscar alianças para defendê-los, com o
inconveniente de que elas cobrarão um preço elevado. Mas essa não é a nossa
única vulnerabilidade.
O Brasil ainda é um país em formação, pois falta integrar a imensa Amazônia,
área de enorme valor por sua riqueza e posição geoestratégica, onde a plena
soberania será fator determinante para nossa inclusão no eixo do poder. A
liderança brasileira, sem visão de futuro, não entende que interessa àquele
eixo compartilhar a soberania sobre a Amazônia não só pelos seus recursos e
sua posição, mas também para impedir a ascensão do Brasil como potência
rival. Assim, submete-se à pressão internacional exercida por meio de uma
estratégia indireta, progressiva e velada, particularmente na questão
indígena, e adota políticas que comprometem a soberania e o patrimônio
amazônico. Mas essa não é a nossa última vulnerabilidade.
As relações internacionais são como um teatro de operações onde a batalha é
pelo poder. É correto dizer, ao contrário de Clausewitz, que a política é a
continuação da guerra por outros meios. A derrota nesse jogo tem um custo
elevado para um Estado, desde a perda de status internacional até o seu
próprio desaparecimento - vide Roma na Antiguidade e Reino Unido, Alemanha e
URSS no século 20. Portanto, é natural priorizar o realismo pragmático sobre
o idealismo em política exterior. Tal desequilíbrio aumentou graças ao
egocentrismo, materialismo, consumismo e prepotência, antivalores em voga
transmitidos do indivíduo para a nação e daí para as estratégias nas
relações entre países, sempre com prejuízo dos mais fracos.
Há um anseio mundial pela valorização do humanitarismo, com ênfase em
justiça e solidariedade, no sentido de reduzir as grandes diferenças entre
nações ricas e pobres. Abre-se o espaço para um discurso idealista-realista
de uma potência emergente que, preservando o interesse nacional, atraia o
apoio às suas demandas pelo expressivo universo de países periféricos dos
fóruns internacionais, bem como ponha os países mais fortes na defensiva.
Não é um seguro total contra as potências do eixo, mas limita-lhes a
liberdade de ação parcialmente, enquanto a potência emergente reduz suas
vulnerabilidades.
A liderança nacional está inviabilizando a ocupação desse espaço por
conduzir a política exterior pela linha ideológica socialista radical e
jurássica do Foro de São Paulo, subordinando interesses nacionais aos
partidários, e pelo discurso dúbio, que acerta ao condenar a prepotência e
falta de solidariedade do eixo do poder, mas perde credibilidade ao endossar
regimes ditatoriais que sufocam a liberdade, amordaçam a imprensa, prendem,
torturam e matam opositores. Peca pela parcialidade mal disfarçada no
conflito entre Colômbia e Venezuela, instando por moderação aos respectivos
presidentes quando está claro que as provocações e ameaças partem do aliado
Hugo Chávez. Erra ao interferir em Honduras desastradamente, recebendo
contundentes respostas do povo hondurenho nas urnas, do Congresso e da
Suprema Corte do país ao confirmarem a deposição de Manuel Zelaya. Mera
incoerência ou hipocrisia?
Mas a maior vulnerabilidade é a enfermidade moral do País. A liderança é
patrimonialista e se apodera ilegalmente dos bens públicos como se fossem de
sua propriedade. Apoia-se na impunidade e na omissão da sociedade, que, sem
esperança na Justiça, também assume a falta de ética e valores. Sociedade
carente de exemplos e referências que, anestesiada, se contenta com a
satisfação de necessidades básicas e a falsa noção de liberdade, que usa sem
responsabilidade e disciplina, tornando-a um bem ilusório. Tudo isso
debilita a coesão nacional e a autoridade moral de nossa liderança,
condições para inserir o Brasil no cenário dos conflitos onde reina o eixo
do poder. Só um choque de valores e um sistema educacional moral e
profissionalmente recuperado poderão sanar essa gravíssima vulnerabilidade.
Luiz Eduardo Rocha Paiva, general da reserva, é professor
emérito e ex-comandante da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército