Bartolomeu Lourenço de Gusmão: O Pai da Aerostação

 (1685-1724)

* Manuel Cambeses Júnior

 

         

Bartolomeu Lourenço de Gusmão foi uma personalidade de excepcional singularidade, na qual o homem, o sacerdote e o criativo inventor, se fundiam numa figura polifacética, que enxergava muito acima de seu tempo, sofrendo, como corolário, as naturais e inevitáveis consequências dessa excepcionalidade.

 

          Nasceu na Vila do Porto de Santos, São Paulo, no mês de dezembro de 1685 e estudou no Seminário jesuíta de Belém, na freguesia de Cachoeira, Capitania da Bahia, onde se ordenou. Em 1701 foi para Portugal, tendo regressado ao Brasil pouco depois, para retornar a Portugal em 1708, com o intento de realizar o curso de Cânones da Universidade de Coimbra. Ali desenvolveu e aprofundou os seus estudos de Física e Matemática.

          A presença do homem na terceira dimensão passa, necessariamente, pelo talento brasileiro, revelado na primazia de domínio das tecnologias de ascensão em balão livre, balão dirigível e, mais tarde, do aeroplano.

          Trezentos anos nos separam da experiência bem sucedida de Bartolomeu de Gusmão, um dos maiores gênios inventivos da história da humanidade. Inteligência privilegiada, sua concepção do aerostato, como engenho de locomoção superior, através da atmosfera, não ficou no engenho em si, evidenciando excepcional visão prospectiva.

          Como nenhum outro inventor de sua época, seu espírito perscrutou o futuro, revelando, em sua célebre “Petição de Privilégio”, dirigida a D. João V - que tinha descoberto um aparato, para se locomover pelo ar -, o quanto estava avançado em relação aos estudos sobre o domínio do ar. Nela projeta-se por inteiro a visão profética de um bem-dotado que, à luz de um invento, fruto da elaboração primorosa de seu cérebro, não titubeou em declarar a possibilidade da navegação aérea.

          Não há, pois, como discordar da afirmativa de Domingos Barros, que considera a “Petição de Privilégio”, de 1709, “a primeira e a mais bela página da Aeronáutica”.

          Belas páginas, sem dúvida, que lhe valeriam, entretanto, contestações e sátiras contundentes, umas e outras caracterizando a saga dos que vivem muito além de seu próprio tempo, pagando alto preço por esta condição.

          Bartolomeu de Gusmão foi um predestinado, aliando atributos de competência, tenacidade e avidez de cultura que o conduziram a momentos de imensa criatividade.

          Coincidentemente, um seu irmão, também predestinado, Alexandre de Gusmão (1695-1753), geógrafo e diplomata, foi o magistral redator do preâmbulo do Tratado de Madrid, que, consagrando a tese do “utis possidetis”, consolida, em 1752, um século de expansão portuguesa, no continente americano, fixando praticamente os limites da terra brasileira.

          Jovem ainda, Bartolomeu de Gusmão concretizou o seu primeiro invento, fazendo subir a água de um lago a uma altura de cem metros para abastecer o Seminário de Belém, edificado sobre um monte; com isso eliminou o penoso e demorado transporte em recipientes de pequena capacidade.

          Quando inventou os balões, não os imaginava só na paz, navegando por diletantismo, e, sim, como surpreendente veículo de expansão dos conhecimentos humanos, provendo as necessidades do homem, na paz e na guerra. Além disso, viu-os como elemento de aproximação entre culturas, proporcionando, pela rapidez dos deslocamentos, o conhecimento mútuo das conquistas científicas dos homens, em todas as latitudes. Tudo isso deixou transparecer claramente em sua “Petição de Privilégio”.

          Na famosa Universidade de Coimbra, apesar de sua profissão original – o sacerdócio católico – não foi no ensino da teologia que desenvolveu sua inteligência privilegiada, mas sim no da ciência matemática. No retiro de sua residência, entregava-se ao estudo da astronomia e da mecânica aplicada.

          Ao anunciar, em abril de 1709, a intenção de realizar experiências com a sua máquina de voar, Bartolomeu de Gusmão passou a ser alvo de inusitada curiosidade. Atraiu para si críticas de seus contemporâneos, que, por deficiência de cultura, não conseguiam compreender o alcance de sua obra. Antes mesmo dos primeiros ensaios, poetas sem inspiração lançaram mão de todos os recursos, para detratar o jovem inventor brasileiro. Por ironia do destino, as sátiras dos detratores se transformaram em verdadeiras comprovações das experiências de Gusmão, e os autores das agressões, sem nenhum talento, só passaram a ser conhecidos quando associados aos ataques desfechados contra o precursor da Aeronáutica.

          Entretanto, paralelamente aos detratores, havia também os divulgadores da boa nova. A correspondência enviada às nações da Europa, seja por diplomatas acreditados junto à corte de D. João V, seja por simples visitantes, proporcionou extraordinária divulgação do invento na Itália, na Alemanha, na Inglaterra e no Império Germânico.

          A verdade é que, pela documentação existente, pode-se assegurar que Bartolomeu de Gusmão construiu um aerostato e fê-lo elevar-se aos ares de uns quantos metros acima do solo.

         

Em agosto de 1709, a Corte portuguesa reuniu-se para assistir a demonstração de tal invento. Foram realizadas três exibições, e as datas não são bem conhecidas, assim como as características do aparato apresentado pelo inventor brasileiro, diante do rei e de autoridades eclesiásticas.

       

        O núncio de Lisboa, cardeal Conti, futuro Papa Inocêncio XIII, estava entre os convidados. A primeira demonstração foi realizada no dia 3 de agosto, sem sucesso. O aparato se incendiou numa das salas da Casa da Índia. Uma segunda exibição foi realizada no dia 5 do mesmo mês, mas o sucesso foi questionável. Assim que o engenho se elevou aproximadamente a 4 metros, os serviçais, receosos de verem as cortinas pegarem fogo, como medida preventiva, o destruíram.

          No entanto, a terceira experiência, realizada no pátio da Casa da Índia, e novamente com a presença do rei, da Corte, de fidalgos e nobres e de uma imensa multidão, mostrou de forma inédita, um artefato produzido pelo homem elevar-se livremente no espaço, sem nenhum apoio, e deslizar-se no ar. Voou e foi esbarrar numa cimalha da torre da Igreja do Rosário. Com a colisão, o pequeno balão caiu e incendiou-se. Era a primeira vez que um aparelho mais leve que o ar realizava um voo. Mas a demonstração não causou muito entusiasmo. Foi algo muito tímido, muito singelo, muito distante das promessas ofertadas ao rei. Bartolomeu, numa reação natural, sente a necessidade de prestar esclarecimento sobre o invento, na realidade um pequeno globo com uma vela, incapaz portanto de realizar qualquer uma das anunciadas proezas.

          Embora o inventor tentasse explicar como o aparelho deveria ser interpretado, seus argumentos não podiam convencer nem o público nem os poucos sábios portugueses que viam nas palavras dele argumentos desconexos e sem elaboração minimamente científica.

          O globo de papel com uma vela acesa é o que hoje conhecemos nas tradicionais festas juninas, ou seja, os tradicionais balões de São João. Evidentemente, tal invento não poderia realizar as promessas feitas no pedido de privilégio, mas demonstrava ser possível buscar uma solução, para um aparelho voador até então desconhecida. Era um protótipo, e seu desenvolvimento poderia ter dado frutos mais práticos. Mas Portugal não era, à época, local para isso acontecer. Não havia tradição no estudo das ciências e o país estava em atraso em relação a vários países da Europa.

          O ambiente científico era praticamente nulo. Inexistiam revistas científicas, as publicações eram raras e o ensino era voltado primacialmente para o terreno das ciências teológicas, a jurisprudência e a literatura. Na Universidade de Coimbra já fazia algumas décadas que não havia sequer um professor para a cátedra de matemática.

          Porém, em que pese não ter despertado grande interesse em Portugal o pequeno voo do balão, o mesmo não ocorreu em outros países. Logo a notícia se espalhou ganhando novas cores. “Um padre voou em Lisboa: Padre Voador Bartolomeu Lourenço”. Junto com as notícias sensacionalistas surgiu um desenho apócrifo, provavelmente feito pelo próprio inventor, representando um estranho artefato munido dos mais extravagantes instrumentos. Com uma cabeça de águia, tinha uma espécie de pequena nave, onde ia instalado o navegante, cercado por instrumentos científicos: esferas imantadas, uma luneta, um astrolábio e outros elementos. Ademais, remos em forma de penas parecem contribuir para o deslocamento no ar, e um estranho engradado cobre a barcaça onde está o piloto. Ímãs estão distribuídos dando a entender que a força magnética poderia ter ali uma função. E, para não deixar vestígios de dúvida, na parte posterior um grande pavilhão real com o sol heráldico dos Bragança. O que se vê é uma fantasiosa representação de alguma invenção que não faz nenhum sentido. O ponto crucial, a fonte térmica que permitia ao balão subir, não está representado, ou seja, foi abolida intencionalmente do desenho. Desta maneira, nada informa como tal aparato poderia navegar pelo ar. Curiosamente, as gravuras apareceram, em diversas variantes, em diferentes países. Foram publicadas na França, na Alemanha, na Itália, e o aparelho recebeu o nome de Passarola. Lamentavelmente, o desenho original se perdeu no tempo.

         

Muito embora o criativo inventor se dedicasse a outras atividades e abandonasse por completo o estudo e o desenvolvimento do balão, seu nome ficou indelevelmente associado à Passarola, e ele ficou conhecido como o “Padre Voador”, sem jamais ter voado.

 

          Não tem sido tarefa fácil aos historiadores reunir provas da prioridade aerostática de Bartolomeu de Gusmão. Não fora a dedicação de ilustres e persistentes pesquisadores, como Afonso de E. Taunay, reunindo peças em defesa do pioneiro, teria sido impossível atestar essa prioridade, em parte por culpa do próprio Gusmão que para evitar apropriação indébita de seu invento, o que era comum naquela época, omitiu em sua Petição a D. João V desenhos e detalhes do engenho que concebera. Inclusive, a única peça iconográfica contemporânea das experiências – a estampa Passarola – tal como hoje se conhece, foi engendrada por detratores, com o objetivo de desmoralizar o invento e o inventor, na medida em que sua concepção é fantasiosa, irreal e absurda.

          Mas, o que levou Gusmão a afirmar em sua Petição ter resolvido o problema da navegação aérea? Parece que mais uma vez o acaso foi o detonador das energias da inteligência humana, ao colocá-lo diante de uma observação simples: a de uma bolha de sabão que, subitamente, se elevou ao entrar no ar aquecido em torno de uma chama.

          De relance, Gusmão percebeu a dinâmica dos aerostatos, aparelhos mais-leves-que-o-ar, concebendo um engenho que adquiria força ascensional, valendo-se da diferença de densidade entre dois fluidos.

          Da concepção à realização foi um passo, não havendo mais dúvidas de que Bartolomeu de Gusmão fez subir aos ares um aerostato. Comprovam-no oito documentos pacientemente reunidos por obstinados pesquisadores durante quase um século: o primeiro divulgado em 1844 e, o oitavo, em 1938. Deles, contudo, não se pode inferir que o precursor da aerostação tenha sido, também, o primeiro aeronauta. Qualquer afirmação neste sentido não encontra respaldo em documentação confiável, até hoje conhecida.

          Sobre um ponto, porém, não há dúvidas: os documentos confiáveis registram o ano de 1709 como aquele em que os experimentos públicos (mais de um) se realizaram. No entanto, os testes realizados em sigilo, que, possivelmente, teria realizado, não há como comprovar.

           Os experimentos com o aerostato idealizado por Bartolomeu de Gusmão indiscutivelmente lhe conferem a primazia da conquista do ar.

           O reconhecimento dessa primazia, embora muito lento, vem sendo progressivo nos grandes países europeus, em que pese à pressão francesa reivindicando o feito para os Irmãos Montgolfier, em 1783.

          Mesmo entre os franceses, entretanto, houve os que, fiéis à verdade, não se deixaram levar por arroubos de patriotismo deformado, afirmando peremptoriamente, como o fez Marcel Jauneaud, em 1902: “La gloire française des Montgolfier et de Charles, ne sera pas diminuée par l´hommage que nous devons rendre au pauvre brésilien, qui fût vraisemblablement le premier aérostier des temps modernes.”

            Esta atitude contrasta com os insultos dos poetas de seu tempo, sobretudo Tomaz Pinto Brandão, que foi implacável em suas sátiras e crítica. Tendo vivido na Bahia, dali deportado para o Rio de Janeiro e, posteriormente, degredado para Angola, de onde conseguiu regressar a Portugal, o poeta passou a hostilizar os filhos de terras brasileiras, dos quais guardava amargas recordações.

          Gusmão, que se notabilizava na Corte pela genialidade, foi o alvo preferido de sua ira, mesmo após a morte. Na ânsia de diminuir e ridicularizar o feito e o inventor, paradoxalmente acabou registrando alguns aspectos importantes da vida e da obra de nosso pioneiro.

          Sempre prestigiado por D. João V, que nele reconhecia talento invulgar, Bartolomeu de Gusmão recebeu importantes missões diretamente do monarca. Entre elas, por exemplo, a de decodificar cifras usadas pelas chancelarias estrangeiras na correspondência com seus representantes credenciados.

          Era prática comum, naquela época, a violação da correspondência entre governos e seus embaixadores, o que os induziu à utilização de códigos para segurança das comunicações.

          Enquanto viveu, Bartolomeu de Gusmão traduziu todas as cifras que lhe foram apresentadas, revelando-se exímio decifrador. Com isso proporcionou ao Governo português conhecimento prévio de importantes decisões políticas de outros governos, o que foi extremamente vantajoso para a própria tomada de decisão de D. João V na solução de contenciosos entre Portugal e outras cortes.

          Entretanto, quanto mais revelava competência e probidade mais despertava a reação de quantos não se conformavam com os privilégios que auferia do monarca.

          Fundador da Academia Real de História coube-lhe escrever a História do Bispado do Porto, tarefa à qual se dedicou com verdadeiro espírito de pesquisa. Mas enquanto se dedicava a esse mister, foi progressivamente solapado pela ação destruidora de áulicos e de invejosos.

          Tão bem engendrada foi a campanha de difamação, que os membros da Academia, na última reunião de 1724, fingindo ignorar sua morte vinte dias antes, não só deixaram de lhe prestar as honras fúnebres de praxe, como decidiram hipocritamente ocupar a sua cadeira, considerada vaga em virtude de ter expirado o prazo de ausência consignado pelos estatutos.

          Na realidade, perseguido pelo Tribunal de Inquisição, ia Bartolomeu de Gusmão ser preso a 26 de setembro de 1724, culminando em processo de calúnia e intrigas contra ele preparado por seus opositores. Antecipando-se a esse evento, fugiu com seu jovem irmão, João de Santa Maria, religioso carmelita de vinte e um anos.

          Inicialmente pretendia atingir Paris, via Madri, mas o seu precário estado de saúde fê-lo interromper a viagem em Toledo, onde faleceu a 19 de novembro de 1724, no Hospital da Misericórdia. Perdido de tudo, até da própria vida, vislumbrou ali o seu último raio de luz, e tão indigente quanto anônimo, foi sepultado às expensas piedosas da Misericórdia na igreja de San Roman daquela cidade, que cristamente lhe deu a absolvição da Paz Eterna na lisura pacífica de uma tumba coletiva. Tinha trinta e nove anos de idade.

          Terminava, assim, uma vida plena de realizações, extremamente avançadas para a sua época e o entendimento de seus contemporâneos.

          Detentor inconteste da primazia aerostática, Bartolomeu de Gusmão foi, também, na feliz expressão de Taunay, o primeiro inventor americano.

          Neste ano em que comemoramos o tricentenário da experiência aerostática realizada pelo ilustre inventor brasileiro, rendemos justa homenagem a um homem cuja vida foi um eterno sonhar e sua magnífica obra o doce despertar para a materialização de ideias benfazejas.

          Pela dimensão de sua vida, pela preciosidade de seu exemplo, pela grandeza de suas lições e por suas brilhantes realizações, Bartolomeu de Gusmão tornou-se um gênio inspirador que paira sobre a Pátria inteira, extrapolando dos contornos de sua vida científica e sacerdotal, para fazer-se credor de título mais amplo e mais proporcional à grandeza e à multiplicidade de sua edificante vida: “Pai da Aerostação”.

 

* O autor é Coronel-Aviador e vice-diretor do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER)